quinta-feira, janeiro 14, 2010

Cap XV - A Festa ( Parte III)

Ontem para conseguir dormir tive que tomar um calmante, até então toda vez que fechava os olhos me vinha à cabeça a imagem do Vitor e da Aline juntos e aquilo me fazia despertar. Não teve outro jeito se não fosse o Lexotan que meu pai guarda para quando minha avó materna vem passar uns dias aqui, ela tem um problema de saúde e precisa do medicamento. Depois do remédio consegui dormir, não sonhei com nada, simplesmente um borrão negro e aconchegante.
Hoje de manhã quando acordei com o cheiro de café que vinha da cozinha, meus pais ainda não tinham saído para trabalhar, a imagem que eu me esforçava para não pensar voltou a me torturar.
Até entendo que o Vitor tenha sentido vontade de transar com a Aline, afinal a garota é linda e fácil! Qual o garoto que não vai querer? Mas acho que ele poderia ter sido mais homem comigo, ter dito que assim que encontrasse algo melhor iria me trocar. Eu ia estar preparada.
O pior de tudo é esse vazio com que acordei hoje, como se algo tivesse sido arrancado e não pudesse ser substituído. É horrível.

6:40, essa era a hora que o celular marcava. No display um pequeno ícone em forma de carta no canto superior esquerdo indicava que eu tinha uma mensagem:


“ Estou com raiva de mim por não estar com raiva de você”
ass: Vitor



Quando deixei me envolver tanto assim por alguém? Se isso é amor, então o amor é ruim, ele te deixa dependente, triste, depressivo, como uma droga.
Ainda prefiro pensar que isso é tudo culpa da ocitocina.

