quarta-feira, janeiro 27, 2010

Cap XX - Separação (Parte IV)

Despertei com o toque suave de alguém, o dia já havia se esvaído por completo. Após o Vitor ir embora da minha casa pela manhã eu tomei um dos calmantes que haviam sido estocados no armário de remédios, era a forma mais rápida e menos dolorosa de passar aquele dia que parecia que não iria acabar, no canto do meu quarto a mala azul descansava já arrumada para a mudança pus apenas o necessário: vestidos, algumas calças e camisetas. A minha impressão era de que todas as minhas vestimentas aliás absolutamente tudo relacionado a mim havia sido marcado com a presença do Vitor.

Abri os olhos devagar e a face de minha mãe tomou aos poucos forma, seu sorriso estava doce e seus olhos acolhedores. Parecia que nada do que acontecera naquela manhã havia acontecido de fato, esperei que ela iniciasse a finalidade que a fizesse estar ali:
- Podemos conversar agora a sós. - ela disse, num tom baixo e calmo.
- O que quer saber? - perguntei reencostando-me melhor na cama enquanto esfregava meus olhos para a realidade.
- Como Luiza, só isso. Como você e o Vitor foram se envolver? Ainda não consegui entender isso direito.
Balancei a cabeça o calmante ainda fazia efeito e permanecer "ligada" ainda era uma tarefa difícil:
- Ta tudo bem com você Luiza? - minha mãe estranhou.
Sorri de forma irônica e comentei:
- Isso é algo bastante relativo não acha?
- Não concordo com a sua relação com o Vitor, mas quero entender.

Engoli seco, passei a mão direita pelo cabelo e o pus para trás da orelha, balancei a cabeça mais uma vez e comecei:
- A senhora já amou de verdade alguém?
- Luiza, não me responda com uma pergunta. - ela lamentou com um longo suspiro.
- Preciso saber se a senhora já amou de verdade alguém, se não a senhora não entenderá.
Ela pensou um pouco e seu rosto tornou-se pesado com a lembrança de algo que não foi dito:
- Sim.
- Sabe aquela pessoa que indiretamente tem o poder sobre suas emoções que nem mesmo você entende? Que com um toque ou uma voz faz seu mundo girar, te tira o chão? Sabe aquele abraço que te envolve e dá a impressão de que você está protegida de todos os males que possam te atingir? O Vitor não é só mais um rapaz, o beijo dele não é só mais um beijo... É tudo, como se as nossas almas se tocassem em algo maior eu teria que inventar uma expressão que definisse tudo isso porque “eu te amo” não é o suficiente, simplesmente não explica... E o pior mãe, a parte mais difícil é ver que as pessoas encaram esse sentimento que há entre eu e ele de maneira errada, é não poder enxergar um futuro para nós porque os pré-julgamentos das outras pessoas nos separam e isso tudo acaba comigo. - pausei por um segundo enquanto secava as lágrimas com a mão direita e logo após finalizei. - Você entende? Realmente você entende isso, mãe?
Ela me fitou e eu tive a impressão de que seus olhos brilhavam mais que o normal como se estivessem cheios d'água a realidade estava um pouco abstrata e eu não pude focalizar com absoluta nitdez a imagem a poucos metros de mim.
- Me desculpe. - depois de um tempo ela respondeu com a voz um pouco fraca eu não retruquei, permaneci quieta esperando por algo a mais, por algo que justificasse o motivo dela querer entender minha história com o Vitor.
Recebi um olhar vago antes de minha mãe cruzar a porta do meu quarto, voltei a dormir estava ainda sob efeito do remédio.

Na manhã seguinte um papel repousava sobre o criado-mudo ao lado da cama, era um recado da minha mãe, um papelzinho roxo e perfumado com um delicado recado:



“Esteja pronta às 21:30, te levarei ao aeroporto. Seu pai viajou a negócios.
Filha, aproveite o dia de hoje e acredite: eu sei o que você esta passando.
Me desculpe.
Andréia’’


