1º Dia
O Vitor é bonito e sabe disso, essa certeza o torna orgulhoso e bastante confiante . Ele quase não sente ciúmes. Eu até poderia dizer que ele não sente ciúmes, sabe que não precisa.
O irmão da Dani tem características que não me impressionam num garoto, devo ressaltar que a auto confiança além de não me impressionar também não me agrada em nada, mas ele tem um efeito sobre mim que eu sinceramente não sei explicar, quer dizer ele me faz entrar em contradição comigo mesma; no dia da festa eu queria que ele viesse atrás de mim e ao mesmo tempo não. Principalmente tudo isso que eu sinto quando ele ta perto de mim, meu coração só faltar sair de dentro do peito, eu fico suando frio, meus sentidos vão à mil. Tudo isso me assusta e me prende ainda mais.
Percebi que o Vitor não é do tipo de rapaz que fica sufocando a garota ele quase não me procura, me mandou uma mensagem na segunda, tentou falar comigo na sexta e me enlouqueceu indiretamente no espaço de tempo entre esses dois dias. Eu sei que ele não faz isso para me chatear, é o jeito dele.
Parte de mim quer perdoa-lo sim, aliás essa parte precisa disso a outra não consegue, a outra parte tem medo de outra traição, tem medo de escutar aquelas palavras duras de novo.
Passei essa noite em claro pensando nisso e nos três dias que virão. É como se eu não tivesse mais controle sobre nada, a impressão que dá é que o Vitor pode enxergar minha alma e dessa forma eu não consigo esconder o que quer que seja dele. Ele vai dormir bem aqui, bem na minha sala, meu Deus...
Afinal quem teve a brilhante ideia de dedetizar a casa? Qual o problema de uns mosquitinhos, coitados? Eles merecem viver tanto quanto nós. Ta eu sei, pareço uma louca, mas é que logo quando resolvi esquecer o fulano ele vai vir dormir três dias aqui em casa, não que eu seja uma pessoa ruim, mas tem uma praça limpinha aqui no condomínio com segurança 24 horas, dormir alguns dias lá não o mataria.
O que eu vou fazer para evitar o máximo de contato? De manhã eu não vou vê-lo mesmo, ele sai cedo então é só eu ficar na cama esperando ele ir embora, sem contar que a tia Sílvia vai ficar aqui e eu ainda nem falei com ela, mas o que eu posso dizer?
"- Não tia pode ficar calma, olha só não é porque seu filho vai dormir a poucos metros do meu quarto que vai acontecer alguma coisa. Relaxa, nós estamos brigados ele dormiu com a Aline, ah em falar nisso, ela e mais uns dois moradores do condomínio viram nós dois nos beijando antes de ele entrar na minha casa. Quer um cafezinho?" - ela simplesmente iria surtar, ainda mais que a madrinha odeia esconder as coisas do tio Luís se ele descobre que ela sabia de toda a história e não contou, o padrinho certamente ficaria muito chateado.
Eu até queria poder contar tudo isso para os meus pais, mas eles não aceitariam nunca, cismaram que eu e o Vitor somos praticamente irmãos. Eu me sinto completamente perdida, nem sou mais a Maria Luiza de antes, aliás esta deve estar em algum lugar dentro de mim me chingando. Eu nunca fui de mentir, de ficar dando uma de adolescente em crise, de querer ficar enfiada dentro do meu quarto, de escutar as pessoas me dizerem coisas destrutivas calada.
Deveriam ser umas seis da manhã quando ouvi uns gritos vindo de fora do meus quarto, a porta estava fechada, ouvi perfeitamente a voz da tia Sílvia, depois escutei a voz da Dani perguntando por mim. Não ouvi a voz do Vitor e do tio Luis. Continuei fingindo que dormia até os barulhos tornarem-se mais audiveis, eles estavam se aproximando, puxei o cobertor para cobrir todo o meu corpo até a cabeça ficando apenas uma mecha de cabelo à mostra. Os passos estavam cada vez mais perto e o meu coração já explodia no peito só de pensar que o Vitor já poderia estar debaixo do mesmo teto que eu.
- Não tia eu vou ficar aqui, pode ir mãe! - a Dani disse, mas não me fez muito sentido.
Ela abriu a porta do meu quarto e jogou uma mochila rosa no chão, caminhou até as janelas e abriu as cortinas, desligou o ar e sentou-se na beirada da minha cama.
- Fica calma que o Vitor não ta aqui não, ele já foi trabalhar. - a Dani parecia que tinha lido perfeitamente a minha mente, embora ela não tivesse movido um músculo para se certificar se eu dormia ou não tinha a certeza de que eu estava acordada.
- Como sabe que eu não estou dormindo? - perguntei, afinal minha amiga tinha virado uma médium e eu não sabia?
