quinta-feira, janeiro 21, 2010

Cap XVII – Um estranho bate à porta


- É o Fábio. - eu respondi depois de minutos de um silêncio torturante e ensurdecedor. A Dani me fuzilou com os olhos diante da minha resposta, a tia Sílvia permaneceu estática e assustada, ela tentava lembrar quem era o rapaz citado, a mãe da Dani conhecia sim o Fábio, mas não fazia ideia de que o Fábio de quem eu estava me referindo era exatamente aquele do condomínio. O homem de 29 anos e noivo.
Me pus no lugar da minha amiga, acho que ela sentia vergonha de contar que o verdadeiro pai da criança era um homem comprometido e 12 anos mais velho, mas por outro lado a Daniele não tinha condições nenhuma de criar aquele filho sozinha.
- Quem é Fábio? - a tia Sílvia enfim perguntou. Pronto, o que a minha amiga mais temia estava acontecendo.
O que a mãe da Daniele faria depois que soubesse quem era o Fábio de que eu tinha dito era totalmente imprevisível, ela poderia correr até a casa dele e resolver discutir ofendendo todos os seus descendentes ou simplesmente ser fria o bastante para esperar tomar a decisão junto com o tio Luís, mas a Dani estava mais preocupada em como a mãe a enxergaria após saber que a filha ficou com um homem noivo tendo plena consciência dessa condição.
- É o do condomínio. - a Dani respondeu com a cabeça baixa, sem olhar nos olhos da tia Sílvia.
-Fábio do condomínio? - ela pareceu estranhar de inicio. - O único Fábio do condomínio que eu conheço é o... - a Daniele balançou a cabeça afirmativamente. - Meu Deus. - ela sentou na beira da cama, pareceu não ter forças para manter-se de pé diante de tal informação, a impressão que tive era de que ela ainda processava tudo que tinha acabado de ouvir.
Eu tinha a absoluta certeza de que depois daquele dia a Dani nunca mais viria falar comigo e eu ainda não tinha certeza se aquela fora a decisão mais correta que eu poderia ter tomado, a amizade da Dani era uma das coisas mais importantes que eu tinha na vida e estava arriscando baseando-me em princípios particulares.
A madrinha estava notoriamente chocada, não havia dito uma palavra. Ela simplesmente estava decepcionada e aquilo para a minha amiga era pior do que ela sair correndo para bater boca com o Fábio.
- Eu sempre achei que criar um filho privando-o de sair era errado. Daniele eu te dei toda a liberdade que eu almejava na adolescência e não tive, porque eu tinha a certeza de que você tinha maturidade suficiente para se impor. A pior parte de tudo isso é saber que todas as brigas que eu tive com seu pai em relação a sua criação e à total liberdade que eu te dei foram todas vãs, porque ele estava certo. Só me diz como eu vou encará-lo para contar isso?
- Não mãe! Por favor não conta pro meu pai! - a Dani se desesperou, jogou-se aos pés da madrinha e suplicou para que ela não o fizesse.
Desviei os olhos daquela cena, a culpa era minha. Eu tinha me intrometido na vida da pessoa que mais me apoiou, a mãe dela manteve-se inabalável saiu do quarto e pediu que a filha não a seguisse.
Estávamos sozinhas agora a Daniele voltou-se para mim com toda a raiva que um ser humano pode ter, os olhos vermelhos e sua bela face me assustavam:
- Calma Daniele. - eu dei um passo para trás.
- Eu alguma vez já contei um segredo seu por mais idiota que fosse?! Quem foi a única pessoa que apoiou essa sua relação com o Vitor? Quem é que te fazia companhia nas tardes do colégio enquanto você terminava suas matérias? Quem conseguiu a sua entrevista com o Pedro? - a Dani começou a jogar tudo que já fizera por mim na minha cara, não a reconheci e também não rebati, grande parte das minhas conquistas eu devia, de fato, a ela.
Dividi a minha infância e adolescência ao lado da Daniele e olha como eu retribui, contando o segredo mais importante que ela já teve.
- Você não tem absolutamente nada haver com a minha vida, eu não te pedi para me apoiar, nem muito menos para me ajudar a cuidar do meu filho. A única coisa que eu queria Maria Luiza era que você guardasse um segredo! - a Dani saiu do meu quarto chorando e eu não tive estruturas de ir atrás e pedir desculpas em parte porque eu sabia que ela não me desculparia e em parte por ainda pensar que eu não estava completamente errada.
