Cap XX – Separação (Parte I)
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
Fernando Sabino
Essa manhã acordei com uma sensação estranha, um gosto ruim na garganta e um calafrio na espinha que insistia em manter-se de tempos em tempos, provavelmente deveria ser pelo fato do que o Vitor me pedira na noite anterior: Falar a verdade. Eu sei que sempre me condenei por mentir para os meus pais sobre nós dois, mas a idéia de falar a verdade e não ser aceita é pior que continuar mentindo.
Eu precisava ser forte, ser madura para admitir perante meus genitores tudo que fora omitido desde que meu relacionamento com o Vitor começou.
Eu e o meu pai não temos muito diálogo, às vezes nem conversamos. Em parte devo esse fato ao trabalho dele que toma quase seu tempo todo e em parte pelo fato de termos pensamentos bastante distintos e isso nos afasta. Ele sempre quis ser médico, disse que se tivesse a oportunidade de salvar vidas seria a pessoa mais realizada do mundo, mas meus avós não tinham dinheiro para financiar seus estudos, meu pai morava no sul e da cidade de onde veio os jovens começavam a trabalhar muito cedo para ajudar as famílias então com 15 anos ele já trabalhava na mercearia de um senhor, com 18 anos veio para o Rio trabalhar numa empresa de laticínios que foi onde conheceu minha mãe e assim os dois cresceram juntos dentro dessa empresa, se casaram e então eu nasci. Tudo muito normal e previsível uma coisa puxou a outra o ciclo natural da existência deu seu prosseguimento na vida dos meus pais e acho que isso explica a razão de tantas expectativas do meu pai sobre mim, acho que ele sentiria-se realizado ao me ver formada em medicina.
Meus avós só foram enriquecer depois de muito tempo, quando meu avô morreu e minha avó ficou com o jornal da cidade que até então tinha apensa três leitores, ela, o próprio jornaleiro e uma jovem florista, mas após a morte do meu avô a minha avó assumiu as matérias e fez questão de por ênfase nas colunas e nas reportagens da cidade. Foi uma tacada de mestre – como diria meu avô – em menos de uma semana o jornal passou a vender mais exemplares do que o que vinha da capital! Se meu avô tivesse tido uma conduta semelhante a que minha avó teve talvez as coisas fossem bem diferentes, agora não posso dizer se para melhor ou pior.
Em cima de meu criado-mudo ao lado da cama havia um cartãozinho com o endereço do Gabriel, ele pediu a minha mãe que me entregasse sei disso devido a um bilhete verde colado no espelho do meu quatro com as letras um pouco emboladas dizendo que o irmão do Fábio me procurara para despedir-se. Me senti mal por ter simplesmente sumido logo no dia que antecedia a volta do Gabriel para sua cidade.
A praça do condomínio estava mais vazia naquela manhã, as pessoas não costumam sair para caminhar quando está frio, pus um casaco azul, meus chinelos brancos e uma bermuda que tocava meus joelhos, nos meus ouvidos o trecho de uma música internacional prosseguia-se. Sentei no frio banco de cor azulada que enfeitava o lugar onde os moradores iniciavam seu dia, eu esperava por aquele senhor simpático e inteligente que uma vez me dissera algo de que eu nunca mais me esquecera: “Ás vezes pessoas boas fazem escolhas ruins e pessoas ruins fazem escolhas boas”.
Fiquei observando duas menininhas brincando, uma de cabelos castanhos enrolados e outra de cabelos tão lisos e loiros quanto os da Dani, parecia que aquilo era um flashback e eu estava assistindo a mim e minha melhor amiga brincar de boneca, não pude conter uma lágrima que escorreu traiçoeira fazia tempo que não conversava com a Daniele:
- Bom dia Lu. - aquela voz irritante penetrou meus ouvidos eu sabia quem era e não estava com a menor paciência para escutá-la.
- Bom dia Aline. - respondi para ser educada.
- Chorando? Porque? O “V” te traiu mais uma vez? - era perceptível a vontade dela de tocar na ferida, o único motivo que certa vez causara a nossa primeira separação.
- Agradeço a sua preocupação, mas não te interessa querida. - rebati pedindo aos céus que a presença dela evaporasse de perto de mim.
- Quem trai uma vez, trai duas, três, quatro... - ela prosseguiu diante de meu silêncio.
