sábado, janeiro 02, 2010

Cap XIII - Ano novo ( Parte II)

Escutar o Vitor dizer todas aquelas palavras sobre o que sentia por mim, falando que aquilo era maior que ele, me trouxe uma sensação diferente. Ao mesmo tempo que eu queria poder dizer a mesma coisa era como se eu não estivesse ali, como se eu fosse invisível, como se eu estivesse apenas assistindo uma conversa entre ele e a mãe. Vontade é o que não me faltou de dizer que eu sentia o mesmo, que minhas pernas tremiam toda vez que ele se aproximava, que meu coração não cabia no peito quando eu o via sorrir, mas algo me prendeu. Talvez o olhar curioso e admirado da madrinha que caíra sobre mim, nunca fui boa em tentar imaginar o que as pessoas estão pensando, mas naquele momento eu sabia exatamente o que ela pensava: Ela queria entender como eu havia despertado tal sentimento no filho dela, ao melhor ela estava curiosa para saber como nós nos, digamos assim, aproximamos em tão pouco e muito tempo. Acho que dois antônimos nunca podem descrever nada usados juntos, mas no meu caso descrevem perfeitamente nossa situação. Em tanto tempo que conheço o Vitor nunca senti nada por ele e depois de tão pouco tempo que nos aproximamos passei a sentir uma avalanche de sensações. Será que isso é amor? Nunca fui muito do tipo de acreditar em amor, não da forma como ele é posto em novelas. Aquele amor avassalador, cheio de paixão, desejos, carinhos, juras eternas... Me poupe, vamos voltar a realidade! A expressão “Eu te amo” me soava até meio falso, não culpo a expressão em si, mas a intenção e a forma ignorante como que ela é usada. Certa vez depois de dois meses de namoro com um rapaz da rua, a Dani veio me dizer que ele disse que a amava. Eu sorri para ela! Perguntei se ela tinha certeza, ela me disse que sim, que nunca se sentira daquela forma com mais ninguém, que só faltava explodir de tanta felicidade e blá blá blá... O fato é que: Depois de três semanas de eu te amo pra cá, eu te amo pra lá ela encontrou ele se agarrando no banco de trás com uma menina do time de handebol do colégio. Então me diga: Isso é amor? Não culpo o amor, culpo as pessoas que usam tal expressão de forma tão pejorativa. Se eu disser que nunca a usei estarei mentindo, mas sempre tive certeza de minhas palavras, já disse “ Eu te amo” pra minha mãe, pro meu pai, minha avó, pra minha madrinha, pro meu padrinho e a Dani. Acredito sim no amor amizade, no amor maternal, no amor de família, mas no amor paixão... Não sei, quer dizer se for amor? Tenho medo de ficar cega, dependente, louca... A tia Sílvia assentiu com a cabeça, não apoiava nosso sentimento, mas aceitava. Não haveria nada que pudesse fazer para nos afastar e ela percebeu naquele instante. Voltamos a tomar o café da manhã como uma grande família feliz, depois voltei pra casa com meus pais para ajudá-los a arrumar as malas. Iriam viajar antes do almoço. Meus pais me fizeram um monte de recomendações, me disseram para não deixar nenhum rapaz entrar dentro de casa ao menos que fosse o Vitor, não pude segurar um leve risinho ao escutar da boca de meu pai isso, se eles soubessem da verdade entre eu e ele, o Vitor seria última pessoa a pisar naquela casa.
A pior parte de ser convidada para uma festa onde só vai ter gente rica, bonita iguaizinhas a aquelas que aparecem nas revistas de fofocas é não ter uma roupa adequada, minha mãe até tinha comprado um vestido branco pra mim passar o ano novo, mas era simples de mais. Quer dizer, nenhum “algo mais” para me diferenciar. O Vitor entrou no meu quarto exatamente na hora em que todas as minha roupas estavam jogadas no chão, na cama, nos móveis e até em cima da televisão:
- Nossa, passou um furacão por aqui? - ele perguntou, enquanto procurava um local livre para sentar.
- Não amor! Não tenho roupa pra ir! E olha meu cabelo? Cara eu tô horrível, se eu for assim com você vou acabar te envergonhando! - eu disse, não queria parecer superficial e nem muito menos aquela menina fissurada em roupas, que na verdade eu não era.
- Até parece que você vai me envergonhar. - ele riu.
- Você sabe que sim, vai ter um monte de gente bem vestida e bonita. Aqueles mulherões cheias da grana e eu, uma meninona de 17 anos com cara de moleque de rua.
- Acredita que é isso que eu mais gosto em você? - ele me disse, de alguma forma o Vitor consegue me encantar sempre, me faz tão bem, eleva a minha auto-estima. Às vezes me pergunto como não reparei antes nele, cada traço, cada gesto cuidadoso...
- Já disse que te... - eu hesitei, a expressão é verdadeira, o sentimento é forte, mas não! Apesar do olhar atento, do brilho que esperava que eu completasse a frase eu disse – Te adoro? - percebi o descontentamento dele, apesar de ser notável o esforço que fez para não transparecer.
- Eu também te adoro amor. Sabe se eu fosse você iria com esses vestido aqui, afinal menos é mais! - ele me disse pegando um vestido branco que minha mãe me comprara meses atrás, eu achava tão simples que nem cogitei a possibilidade de usá-lo, tomara-que-caia, babadinhos embaixo, um paninho mole. Eu ri:
- Menos é mais? Isso foi tão gay! - brinquei, depois de ter percebido a expressão que ele usara.
- Ué vi isso no TV Mulher, tava assistindo com a minha mãe.
- Vitor, não se explique. Ta ficando mais gay ainda. TV Mulher, isso é coisa que se diga pra sua... - droga, hesitei mais uma vez, as palavras estavam me traindo ontem. É que de fato ainda não sei o que somos: Ficantes? Namorados? Rolo? Mas dessa vez ele completou.
- Você ia dizer namorada né?
- Olha, não estou querendo forçar a barra entendeu? Não mesmo. Até porque estar com você já me basta, não preciso de formalidades para definir o que eu sinto. Ok? - eu expliquei, fui bem sincera, até porque acho desnecessário tantas definições de relacionamentos, às vezes um casal que só fica é mais feliz e sincero do que um que esta namorando.
Ele fitou-me, percorreu os olhos por todo meu ser, parecia que estava analisando minha resposta para descobrir se era verdade ou mentira. Afinal não é todo dia que se ouve de uma menina que para ela tanto faz namorar ou ficar o importante é estar junto. Pedi a Deus para que ele não pensasse que eu estava me desfazendo dele, pois muito pelo contrário, eu o queria cada vez mais perto.