Ela sorriu triunfante, olhou ao redor do meu quarto, estranhou a total limpeza. Não que eu seja uma menina desorganizada, mas meus livros nunca foram dispostos em ordem crescente, nem meus sapatos organizados por cor.
- Amiga eu te conheço a quase dezoito anos, eu sei perfeitamente que você passou a noite em claro pensando mil coisas em relação ao Vitor passar três dias aqui. Que ficou fingindo que estava dormindo enquanto tentava ouvir a voz do meu irmão e que provavelmente você deve ter arrumado a sua casa toda ontem tentando não pensar nele. - ela conclui fazendo uma cara engraçada ao referir-se à última dedução.
Eu a encarei com os olhos arregalados ou eu era uma pessoa muito previsível ou ela tinha se tornado Sherlok Holmes, fiquei imaginando qual das duas hipóteses poderia fazer mais sentido, mas antes que a minha linha de raciocínio se completasse ela continuou:
- Minha mãe ta uma pilha de nervos, ela ainda não sabe que você e o Vitor estão brigados. Aliás ontem ela veio me perguntar se vocês já tinham tido relações! Ela só ta dedetizando a casa porque eu tenho alergia àqueles bichos horríveis – era assim que ela se referia à mosquitos de 1 cm – e tô grávida. A noticia boa que eu tenho pra te dar é que pelo visto o meu irmão vai tentar ao máximo te evitar a má é que acho que mesmo assim vocês vão se ver. - ela sorriu, não sei porque, mas a Dani achou graça da situação.
- Ta rindo porque? - além do meu mal humor matinal eu não estava achando a minima graça naquela situação desagradável.
- Porque lá no fundo é engraçado e muito sexy! Amiga imagina só você e ele dormindo debaixo do mesmo teto. Se eu tivesse dormindo perto do garoto que eu gosto, não sei não... Eu não responderia por meus atos. - ela respondeu sorrindo maliciosamente.
- Daniele deixa de ser pervertida! Eu heim, são seis horas da manhã! - reclamei tirando o cobertor de cima de mim.
- Ah Luiza como se eu não te conhecesse! Aposto que você pensou nisso. É normal amiga, você ta numa idade em que os hormônios estão à flor da pele, até seria interessante você ter sua primeira vez com um garoto que ama. É o que a maioria das meninas querem. - a Dani começou com o discurso que se assemelhava ao da professora de biologia, mas eu a interrompi.
- Eu não vou ter minha primeira vez com o seu irmão, esquece esse assunto Daniele.
- O Vitor me perguntou se você era virgem. - ela comentou tentando me instigar a continuar com a conversa, era óbvio que ela tinha conseguido o que queria. Lógico que eu iria querer saber mais detalhes:
- O que? Como? Quando?
Ela sorriu, novamente, e provocou:
- Ué? Você não disse que era para mim esquecer?
- Deixa de palhaçada e conta, você começou! - eu estava nervosa, claro que eu queria saber e não iria dar pra esquecer agora.
A Dani ajeitou-se na cama e começou:
- Foi outro dia. Eu e o Vitor estávamos conversando sobre você, ele me disse um monte de coisas bonitinhas, você tinha que escutar amiga! De coração eu não fazia idéia que o meu irmão pudesse ser tão romântico...
- Daniele vai logo ao assunto que eu quero saber. - eu a interrompi, é que a Dani tem mania de sair do foco da conversa com a mesma facilidade que meche nos cabelos.
- Ta, então ele me perguntou se eu sabia se você já tinha feito. Eu disse que não e perguntei porque ele tava querendo saber. O Vitor me disse que tem vezes que quando vocês estão juntos que ele sente vontade de ir mais além. Ele tenta se segurar porque te ama muito e não quer que seja como as outras... Mas que tem medo de não conseguir se frear ele me disse que na vez do ano novo não sabe nem como não rolou.
Fiquei escutando as palavras da Dani e imaginando como poderia ser a minha primeira vez com o Vitor, eu nunca tinha feito isso antes, aliás nunca senti nem vontade de transar com ninguém, mas com o Vitor é diferente, ele me desperta certas sensações, certas vontades, eu costumo pensar que quando estamos juntos ele é mais racional que eu. Aliás não sei nem porque estou pensando nisso eu ele não estamos brigados? Então, isso não vai acontecer e ponto final!
- Meninas! Venham tomar o café da manhã! - minha mãe gritou da cozinha, ela e meu pai já iriam sair.
Ficaríamos eu, a Dani e a tia Sílvia em casa. Tinha certeza que quando meus pais cruzassem o portão a tia Sílvia iria dizer alguma coisa, ela me fuzilava com os olhos durante o café da manhã. Era óbvio que o que ela iria me dizer não me agradaria nem um pouco, aliás dava para sentir na espinha que ela só estava esperando meus pais saírem para ela começar.