O resto do dia passou devagar, nem escutei quando a tia Sílvia e a Dani foram embora, fiquei trancada no quarto pensando nas palavras da minha melhor amiga. Eu estava com medo de perder a amizade dela para sempre. Mais do que nunca eu precisava do Vitor, mandei uma mensagem pedindo para que ele viesse me ver e foi exatamente o que ele fez, quando o sol começava a se pôr ele estava aqui comigo.
Nós dois conversávamos na sala, a presença dele me aliviou um pouco. Não precisei explicar o que tinha acontecido, pois a mãe dele telefonara horas antes contando tudo:
- Não acho que você agiu errado. A minha mãe sempre tratou a Daniele como se ela tivesse a maturidade de uma mulher de trinta, mas ela se esqueceu que a Dani é garota ainda sem contar que a minha irmã sempre foi muito orgulhosa e se o cara falou que não assumiria a criança ela tomou como questão de honra criar o filho sozinha. Só que agora não é só ela que pode se prejudicar com os seus atos impensados. - o Vitor explicou, estava tão calmo e sereno que me contagiou com a sua tranquilidade.
- Minha preocupação é a reação do tio Luís, tenho receio do que ele pode fazer. - desabafei.
- Quanto a isso não quero nem pensar. Meu pai é muito cabeça dura, ele vai querer que o Fábio assuma a criança de qualquer maneira.
- Eu não devia ter dito nada. - disse em voz baixa.
O Vitor pôs a mão direita por sobre meu joelho e pausou os olhos nos movimentos circulares que seu dedo indicador fazia sobre a minha pele, parecia estar em outro lugar. Depois de algum tempo voltou a me dirigir a palavra:
- O Fabinho foi o primeiro homem da Dani?
Senti que aquela pergunta poderia ser o ponto inicial de um assunto delicado:
- Aham. - respondi com apenas um som baixo e afirmativo.
- Com quantos anos?
- Acho que com quinze. - eu não pretendia continuar naquela conversa, então arquitetei uma mudança de assunto instantânea – Que horas o tio Luís chega?
- Não sei... O problema da Dani é que ela sempre foi muito intensa em tudo. Se ela tem uma amizade ela se joga com toda sinceridade, se ela ta com alguém ela quer ter experiências de um ano em um mês e isso tudo prejudica, atrapalha o processo natural das coisas. - ele disse bastante pensativo.
- É... - às vezes eu consigo ser absurdamente sem noção. Eu não tinha nada inteligente para acrescentar no comentário do Vitor, ele tem certas convicções tão maduras que me faltam palavras.
- Eu queria saber porque o Fábio reluta tanto em assumir essa criança, ele não vai precisar casar. A única coisa que meus pais vão querer é o nome dele e que a criança não nasça sem conhecer o pai. - senti meu corpo estremecer por completo, quase ninguém sabia que o Fabinho era noivo, ele não usava anel, e pior ainda seria quando descobrissem que a Dani tinha pleno conhecimento desse fato.
O interfone interrompeu minha linha de raciocínio, era o Gabriel que me aguardava no portão:
-Oi. - eu disse.
- Que bom que acertei a casa. - ele sorriu ao me ver descer, o Vitor veio logo atrás.
- Quem é esse? - o Vitor quis saber.
- Vitor esse é o Gabriel, irmão do Fabinho. Gabriel esse é o Vitor, irmão da Dani. - os dois apertaram a mão após a apresentação, senti o clima pesar quando os identifiquei.
- Não sabia que o Fabinho tinha irmão. - o Vitor comentou.
- Moro no sul, vim visitá-lo. Conheci essa mocinha hoje de manhã. - ele respondeu, simpático. Eu sorri em retribuição, o Vitor permaneceu sério.
- Conheceu? - o Vitor quis confirmar olhando pra mim.
- É uma longa história. - dizer a ele as condições em que conheci o irmão do Fabinho era uma informação que eu pretendia não revelar tão cedo.
- Mas e então Gabriel ao que devo a honra da sua visita?
- Duas razões, a primeira é que eu queria poder conversar sobre o assunto de hoje de manhã e a segunda é que eu queria uma companhia para conhecer o bairro.