Levantei e caminhei até a cozinha, depois de apagar a mensagem. Minha mãe sentada na bancada lia sobre as tragédias do dia anterior e meu pai sentado na cadeira lia sobre as novas escalações dos times para 2010.
- Bom dia filha! Dormiu cedo ontem! - minha mãe comentou sem tirar os olhos do seu jornal.
- Bom dia.
- Filha, aquele menino do seu colégio foi uma das contratações desse ano!- meu pai disse. Lembro como se fosse ontem que em cada jogo do time do colégio meu pai dizia que o Pedro deveria jogar com os profissionais.
- Mãe, o Bernardo vai comemorar a festa de aniversário dele numa boate do Centro. Posso ir? - perguntei, tentando afastar da memória qualquer pensamento referente ao Vitor. - A Dani vai.
Minha mãe fitou-me , meu pai continuou com os olhos cravados no jornal ignorando qualquer movimento ao seu redor.
- Tem certeza que a Daniele vai?
- Tenho, ela já me confirmou.
- O Vitor vai? Porque alguém mais responsável tem que ir com vocês. - meu pai acrescentou.
- Não, ele não vai. - repondi sem perceber o tom que usara.
- Nossa o que ele fez coitado? - meu pai estranhou, mas a expressão que ele empregara me irritou. O Vitor não era coitado, aliás estava muito longe de ser digno de pena. Alguém que trai, mente, não é digno de nada, mas eu não podia dizer isso aos meus pais então permaneci calada como se não tivesse escutado o que meu pai dissera.
- Vão voltar como? - minha mãe continuou.
- Táxi. Pegamos um na porta. - respondi.
Meus pais entreolharam-se como se estivessem se comunicando mentalmente, continuei a degustar meu café da manhã enquanto a resposta não saia:
- Ta bom, mas cuidado heim. Não vamos te prender porque você já vai fazer 18 anos, tem que saber o que é certo e o que é errado... - depois do discurso agradeci, não demonstrei animação até porque não estava mesmo. Aliás estava mais preocupada em saber o que faria depois que meus pais fossem para o trabalho, certamente ficar em casa sozinha não daria certo, ir na casa da Dani pior ainda, o cheiro do Vitor impregna todo o ambiente, mas eu tinha que falar com ela sobre o que disse na noite passada com relação a ela e ao Fabinho.
Depois que meus pais foram, liguei o som alto e entrei no chuveiro, cantarolando uma música com uma batida forte e animada, talvez se eu tomasse outro Lexotan as horas seriam menos torturantes, mas não. Além do remédio ser tarja preta também causava dependência, era a ultima coisa que eu queria: Me tornar dependente de mais uma droga.
Felizmente a Dani acordou cedo, quando eram umas nove e alguma coisa ela estava aqui. Nós duas sentadas na varanda da minha casa, olhando a rua e escutando o barulho dos vizinhos lavando a calçada, toda manhã é sempre igual:
- Ontem briguei com o Vitor. - comecei, mantendo os olhos fixos num ponto qualquer que não me lembro.
- Eu sei. - ela respondeu.
- Sabe?
- Uhum, ontem quando ele chegou perguntei por você ele me mandou te mandar pro inferno. - ela lembrou, nós rimos. Apesar do humor ter sido meio negro ainda sim foi engraçado.
- Amiga, tenho que te contar uma coisa. Ontem quando estávamos brigando sem querer deixei escapar que o Fabinho é o pai.
- Ele me disse, tudo bem amiga. Esse é o menor dos meus problemas mesmo. O Vitor é cabeça-dura, chato, metido, mas é legal. Nunca se meteu na minha vida, apesar de querer ficar dando uma de pai às vezes.
- Seu irmão é um imbecil. - disse, sem me importar que ela era irmã dele.
A Dani sorriu:
- O que ele fez?
- Dormiu com a Aline.- respondi associando mais uma vez a imagem dele à Aline.
- Não acredito. Ta falando sério amiga? Como ele pôde? - a Dani demonstrou total espanto.
- Só não entendo porque ele fez isso. Até entendo que os meninos acham ela gostosona é tudo mais. Só que seu irmão podia ser mais homem e dizer que não queria nada de sério comigo, traição é coisa de gente sem caráter e eu idiota acreditava tanto nele amiga... - acabei desabafando com ela tudo que sentia, disse do vazio, do calmante, da imagem nojenta que toda hora me vem a cabeça, acabei chorando. Ainda não tinha chorado, aliás NUNCA chorei por garoto algum, sempre achei que nenhum rapaz merecesse as lágrimas de uma mulher, é fácil acreditar nisso quando não se gosta de verdade de alguém.
- Olha amiga, não que eu seja a fã número um do Vitor, porque eu não sou. Mas sério acho que o meu irmão gosta mesmo de você, depois que vocês estão juntos até no trabalho o desempenho dele melhorou, sem contar que ele era uma pessoa extremamente séria, ele ta mais tranquilo, alegre... Cara! Outro dia até uma tia minha disse que o Vitor ta com mais brilho no olhar, sabe amiga se isso não é amor então eu não sei o que é.

O que mais dói é pensar que o Vitor dormiu logo com a Aline, sabe tenho certeza que ela vai usar isso contra mim. Querer jogar na minha cara que o meu... sei lá o que! Preferiu ela à mim e eu não vou poder rebater, porque é verdade mesmo.
A Dani me fez companhia até a noite, o Vitor não deu sinal nenhum, em parte foi bom e em parte ruim, embora eu esteja decidida a não dar mais prosseguimento a tudo isso queria que ele corresse um pouco atrás afinal não faz mal nenhum demonstrar um pouco que gosta.
Agora a pouco ouvi a Aline sentada no meu portão dizendo para quem quisesse ouvir que ficou com o Vitor, as amigas galinhas dela comemoraram com aquele famoso gritinho histérico que eu tanto odeio.
Só queria voltar a um tempo atrás e socar a Maria Luiza que deixou aquele primeiro beijo acontecer.
Vou tentar dormir agora, eu e a Dani marcamos de ir no shopping amanhã procurar uma roupa para usarmos no dia da festa.



Fim da parte III

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