Franzi a testa, o que minha mãe queria dizer com aproveite o dia de hoje? Um delicioso cheiro de café que vinha da cozinha interrompeu meus pensamentos o relógio marcava nove e meia caminhei em passos curtos até o cômodo ao qual aquele aroma agradável se originava, me assustei quando encarei um rapaz alto, de cabelos castanhos, usando uma camiseta branca , uma bermuda estampada e por cima um avental escrito: " Kiss the cook" (Beije o cozinheiro) fazendo o café, ele não me viu pois estava de costas, meu coração saltou e eu juro que ele pôde escutar:
- Bom dia! - ele me disse quando me encarou usando o sorriso mais lindo e animado que já vi na vida, parecia que estava tudo em seu devido lugar e uma ponta de felicidade invadiu minha alma.
- O que você esta fazendo aqui? - perguntei, sem entender como ele invadira minha casa de modo tão imperceptível e leve.
- É mesmo isso que você quer me perguntar? - o Vitor perguntou, esboçando uma satisfação que eu não via há muito tempo.
Enfim eu sorri por estar achando graça de tudo aquilo, ele se aproximou de mim e beijou o lado esquerdo do meu rosto:
- Vitor, afinal de contas o que esta acontecendo? Ontem acontece a terceira guerra mundial e hoje você esta fazendo café na minha cozinha, o que houve? Por um acaso você não matou meus pais né? - perguntei, enquanto abria a geladeira.
Ele sorriu e respondeu logo em seguida:
- Deixa de ser louca, sua mãe conversou comigo ontem. Digamos que entramos num denominador comum. - ele explicou, piscando o olho direito, como se tudo aquilo não passasse de algo corriqueiro e sem importância, resolvi não me importar também era a última vez que eu o via e não fazia idéia quando teríamos um dia como aquele de novo então resolvi ignorar qualquer outra indagação que poderia surgir, me surpreendi quando percebi que a necessidade de estar com ele calara qualquer outro tipo de resistência àquela total insanidade.
- Era para você continuar dormindo até eu te acordar. - ele comentou quando tomávamos o café-da-manhã eu sorri e emendei.
- Porque não me avisou antes? Se eu soubesse continuaria na cama.
Ele riu, aquele velho e delicioso sorriso charmoso que eu tanto adorava:
- Duvido, você viria correndo para me agarrar! - eu sorri com aquele comentário, não acrescentei nada meus olhos estavam fixos no horóscopo do dia, não que eu fosse de acreditar em coisas do tipo, mas o que estava ali escrito se encaixava tão bem no que estava acontecendo naquela manhã:



" Hoje será o primeiro dia do resto de sua vida, aproveite bastante pois mudanças virão e esteja preparado para novas escolhas. Algo inesperado lhe aguarda nessa sua nova jornada."


- Acredita em destino? - eu indaguei após ler o horóscopo.
- Não. - ele respondeu completamente certo do que afirmava.
- Não? Porque não? - perguntei, dando um próximo gole no café com leite.
-Se destino fosse real nós não estaríamos aqui hoje, continuaríamos a nos comportar como estranhos educados. - ele explicou.
O ponto de vista dele me fazia enorme sentindo, mas eu ainda acreditava em destino e que tudo que acontecia era para acontecer de um jeito ou de outro:
- E você Maria Luiza, acredita em destino? Acredita que éramos para nos relacionar? - ele usou um tom descontraído e bem-humorado ao me perguntar sobre aquilo eu me ajeitei na cadeira e respondi:
- Acredito, acho que tudo que aconteceu entre nós era para acontecer.
- Se fosse para acontecer já teria acontecido antes de acontecer... Deu para entender? - ele perguntou dando a impressão que nem ele mesmo entendia o que estava falando.
- Entendi amor! - respondi.
Ele olhou para o relógio e se espantou ao notar que já eram 10:30, levantou-se da bancada e lavou seu prato e o copo que usara no café-da-manhã:
- Tenho que te levar para um lugar, não podemos demorar no café. É nosso último dia juntos, temos que aproveitar.
Eu gelei por completo, ao escutar a última frase usada por ele será que ele estava falando sobre sexo? Não que isso não tenha passado pela minha cabeça antes, mas por em prática algo que eu ainda amadurecia em meus pensamentos era um passo largo e delicado. Engoli seco e antes de perguntar pus dento da geladeira a caixa de leite:


- Aproveitar? Como assim aproveitar? - tentei ser o mais sutil possível na pergunta.
- Ué amor, aproveitar. - ele insistiu agindo da forma mais casual possível.
- Aproveitar em que sentindo Vitor, você ta falando em sexo? - perguntei com a voz áspera e ele riu-se como se eu tivesse dito alguma piada muito engraçada.
- Bom isso não estava na minha lista de prioridades, mas se você quiser posso encaixar no primeiro tópico.
Eu ri a balancei a cabeça, estava mais calma e tranqüila agora.

Calcei o tênis branco que eu costumeiramente usava para minhas raras caminhadas pela praça do condomínio, pus uma blusa de manga e um short djeans. Os vizinhos desagradáveis estavam em seus devidos portões fazendo o que mais gostavam de fazer: Tomar conta da vida alheia.
Não me importei com os olhares que em fuzilavam, entrei no carro do Vitor e ele deu a partida para algum lugar desconhecido.