Dito e feito:
- Olha Maria Luiza, só vou dizer uma vez. Eu já falei com o Vitor e agora tô falando com você, não quero em hipótese alguma vocês dois juntos. Vocês podem fazer o que bem entenderem longe de mim, às escondidas, sem que eu saiba. Já acho de mais ter que ficar mentindo para os seus pais e o meu marido, agora esconder que você e o meu filho andam tendo relações sexuais debaixo do meu nariz. Isso é um absurdo! Não vou tolerar chegar aqui e ver vocês dois... Dessa forma, entendeu?! - a tia Sílvia estava aparentemente irritada, era notável que estava assutada por não poder fazer nada em relação a mim e ao filho dela.
Eu consenti com a cabeça, se ela soubesse que mais gente além dela e da Dani sabem acho que ela teria um colapso nervoso.
- Ta bom tia.
- Ótimo!
- Cruzes mãe, relaxa um pouco! A Maria Luiza sabe o que faz. - a Dani tentou me defender, mas a madrinha mostrou-se irredutível.
A tia Sílvia devia confiar mais em mim, eu não vou fazer nada. A minha relação com a madrinha complicou-se um pouco depois que ela me viu beijar o Vitor, depois disso ela quase não conversa mais comigo. Fala apenas o necessário, age como se eu fosse uma estranha.
Enquanto eu fazia o almoço, ou melhor tentava fiquei pensando nisso. Eram mais de duas horas da tarde, a Dani e a mãe tinham saído para ir no médico e eu estava mais uma vez sozinha em casa.
O meu arroz ficou melado e salgado, o meu bife queimou e o ovo cozido estourou. Eu realmente não consigo entender a capacidade que tenho de não conseguir fazer nem que seja um ovo cozido decente. Se todos soubessem como sou um desastre na cozinha o inventor do microondas ganharia o Prêmio Nobel da Paz. Joguei tudo fora e preparei um sanduíche, aquilo iria me alimentar até a hora que alguém que sabe fazer comida chegasse, fui para a sala assistir televisão passava um filme sobre borboletas e duendes, não era muito interessante. Acabei adormecendo no sofá, o sono que não ousou se aproximar durante a noite agora caía sobre mim com toda a força, não consegui permanecer de olhos abertos por muito tempo.
Eu estava coberta, o ar estava ligado, ao menos que eu fosse uma sonâmbula pra lá de estranha como eu poderia ter ido até minha cama e feito tudo isso? Impossível.
Levantei depois de um tempo e abri a porta do quarto devagar, o dia já estava no fim, o céu tinha um tom avermelhado o que indicava que a noite viria em poucos minutos, da sala dava para se ouvir o som da televisão:
- Será que eu não desliguei? - pensei, dando passos calmos até o cômodo próximo.
Senti o coração saltar quando me deparei no corredor com ele, logo eu que queria ao máximo evitar contatos estava de frente ao Vitor. Bem ali, parado com um copo de suco na mão direita, ele caminhava até a sala.
As palavras desceram pela minha garganta, não havia o que dizer, fiquei lá encarando aqueles olhos:
- Desculpa. - ele se desvencilhou de mim e continuou sua caminhada até o cômodo onde estava a televisão.
Afinal o Vitor tem alguma doença mental ou só faz isso para me irritar? A dois dias atrás o idiota entrou dentro do banheiro feminino para vir falar comigo e agora me pediu desculpas? Ou ele era alguém com sérios problemas psíquicos ou era alguém destinado a me enlouquecer! Eu fiquei me perguntando isso sentada na bancada da cozinha dando colheradas sucessivas no sorvete napolitano, mas foi eu mesma que disse que tinha acabado, então porque estava reclamando da total indiferença dele?
Fechei os olhos e dei mais um colherada no sorvete, procurava por um pouco de lucidez. O cheiro dele já impregnava todos os cantos da minha casa e esse fato piorava tudo. De um em um minuto levava os olhos ao relógio da cozinha torcendo para que alguém chegasse.
- Como esse imbecil pode agir assim? - perguntei ao sorvete grudado na minha colher pouco antes de ser digerido, infelizmente ele não me respondeu.
E se eu fosse até a sala atender o telefone? Mas este não estava tocando. Balancei a cabeça para espantar outros pensamentos tão idiotas quanto o que acabei de ter.
Deve ser biologicamente impossível a forma como meu coração batia e meu olfato sentia a fragrância dele. Afinal o que de tão interessante se passava na televisão para que ele não saísse de lá e viesse até a cozinha?! Mas para que ele viria até a cozinha? Foi aí que o pensamento mais coerente e esclarecedor pairou sobre a minha mente: Eu, de fato, estava louca.