- Olha tem um ônibus circular que passa em frente ao condomínio, ele dá a volta no bairro todo e de bônus você ainda conhece os dois próximos bairros. Dá para conhecer tudo por menos de três reais - o Vitor respondeu apontando para a entrada do nosso condomínio onde o ônibus passava. O Gabriel sorriu sem se importar com a grosseria, o Vitor só deveria estar fazendo isso pelo fato do Gabriel ser irmão do Fábio.
- E então vamos ou você já tem planos para essa noite? - o Gabriel me perguntou.
O carro do tio Luís passou por nós, ele nos deu uma leve buzinada e prosseguiu seu caminho até em casa. Eu e o Vitor nos entreolhamos faltava pouco para o pai da Dani ficar sabendo do que o tia Sílvia tomou conhecimento durante a manhã:
- O que vamos fazer? - perguntei.
- Vou tentar apaziguar as coisas lá em casa. Acho melhor você ficar, deixa que mais tarde eu te ligo.- o Vitor me beijou a testa e foi em direção à sua casa às pressas.
Voltei meus olhos ao Gabriel que observava toda a situação.
- Aquele cara no carro é o pai da sua amiga?
- É. - eu balancei a cabeça afirmativamente.
Ele pareceu ficar preocupado, estendeu a mão e eu pus a minha por sobre a dele. Caminhamos em silêncio até fora do condomínio em direção a uma feirinha de rua que tinha ali perto.
- Aquele rapaz que estava com você é seu namorado? - afinal para que ele queria saber meu grau de intimidade com o Vitor? Eu estava ali para conversar sobre a minha amiga e o rumo de nossa conversa não teria desvios.
- O que você falou com seu irmão?
- Bom... Eu sou completamente contra ele não assumir o meu sobrinho, acho falta de caráter ele não querer arcar com as consequências do que fez. Afinal o Fábio já tem quase trinta anos a atitude dele ta sendo de um moleque de quinze! Acho que a criança deve ter o sobrenome da nossa família e deve conhecer os avós paternos. - ele explicou enquanto andávamos por uma calçada de uma rua de casas bonitas.
- Concordo com você até porque a minha amiga não pode ficar sozinha nessa, mesmo que ele não goste dela ele tem que assumir afinal parte do problema é culpa dele.
- O Fábio já adiou o casamento dele duas vezes por causa da sua amiga.
- Sério? - devo admitir que aquela informação me surpreendeu.
- Aham... O casamento iria acontecer a um ano atrás, ele adiou por três meses. Depois ele adiou de novo para esse ano. Na época ele me disse que andava pensando numa menina que tinha conhecido no condomínio onde morava, mas eu nunca soube que ele chegou a se relacionar com a tal menina... Isso é, até uma certa pessoa aparecer às sete da manhã gritando de camisola e pantufas de elefante no portão dele. Eu sorri sem graça com o comentário final dele, ainda não acredito que fui tão impulsiva:
- Me desculpa, estava com tanta raiva do seu irmão que acabei te assustando.
- Tudo bem, na verdade achei bem legal você agir daquela maneira para proteger a sua amiga. Amigos assim são difíceis de se encontrar.
- O seu irmão e a tal da Lorena se conhecem a muito tempo?
- Mais ou menos, acho que ele ta com ela por conveniência e não por amor. - ele comentou.
- Conveniência? - como alguém pode estar com outra pessoa simplesmente por conveniência?
- É, ela é bonita, rica, inteligente... Tem características notáveis numa mulher, mas ele não a ama. Pelo menos é o que eu acho... O Fábio me disse que você e ele conversaram uma outra vez.
- Verdade, mas não adiantou muita coisa. Seu irmão mentiu pra mim. Pensei que ele gostasse mesmo da minha amiga, mas não. - o Gabriel ficou em silêncio me observando, ele parecia ser tão diferente do Fábio.
- Sua amiga não vai ter o filho sem pai, isso eu garanto. O Fábio vai ter que assumir a criança. Ele não é mais um adolescente, tem que ter atitude de homem.
- Eu espero.
- Mas eu também acho que sua amiga foi um pouco inconsequente em aceitar uma relação com ele sabendo que ele estava comprometido.
Continuamos seguindo quietos e em silêncio pelas ruas próximas aonde eu morava, senti os olhares de alguns vizinhos que haviam presenciado a cena de mais cedo me condenando quando saimos do condomínio, mas eu não me importei, a maioria deles não tem o que fazer:
- Primeira vez que venho a essa cidade. - o Gabriel comentou na tentativa de quebrar o gelo.
- Gostando? - perguntei.
Antes de responder senti seus olhos me analisarem e ele fez questão de que eu percebesse e depois me dirigiu a palavra:
- Demais. - desviei meu rosto do alcance visual dele, eu não queria que o Gabriel visse que me fizera corar. - Aquele rapaz parece gostar de você. - ele acrescentou logo após.
- Ele me conhece a dezessete anos, acho que se me odiasse já teria dito. - eu entendi perfeitamente o sentido ao qual ele se referia, mas não pretendia contar qualquer coisa que envolvesse minha relação com o Vitor.
Novamente o silêncio tomou conta de nós, uma música vindo de alguma casa daquela rua por aonde andávamos era o que impedia a total falta de som. O Gabriel repousou seu corpo por sobre as escadas do portão de uma casa de dois andares e ficou sentado, eu o analisei involuntariamente, seus traços eram bonitos, seu sorriso, seus olhos, parecia que tudo nele era incrivelmente harmônico. Um rapaz daquele porte provavelmente deveria ter alguém a altura, talvez uma namorada modelo internacional ou uma atriz de cinema. Balancei a cabeça para espantar esses pensamentos, afinal em nada me interessava a vida pessoal daquele individuo, o meu objetivo de estar caminhando com ele era unicamente de ajudar a minha amiga.
- Senta aqui. - ele me chamou, batendo de leve a mão no espaço vazio ao seu lado.
- Não vamos na feirinha da outra rua? - perguntei.
- Aqui esta melhor, tudo tranquilo, essa boa música e você. - resolvi ignorar seu último tópico e continuei no assunto que me interessava.
- O que pretende fazer para que o seu irmão assuma o filho? - eu não podia sair do foco da conversa.
- Não sei, mas amanhã bem cedo quero falar com a sua amiga e a mãe dela. Vou deixar bem claro que não é só a família dela que esta envolvida nessa historia. Sabe se você conhecesse meus pais veria que o Fábio não foi criado com esse pensamento tão egoísta.
- Se quiser vou com você. - respondi, enquanto meus olhos contemplavam o céu num tom azul escuro, com a lua cheia mais linda que eu já tinha visto. Nessa hora pensei como era engraçado o fato de quase nunca ter tempo para fazer coisas tão simples quanto aquela.
- Ok.
- Você parece diferente do seu irmão. - eu comentei, encarando-o.
- Pareço? Porque?
- O seu caráter, as suas idéias... Não sei explicar, mas só te conheço a um dia posso estar completamente errada. - ele sorriu e emendou:
- Em um dia você me viu de samba-canção e eu te vi de camisola. Tem maior intimidade que essa?
- Ta... Você pode estar certo. - concordei rindo, sentei ao lado dele.
- É uma pessoa incrível Luiza. - ele me disse, sério.
Paralisei quando meus olhos fixaram-se naqueles olhos mel, eles brilhavam mais que o normal, agora eu contemplava a beleza tão diferente daquele rapaz, estava em transe, hipnotizada por ele e assim permaneci até algumas risadas altas aproximarem-se de nós, era o Fábio e a noiva, Lorena.

10 comentários:

  1. Véeei, e esse Gabriel ai? aí, que curiosidade cara euihauiheouiahuieha



    bjooo
    Steeephanie =)

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. ii o Gabriel já vein atrapalhar as coisas

    continuaa

    ResponderExcluir
  4. GABRIEL E LUIZA ^^ devem ficar juntos.o vitor que vá catar coquinho.

    ResponderExcluir
  5. aai que curiosiiidadee, voltalogo, que hoje ja é quartafeira, carnaval ja acabou amoor, :p auhsduhsusdh CONTIIINUE
    passei o carnaval toda querendo saber, fiquei 6 dias fora, e quando cheguei aqui,só a introdução euacho da parte dois! ELA VAI SE MUDAAAR! :(
    NAO GOSTEEI DE GABRIEL TER ENTRADO NA HISTORIA O AMOR DE VITOR E LUIZA É IGUAL AO MEEU, LIINDO *-*

    ResponderExcluir
  6. VITOR E LUIZA SEMPREEEEEE!!!!

    ResponderExcluir
  7. aah aconteceu quase essa historia comiiiigo, entou adorando.

    ResponderExcluir

Quem esta por aqui?