Fomos para uma pequena estrada cercada de árvores de ambos os lados, a cidade havia ficado para trás e a cada quilômetro rodado ele olhava para mim com os olhos brilhantes e apesar de não haver o que falar, eu me sentia bem, como quem esta à prestes de conhecer algo tão puro e divino quanto os céus. O Vitor me transmitia uma confiança inigualável algo surreal e indescritível. Árvores e mais árvores se prosseguiam deixando o ar mais puro que o normal e dando um aspecto completamente novo e virgem ao local, parecia que aquele lugar não havia sido descoberto pelo homem:
- Isso é um pedaço do paraíso. - o Vitor comentou ao entrar numa pequena saída que dava a um lugar onde o barulho de uma cachoeira a poucos era audível. - Temos que ir a pé a partir daqui. - ele anunciou após estacionar o carro numa clareira.
Eu desci do carro curiosa para saber onde ele me levaria, dei passos curtos e os ruídos de galhos se partindo denunciaram a aproximação dele, o Vitor tomou a minha frente e estendeu a mão:
- Vem, segura na minha mão pra você não cair. - ele sorriu de forma doce e eu entrelacei meus dedos aos dele:
- Para onde você vai me levar? - perguntei.
- Você vai ver. - ele respondeu pouco antes de virar seu corpo para frente enquanto me conduzia ao local de onde o barulho de água caindo tinha sua origem.
Ao nos aproximarmos pouco mais ele tapou meus olhos com suas mãos quentes e antes que eu pudesse indagar qualquer coisa seu hálito aqueceu meus ouvidos e sua voz transmutou qualquer outro tipo de pergunta:
- Essa é a cachoeira dos amantes, muitos casais vem aqui eternizar o amor. - ele explicou antes de tirar as mãos dos meus olhos.

Eu estava diante de algo magnífico algo que literalmente era um pedaço do paraíso, uma cachoeira de águas cristalinas onde o sol que banhava aquela perfeição fazia surgir pequenos arco-íris, as pedras eram geladas de forma tranqüilizante e embora eu estivesse presenciando aquela maravilha da natureza era difícil acreditar que aquilo era real:
- Nossa! Como você encontrou esse lugar? - perguntei, percorrendo os olhos por toda aquela grandiosidade.
- Vem aqui quero te mostrar uma coisa! - a animação do Vitor era notável em seus gestos, ele me conduziu até uma das muitas árvores que cercavam aquele lugar e me mostrou no tronco de uma delas diversos nomes de casais gravados e eternizados naquele lugar:
- Claúdia e Michel, 1991. - eu repeti lendo o nome do casal envolto por um coração torto.
- Olha esse aqui, Manuela e Fernando, 1940. - ele me mostrou outro.
- Nossa esse outro aqui é de 1925, eu apontei para uma gravação pouco abaixo da que ele me mostrou.
- Tem um aqui que é de 1850. - ele disse, enquanto procurava pela gravação.
Derrepende eu pude perceber que em todas as árvores nomes de casais estavam tatuados de diversas maneiras e ângulos como um encontro de tudo de mais bonito que já pude ver. Enquanto nos divertíamos procurando nomes e anos eu me fascinava mais a cada segundo com tudo aquilo me sentindo como fizesse parte daquele lugar.
- Amor olha essa, Vitor e Maria Luiza 1924. - eu parei para apreciar aquela inscrição, uma lágrima desceu de meus olhos e eu passei minha mão direita pelas letras um pouco tortas, mas perfeitamente legíveis:
- Esse eu não tinha visto. - ele também parou para apreciar com os olhos brilhantes e fascinados.
- Como deveriam ser? - perguntei.
- Como você imagina que eram? - ele me perguntou, ainda com os olhos fixos no tronco da árvore.
- Felizes, apaixonados... - especulei.
- Então eles eram. - ele sorriu e me beijou.

O Vitor tirou as chaves do bolso e em seguida começou a riscar logo abaixo da inscrição que líamos repetidas vezes, de uma maneira atrapalhada deu forma ao meu nome e em seguida me entregou as chaves para que aos poucos eu gravasse o dele.



" Maria Luiza e Vitor , 2010"


Eu o abracei e senti nossas almas se tocarem num sentimento delicado e permanentemente imutável, eu agradeci mentalmente a Deus pela presença do Vitor na minha vida:
- O tempo podia parar. - comentamos ao mesmo tempo e em seguida rimos da coincidência.
- Te amo Luiza. - ele me abraçou.
- Te amo Vitor.
- Vamos combinar o seguinte, voltaremos aqui não faço idéia de quando, mas vamos voltar! Ta bom? Vamos voltar aqui e aqui vai ser nosso ponto de partida! Aqui esta sendo o nosso final e será o nosso início! Ok?! - ele disse com os olhos cheios d'água eu confirmei com a cabeça e nos beijamos para selar o acordo.
Voltamos para as pedras frias e nos sentamos à beira da cachoeira. Eu me sentindo tão bem e tão forte que a mudança não me assustava mais.

E assim passamos o dia, conversando e contando segredos alguns infantis e outros bastante interessantes.
Voltamos para a casa por volta das seis e meia e durante o trajeto fomos quietos e dessa vez tristes embora o dia tenha sido maravilhoso e pudemos descobrir o quanto o que sentíamos um pelo outro fosse forte a mudança pesava em nossos ombros e nos fazia emudecer.
Faltava muito pouco para uma nova fase em minha vida e eu não fazia idéia do que poderia me acontecer.


Fim do cap XX

3 comentários:

  1. ain qe lindo qero mais

    o VItor é um fofo..

    ainda vbem qe a mãe dela entendeu.
    maios mais mais mais mais

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  2. Ain q liindo amei s2
    eles saum muiito perfeitos !!

    ateh chorei ...


    continua plis !!!

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