Devorei todo o pote de sorvete e continuei naquele cômodo da casa até a Dani chegar, passei o resto da noite conversando com ela, a tia Sílvia continuou me fazendo aquela cara de mal, acho que ela decidiu passar os três dias me aterrorizando para eu não ficar a menos de dois metros do filho dela, como se isso fosse adiantar alguma coisa.
Quando meu pai chegou escutei ele perguntado quem é que tinha comido todo sorvete, a Dani já dormia e eu estava deitada na cama esperando o sono vir, mas o cheiro do Vitor me impedia até de dormir.
Não aguentei ficar deitada por muito mais tempo, a casa toda escura, o silêncio da madrugada, caminhei em passos leves até a cozinha, sentei na bancada e enchi um copo de leite. Dizem que leite ajuda a dormir, deixei a luz da cozinha apagada:
- Meu Deus do céu quando é que isso vai passar? - perguntei-me já cansada de tudo que o Vitor me causava, nem mais dormir eu conseguia.
A claridade que a lâmpada da cozinha gerou ao ser acesa me despertou dos meus pensamentos, era o Vitor que tinha ligado. Meu coração disparou, meus sentidos, minha pele, meus olhos, tudo despertou perante a presença dele.
Ficamos nos encarando assustados, não esperávamos aquele encontro durante a madrugada:
- Não sabia que estava aqui. - a voz dele penetrou por meus ouvidos.
- Não consigo dormir. - respondi, desviando os olhos dele.
- Nem eu, vim tomar um pouco de...
- Leite? - interrompi.
- É. - ele sorriu.
- Sirva-se . - empurrei um pouco a caixinha de leite que repousava por sobre a bancada e ele se aproximou sentando-se frente à mim, estávamos separados apenas pela própria bancada.
Depois de encher o copo com aquele líquido, nos encaramos mais uma vez. Foi uma sensação totalmente desagradável, aquele encontro não era para acontecer. Permaneci quieta.
- E então, porque não consegue dormir? - ele puxou conversa.
É claro que eu não iria dizer que a causa da minha insônia era única e exclusivamente ele:
- Não sei e você?
- Ando tendo problemas com uma certa garota, acho que ela é a culpada por eu estar acordado às três da madrugada. - ele sorriu malicioso.
- Você é maluco? - aquilo me irritou e eu nem sei porque.
- O que? - ele riu sem acreditar no que escutara.
- Você passa por mim hoje durante o dia e age como se nem me conhecesse, agora vem me dizer que a culpa de você estar acordado é minha. O que você quer? Me enlouquecer? Porque parece né.
- Você que é doida, outro dia me diz que acabou e hoje reclama porque eu não te beijei na hora que nos esbarramos! - ele riu-se.
- Não estou reclamando porque você não me beijou! Aliás, Vitor você pensa que é tão irresistível assim? Fala sério né! Eu não quero um beijo seu.
- Então ainda bem que eu não te beijei né?
- É!
- Ótimo!
- Ótimo!
Ficamos um olhando para a cara do outro por alguns segundos, depois foi inevitável rirmos aquela situação estava engraçada:
- Espero conseguir dormir agora. - ele comentou, depois de esvaziar o copo.
- Eu também.
- É tão estranho.
- Entranho o que?
- Você e eu dormindo debaixo do mesmo teto, sei lá.
- Ta querendo falar sobre sexo? - lembrei da conversa que tive com a Dani mais cedo, mas ele riu com o que eu disse:
- Claro que não – ele respondeu, pelo tom parecia que não tinha a intenção de falar sobre o assunto. Após uma pausa continuou - mas se você quiser.
- Não eu não quero falar sobre isso.
- Então ta.
- Essa sua auto confiança me irrita.
- Luiza? Ta tudo bem com você? Numa boa, você já foi psicologicamente mais estável. - ele pareceu assustado com a minha mudança de humor.
- Ta querendo insinuar o que? - perguntei.
- Tô apenas brincando, na verdade eu amo o seu jeito. - ele disse de uma forma descontraída.
Ta devo admitir que o que ele disse me deixou feliz, mas eu não iria demonstrar que aquelas palavras tinham tido um efeito muito bom sobre mim.
- Tô indo dormir. - eu pus o copo na pia e a caixinha de leite na geladeira e mais uma vez o idiota não me seguiu.
Fim da Parte II


Tadinho do Vitor, agora ela já pode perdoar ele, né?
ResponderExcluirCONTINUAAA
CONTINUAAA²
ResponderExcluirah LU chega ta vc's taum sofrendo demais já.
ResponderExcluircontinuaa
Lu, perdoa ele!!!!!!!Vai ser melhor pra vcs!
ResponderExcluircontinuaaa³
AAI, cada capitulo que passa da vontade de leer maais, *-*
ResponderExcluircontinua!!!
ResponderExcluirpelo amor de deus assim eu vou morreer !!
ResponderExcluircontinuaa !!