- Afinal Aline que prazer você vê em ficar dizendo todas essas baboseiras? Numa boa você acha realmente que o fato de você ter transado com o Vitor é um trunfo contra mim? Eu no seu lugar teria vergonha, ele não gosta de você, nem se quer te respeita... Depois de vocês terem feito sexo você viu o rosto dele na manhã seguinte? E quantas vezes ele te beijou? E me diz também quais foram as palavras mais bonitas que ele te disse? Você é digna de pena, uma mulher de verdade não se sujeita ao que você se sujeitou... - agora era ela que estava em silêncio perante minhas palavras ofensivas, estas que estavam todas engasgadas agora saiam cuspidas e altamente mortais apenas me calei quando vi seu Jorge sentar em um dos bancos da praça. Ele com a feição serena e acolhedora de sempre, deixei a Aline quieta com os olhos úmidos e caminhei na direção daquele doce senhor a sensação era de que minha alma estava lavada.
O seu Jorge me sorriu quando viu que eu me aproximava, sentei ao seu lado e antes que eu lhe dissesse qualquer coisa ele me dirigiu a palavra:
- Bom dia Luiza, soube que fez as pazes com o Vitor.
- Fiz sim. - respondi.
- Fico muito feliz, ele estava muito irritado com a sua aproximação com o irmão do Fábio, mas me diga e seus pais? Já sabem de vocês dois?
- Ainda não, era sobre isso que eu queria conversar com o senhor. O Vitor me pediu para falar a verdade, mas eu morro de medo dos meus pais não aceitarem. Tô me sentindo perdida demais, talvez seja melhor deixar como está. - admiti, apoiando a cabeça com as mãos enquanto olhava fixamente para a grama molhada pouco abaixo de mim.
- Filha não posso te dizer o que deve ou não fazer, mas na minha opinião por mais que a reação dos seus pais seja negativa é melhor eles saberem por você toda a verdade do que por pessoas como aquela menina que você estava conversando até a pouco. Uma mentira sempre precisa de mais uma para se manter.
Não respondi, meus pensamentos estavam emersos de dúvidas dizer ou não dizer a verdade? O seu Jorge estava certo ao que se referia quando me disse que se meus pais soubessem por outras pessoas seria pior, isso era fato. Ficamos até pouco antes do meio-dia conversando, voltei para casa embaixo de uma fina chuva na porta da geladeira um recado da minha mãe dizia que ela e meu pai estavam na casa da tia Sílvia, o tio Luís iria fazer um churrasco para assistir o futebol junto com meu pai, o almoço estava pronto e caso eu quisesse era para eu ir para lá. Não sentia fome, muito menos vontade alguma de ir até a casa da tia Sílvia, a Dani não estava falando comigo, me aproximar do Vitor seria quase que impossível então fiz o que melhor sei fazer, fui dormir rezando para que aquele dia passasse correndo e que na segunda-feira as soluções caíssem do céu assim como aquela fina chuva.
- Não é hora de dormir. - uma voz macia e suave aqueceu meus ouvidos, era ele, o Vitor deitado ao meu lado.
- Vitor? - estranhei a presença dele no meu quarto. Ele sorriu e a impressão que tive foi que tudo se iluminou, tornou-se mais belo e claro, eu deslizei minha mão direita por sobre seu braço até sua mão e entrelacei seus dedos com os meus, estávamos de bruços, deitados frente a frente:
- Isso é um sonho? - perguntei-me.
- Meu Deus, como você é bonita. - ele respondeu pondo meu cabelo para trás da orelha.
- É arriscado de mais. - tentei avisar, mas eu não me importava e muito menos ele parecia se importar também.
- Não se preocupe seu pai e o meu estão lá em casa assistindo ao jogo. - ele disse, beijando levemente meus lábios. Ficamos em silêncio logo após.
- Precisamos dar um jeito nisso. - eu disse.
- Estou tentando amor, hoje conversei com a minha mãe ela parece ter se acostumado com o fato de estarmos juntos.
- Estou com medo de te perder, hoje acordei com uma sensação estranha, um gosto ruim na garganta... Me promete que nunca vai me deixar? - eu pedi quase que suplicando, mas eu sabia perfeitamente que algo como aquilo não dependeria apenas dele só que eu precisava tranquilizar meu coração.
- Prometo. - ele me respondeu com o sorriso mais triste que já o vi dar.
Uma lágrima desceu de meus olhos, não sabia exatamente o motivo que estava me deixando tão triste a impressão que tinha era de que aquele era o nosso último momento juntos e felizes. Tentei sorrir para não preocupá-lo:
- Eu te amo Vitor.