- Quer dizer então que você não esta nem aí?
- Não, não quis dizer isso. Muito pelo contrário! - eu respondi, aflita. Não queria que ele entendesse errado.
- Então você quer namorar comigo? -ele perguntou, não como um pedido, mas sim como uma pergunta.
- Não! Não é isso! - repondi, mas não era nada disso que eu queria falar. Na tentativa vã de me explicar eu estava me confundindo em meio a perguntas simples que ele me fazia.
- Então você não quer?
- Não! Quer dizer sim! Não! Pera aí! Não sei...- pronto ele conseguiu o que aparentemente queria, me confundir. E agora o Vitor ria incessantemente de mim.
- Da pra parar? Não estou vendo graça nenhuma. Palhaçada. Nunca que eu iria querer te namorar. Você é: Confiante de mais! Irritante de mais! Convencido de mais! Todas as características que eu repugno em uma pessoa! - explodi, gritando e balançando os braços.
- Beleza e inteligência você repugna também? - ele perguntou, divertindo-se. Como se aquilo fosse uma brincadeira.
- Isso entra na parte do convencido. - eu respondi, irritada com o divertimento que ele tirava daquela situação.
- E a parte: Forte, atraente, engraçado, irresistível.. - ele começou dando leves passos em minha direção.
- Isso, meu filho, é você que ta dizendo. - eu repsondi, distraída com as roupas que tinham se enroscado no meu pé.
Antes que eu pudesse me livrar daquele amontoado todo de roupas que pareciam que tinham ganhado vida e queriam se vingar de mim por tê-las jogado no chão, o Vitor já tinha me puxado pela cintura contra o corpo dele e me beijava de modo sedutor, como se aquele fosse nosso último beijo.
O lance do namoro ficou meio que indefinido. Até porque namorar alguém às escondidas não é exatamente namorar.

Resolvi ir com o vestido que ele me indicou, pus um colar dourado que batia um pouco abaixo do peito e um brinquinho pequeno. O Vitor tinha razão: “ Menos é mais”, conclui enquanto me observava pronta diante do espelho.
Ele trajava um blusão branco, uma calça djeans escura e tênis. Me aguardava encostado em seu palio vermelho no meu portão, a Aline conversava com ele. Não gostei.

- “V”! Adorei sua roupa! - disse ela dando aqueles gritinhos histéricos que tanto me irrita, aliás tudo nela me irrita. No dia ela usava um vestidinho branco curtíssimo, sandálias de plataforma enormes. O cabelo loiro parecia que o boi tinha lambido e as unhas vermelhas completavam seu look.
- Nossa! Você está linda! - o Vitor disse assim que me viu, ignorou completamente aquela garota, seus olhos brilhavam era como se estivesse hipnotizado.
- Brigada.
- Ué? Ela vai com você? - perguntou a Aline, fazendo aquela cara de nojo que ela naturalmente tem.
- Vou! Ele me chamou para passar o ano novo em Copa. Sabe né, fiquei sensibilizada com o fato de ele querer uma companhia na hora da virada e me dispus a acompanhá-lo. Mas pode deixar que ninguém vai se aproximar dele. Beijos querida, feliz 2010! - me despedi, enquanto aquela mocréia me fuzilava com os olhos cheios de raiva, não me importei, era exatamente o que eu queria. Entrei no carro e o Vitor deu a partida.
Seguimos para Copa.
Fim da parte II

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