O condomínio se chamava São Valentin, na entrada um gigante portão de ferro bem trabalhado, com uns acabamentos perfeitos. Três porteiros analisavam as câmeras de segurança espalhadas pelos corredores daquele edifício, bem mais ao fundo um hall de espera com dois sofás, um em cada canto, à frente um elevador para 15 pessoas. Então, eu quis ser rica.
O Vitor deu seu nome e o apartamento de destino para o porteiro de cabelos grisalhos, este correu os olhos para a lista de convidados do 501 e encontrou com rapidez seu nome. O Vitor acrescentou que eu era sua acompanhante antes mesmos do porteiro perguntar meu nome. Adentramos o elevador sozinhos, uma câmera se mexia de acordo com nossos movimentos, me senti no Big Brother Brasil. Eram apenas dois apartamentos por andar, não preciso dizer: Eram enormes! O Vitor entrelaçou seus dedos da mão direita com os meus e segurou minha mão. Tocou a campainha e um rapaz segurando uma taça abriu a porta, pareciam ser bastante amigos, pois o rapaz abraçou animadamente o Vitor, eu ri, nunca imaginei que o Vitor pudesse ter amigos assim. Sempre tão sério, antes de conhecê-lo como conheço hoje pensava até que ele não tinha amigos.
- E quem é essa daí? Eu sou Adriano, amigo desse mal educado! - brincou, me abraçando como se fôssemos conhecidos.
- Essa é a Maria Luiza.
- Ahh tah! A dos lábios de mel! - ele disse, enquanto eu via a face do Vitor corar.
- Lábios de mel? - perguntei.
- Não é nada! É babaquice dele, isso que dá champanhe demais! Nem onze horas são. - ele rapidamente mudou de assunto, enquanto adentrávamos o apartamento.
Adriano me puxou pelo braço e me apresentou pra todo mundo da festa, fiquei sem graça no início, mas depois percebi que as pessoas dali eram tão comuns e normais quanto eu.
- Olha só, se quiser alguma coisa pode ficar à vontade em se servir. É que eu dispensei os empregados antes do Natal e eles só voltam lá pelo dia 05. Ah se quiser um lurgarzinho para ficar mais à sós com o Vitor primeira porta à direita! Da pra ver os fogos de lá também, a vista é linda. Mas só faço isso pra vocês heim! O Vitor é meu amigão! - ele me disse enquanto me servia uma bebida colorida, parecia gostar muito do Vitor.
- Valeu! - eu agradeci.
- Essa é a Ju, Ju essa é a Lu. Engraçado Ju, Lu! - disse o Adriano, rindo-se, nem eu e nem a Júlia achamos graça.
- Oi! Sou irmã desse pateta. Não repara não, geralmente ele é menos idiota. - ela me disse, rimos juntas do comentário dela.
O apartamento ficava de frente para a praia, na sala duas janelas enormes e uma sacada que ia da ponta de uma das janelas até a outra e no meio uma porta que dava para a própria sacada. A sala tinha uma televisão fininha, como se fosse um quadro, devia ter umas 52" ou mais. O home teater estava espalhado nos cantos do cômodo, os sofás grandes e vermelhos davam um ar diferente àquele lugar. Quase sem móveis, mas cheio de parafernálias digitais. A música internacional que tocava era linda, embora eu não entendesse direito a tradução, mas minha alma me dizia que era pra mim. Dei um gole na bebida colorida, até que era boa, nunca tinha provado antes e depois voltei a apreciar aquele cômodo perfeito.
- Ta gostando? - o Vitor me perguntou, depois de cumprimentar quase todos da festa - Olha eu ia te apresentar a todo mundo, mas o Adriano saiu te puxando. - ele explicou.
- Tudo bem. São todos muito simpáticos!
- É quase todo mundo da faculdade. Acredita que o Adriano faz direito? - eu não acreditei, advogados são tão sérios. O Adriano era tão engraçado, divertido. Não parecia um futuro advogado, aliás em nada se assemelhava a alguém que usava terno para trabalhar.
- Nossa, não parece.
- Aquele cara de óculos é professor de Cálculo IV, aquela dali é jornalista. Vou até te apresentar a ela. - continuou o Vitor enquanto descrevia aqueles a quem ele conhecia.
Dei um próximo gole no champanhe que agora enchia minha taça. Não me importei em ter trocado o tipo de bebida tão rápido, quando me sentisse estranha pararia. O problema é que: Não me senti estranha, aliás me senti muito mais livre.
- Não devia misturar tantas bebidas alcoólicas. Quer ficar igual o Adriano? - o Vitor me aconselhou, mas não dei atenção, estava interessante aqueles novos sabores em meu paladar.
A jornalista se chamava Maíra Lemos, era colunista de um jornal que circulava na zona sul. Falei com ela sobre minha opção por jornalismo e a dificuldade de dizer isso aos meus pais. Ela me sorriu, parecia muito tranquila. Me perguntou sobre o que eu mais gostava de escrever no jornal do colégio. A minha preferência sempre foi a investigação, ela se admirou a dela era exatamente essa. Conversamos até umas cinco pra meia-noite, depois as pessoas se aproximaram para assistir a queima de fogos da sacada. O Vitor se aproximou de mim nessa hora, me levou para a suíte que o Adriano me dissera, era um quarto enorme de frente para o mar, um closet ao fundo e um banheiro da lado direito.
Passei os olhos ao redor, era tão lindo e tão particular. Dei um gole no champanhe para tomar coragem e não transparecer que milhões de coisas se passavam pela minha cabeça, tirei as sandálias e sentei na beira da cama de casal:
- Seus amigos são amáveis. - eu disse, ele molhava o rosto.
- Que bom que gostou deles.
- Meus pais nem imaginam o que esta havendo entre nós! - eu comentei, rindo. Não era mais a mesma.
O Vitor veio até a mim e me tirou a taça, era a quinta que ele tirava da minha mão, mas não adiantava já tinha bebido outras dezenas de sem ele ver.
- Não bebe mais Lu. - ele me disse, beijando meu rosto. - Vem vai começar a contagem regressiva. - acrescentou.
Foram quinze minutos que mais pareceram quinze segundos, os braços do Vitor repousavam envolta de minha cintura e eu fascinada com o ano que se iniciava tracei duas metas bases:
- E então no que você ta pensando? - o Vitor sussurrou no meu ouvido, foi como se ele já imaginasse o que eu havia pensado.
Talvés aquela fosse a melhor hora para dizer que o amava, meu coração parecia não caber no peito, minha pele suava frio e meus olhos me traiam toda a vez que eu o encarava. Era impossível de não adivinhar aquele sentimento que quase explodia, já estava sub entendido que eu o amava, muito. Então porque dizer algo que já estava na cara? Esse pensamento calou minha vontade de confirmar o que meus sentidos acusavam.
- Esse ano vou dizer aos meus pais que não quero medicina. - respondi.
- Me promete uma coisa? - ele me perguntou olhando nos meus olhos, como se estivesse enxergando a minha alma. Eu gelei e fiz que sim com a cabeça. - Que nunca mais vai deixar as pessoas escolherem por você, nem seus pais, nem eu, nem nínguem.
Parecia tão simples, tão fácil. Eu disse que sim e ele me beijou, não da forma avassaladora como fizera horas antes, mas de um jeito doce, calmo. Não ficamos por muito tempo naquela suíte, voltamos para a sala. Lá tomei mais alguns champanhes que me descontraíram.
Fim da parte III
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