Ficamos mais uma vez calados, não me importei eu só precisava dos olhos dele e de sua presença perto de mim para sempre era só dessa forma que minha alma se acalmava. Tentei ao máximo absorver a força que ele me passava para mais tarde sentar-me com meus pais e dizer a verdade, desejei como nunca que o time do meu pai ganhasse dessa maneira seria menos difícil.
A noite estava fria e sem estrelas, o Vitor não estava mais comigo e o time do meu pai havia perdido de virada, minha mãe assitia a um programa de TV sobre os acontecimentos da semana e meu pai digitava algo no seu notebook, ambos na sala. Eu não precisaria reuni-los, pois já estavam reunidos. Senti meu estômago embrulhar quando me aproximei do cômodo voltei meus pensamentos à imagem do Vitor e aquilo me deu força para continuar, dei meus passos curtos em direção à sala estava decidida a contar a verdade.
Sentei-me ao lado da minha mãe, meu pai havia fechado o computador e voltado seus olhos à reportagem que falava sobre mudanças climáticas:
- Esse mundo esta perdido mesmo. - meu pai fez o primeiro comentário num tom piedoso como se ele não morasse no mundo ao qual se referia.
- A Daniele estava estranha hoje, não saiu do quarto. - foi a vez da minha mãe comentar algo que não tinha nada haver com o contexto.
- Também Andréia ela esta grávida de um cara velho de mais para ela. - meu pai continuou.
- Graças a Deus nossa filha nunca nos deu um desgosto desse. - senti meu coração apertar com o que minha mãe havia dito, será que seria um verdadeiro desgosto eu namorar um rapaz de 21 anos (a idade do Vitor)? Afinal não há tanta diferença de 21 para 17 .
- Depende, mãe, do tipo de rapaz com que a pessoa se relaciona. Se o cara tem uma boa família, é educado, respeita a pessoa com quem esta não vejo mal algum na diferença de idade. - fui sútil para saber a opinião deles.
- Não adianta Luiza, homens mais velhos são sempre mais experientes, vão querer certos tipos de relações que meninas da sua idade ainda não estarão prontas. - minha mãe explicou expondo seu ponto de vista nada favorável a minha condição.
- Muda essa sua opinião aí Luiza, você tem o exemplo da Daniele. Te garanto que não sou tão legal quanto o Luís e a Sílvia. - meu pai ameaçou como se estivesse imaginado o que eu iria dizer e aquilo me irritou pelo fato de que nunca fiz nada de errado para palavras tão duras. - Está querendo dizer o que com isso? Sei perfeitamente que o senhor não é igual aos meus padrinhos, já me acostumei com essa realidade. - fora impossível permanecer calada.
Meu pai desligou a televisão e girou seu rosto em minha direção, minha mãe levantou para tentar impedir a eminente discussão que viria:
- Estou querendo dizer que você até agora não passou em nenhuma faculdade e não esta nenhum pouco interessada na sua carreira de cirurgiã e para variar tem esses pensamentos absurdos e burros em relação a rapazes mais velhos! - meu pai disse tudo aos gritos, sem pausas para respirar.
- Carlos se acalma, Luiza vai pro quarto! - minha mãe pediu entre eu e meu pai.
- É porque eu não quero fazer medicina! Não quero passar em nenhuma faculdade para isso! É sonho seu e não meu! - pronto a primeira verdade havia sido dita, estava fora de meus planos dizer dessa forma.
Meu pai emudeceu e minha mãe fitou-me aparentemente assustada, permaneci quieta esperando a reação dele:
- Quer dizer que foram totalmente vãs os meus esforços para pagar o colégio aonde você estudou?
Sequei algumas lágrimas que insistiam em rolar por minha face e num tom calmo e suficientemente audível eu respondi:
- Não pai, não foram vãs... Eu descobri o que realmente quero e gosto de fazer... - após uma pausa continuei - Vou ser jornalista.
Meu pai sorriu irônico e minha mãe permaneceu quieta:
- Vai morrer de fome então, você acha realmente que jornalismo vai te dar futuro? Luiza deixa de ser burra em cada esquina tem gente querendo a mesma coisa e quantos conseguem? Pensei que você fosse madura para ver que de sonhos não se vive o ser humano.
- Não é porque seu sonho de ser médico não se realizou que o meu não vai se realizar. - eu havia tocado exatamente na ferida do meu pai, senti quando ele fez menção para vir em minha direção, porém minha mãe o havia impedido, corri para o meu quarto e ali me tranquei, liguei o som no último volume para não escutar os gritos vindos do meu pai.
Acabei dormindo no chão do quarto, o CD que pus na noite anterior havia chego ao fim e eu precisava desesperadamente do Vitor, pelo horário meus pais não estavam mais em casa e provavelmente nem o Vitor, mas eu precisava tentar e assim liguei para ele:
- Bom dia amor! - o bom humor matinal dele me animou um pouco.
- Bom dia, está em casa amor? Preciso conversar com você.
- Já estou de saída, mas dou um pulinho aí.
- Ok, te espero. - eu respondi feliz por saber que em poucos minutos ele estaria comigo.
Realmente não demorou para ele chegar, meus olhos inchados e meu rosto vermelho denunciaram que eu havia chorado muito na noite anterior. Eu o abracei antes que me dissesse qualquer coisa e aquele meu ato o preocupou, sua roupa bem passada acabou um pouco amassada com a intensidade e força do meu corpo contra o dele:
- Por favor me leva daqui, me leva com você para qualquer lugar longe de tudo isso. - eu sussurrei em seu ouvido direito enquanto meus braços envolviam seu corpo numa tentativa desesperada de sentir segurança.
- Meu Deus Luiza, o que aconteceu? Seus pais não aceitaram nosso relacionamento? Me fala amor, eu posso tentar conversar com seu pai.
- Não, não cheguei a dizer sobre nós. Eu e meu pai discutimos feio ontem, ele me disse coisas horríveis e eu iz o mesmo. Eu só quero sumir daqui, de tudo isso... Vamos sair daqui Vitor, vamos para qualquer lugar... Eles não vão aceitar nos ver juntos. - continuei despejando em cima dele todos os meus medos.
-Vamos conversar amor. - ele iniciou puxando uma cadeira para ficar de frente a mim que estava sentada na poltrona da sala. - Você não vai enfrentar sozinha a provável resistência dos seus pais em relação a nós, mas primeiro temos que saber a opinião deles. Você e seu pai tem que conversar como duas pessoas normais, sem brigas. Luiza eu te conheço muito bem e tenho certeza que você não ficou quieta quando seu pai te disse alguma coisa que no seu ponto de vista fora ofensiva desse modo as coisas só vão piorar quando ele souber de nós dois. - ele começou segurando minhas mãos.
Eu sorri, triste, e emendei logo após:
- Olha onde você foi se meter Vitor. - eu disse referindo-me a toda essa confusão de contar ou não contar a verdade, de encontros escondidos, da diferença de idade.
- Nem me fale! Penso nisso toda hora, mas não conseguiria viver sem você. - ele brincou, beijando a maçã esquerda do meu rosto.
- Tenta conversar com seu pai sem brigas, você vai ver que não é tão difícil assim.
- Obrigado. - agradeci.
- Eu te amo, tá? - ele aproximou-se mais um pouco de mim e nossos lábios se tocaram num doce beijo que fez meus sentidos apagarem para tudo que estava a minha volta, só fomos atentar ao que estava prestes a acontecer quando uma voz grossa e alta nos interrompeu de forma assustadora:
- Não acredito. - era meu pai parado na porta da sala com uma maleta na mão e um celular na outra, ele estava ali em estado de choque vendo se acreditava ou não na imagem que flagrara, eu, a filha dele, usando um short curto e uma blusa larga beijando um rapaz mais velho, que havia sido criado com a família, este por sua vez de roupa social um pouco amarrotada devido a mim mesma.
Pronto o meu pai havia descoberto tudo e da pior maneira possível.
Fim da Parte I


oooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!! nem sei o q comentar coitada da luiza ....vai sofrer o pai dela é igual ao meu kara isso é tenso !!!
ResponderExcluirAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI, QQUUE TENSOOO, estou ficando deprimida, FAZ UMFINAL FELIZ PRA LUIZA A DANI E O VICTOR :D
ResponderExcluirtou besta ate agora
ResponderExcluirpior maneira do pai dela fikar sabendo
naum ela num pode fikar longi do vitor naum
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meu Deus do céu eles estam...
ResponderExcluiraiii kdê??
ResponderExcluirquando se vai postar maiis !!
ResponderExcluirto super curiosa !!!
Caraaaca! que tenso velho :S pqp.. to curiosa demaaais =/ hahahaha.. bjoooo
ResponderExcluirmorrendo de ansiedadeee
ResponderExcluirpoooooooooooooosta logo :s
ResponderExcluirpossttaaaaaaa :s !!!!
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