sábado, janeiro 30, 2010

Cap XXVI - Convite secreto

Fechei meus olhos para detectar seu cheiro mais próximo de mim então senti um leve toque, doce e calmo encostar-se aos poucos nos meus lábios seguido de uma respiração forte que aqueceu minha boca, mas antes que pudessémos nos beijar uma voz grossa e masculina me resgatou do delírio em que eu me encontrava:
- Atrapalho alguma coisa? - o Fábio perguntou.
- Não. - eu respondi, soltando-me dos braços do Gabriel.
- Que foi Fábio? - o irmão mais novo perguntou.
- Nada, eu só queria pedir para não contarem nada pros meus pais.
- Ta, ta... - respondi meia atordoada, sai do escritório sem dar tempo a nenhum dos dois rapazes de falar algo a mais. Eu só queria ir embora daquele sítio.

Voltei para o campo de futebol onde havia surgido mais alguns homens desconhecidos que se dividiram em dois times, os que eu conhecia ficaram todos no mesmo time sentei ao lado da minha avó e da dona Margareth numa cadeira posicionada num ângulo onde eu poderia observar todos jogando. Para diferenciar os times, os rapazes do time do Gabriel, inclusive ele, tiraram a camisa. Engasguei com o refresco que me fora servido por uma moça que trabalhava do sítio, disfarcei um pouco, mas minha avó percebeu meu estado:
- Não se preocupe, o Gabriel tem um belo porte é normal reparar no físico dele. - ela cochichou no meu ouvido e eu senti minhas bochechas esquentarem.
- Segura para mim? - o Gabriel perguntou estendendo a blusa vermelha.
- Deixa que eu seguro! - a Júlia respondeu antes que eu dissese qualquer coisa.
- Não precisa, obrigado. E então Luiza? - ele me piscou o olho direito e eu estendi a mão para segurar sua camisa e logo após o Gabriel voltou correndo para o meio do campo.
Pus a mão na testa e passei pelo pescoço tentando recuperar o equilíbro, o cheiro dele saia da camisa e entrava direto por minhas narinas. Involuntariamente fechei os olhos para sentir seu perfume se misturando ao oxigênio necessário aos meus pulmões. Ele começava a me tirar a gravidade e meus pêlos se arrepiaram ao lembrar do nosso quase beijo:
- Vitor, Vitor, Vitor... Não me deixe fazer isso. - pedi em voz mínima de tal modo que ninguém além de mim sabia o que saia de meus lábios.
Abri os olhos e presenciei a imagem do Gabriel correr pela grama verde do campo, desviei o olhar para o meu lado esquerdo e a mãe dele me observava com a face interrogativa eu queria muito saber o que se passava na mente dela, a Júlia mantinha o rosto sério e descontente e a Lorena gritava toda a vez que o Fábio tocava na bola:
- Será que eu posso entrar? - perguntei à minha avó.
- Pode sim querida, está tudo bem?
- Sim, só estou um pouco tonta. - inventei a desculpa que aparentemente fazia melhor sentido na minha cabeça.
Cruzei a sala de estar da casa e caminhei até o banheiro, fechei a porta e digitei de forma desesperada o número do Vitor, mas ele não atendeu em nenhuma das dez tentativas, liguei para o celular da minha mãe e sua doce voz tranquilizou meu coração:
- Mãe onde está o Vitor? - perguntei assim terminei de responder suas perguntas em relação à minha segurança.
- Filha o Vitor sumiu a uns dois dias, nínguem sabe para onde ele foi! Não queria te preocupar com isso, pois você esta muito longe...
- O que? Mãe ta brincando né? E nínguem chamou a polícia? Como assim ele sumiu? Não voltou para casa? Desapareceu no meio da noite? Mãe, isso é grave. Eu estou aqui no fim do mundo enquanto o Vitor esta em algum lugar correndo perigo? E a tia Sílvia e o tio Luís? A Dani? Meu pai? - interrompi, antes de conseguir pensar em algo mais plausível.
- Luiza, calma. Olha só qualquer notícia que eu tiver dele te aviso, mas você tem que se acalmar. O Vitor já é um homem adulto sabe se cuidar muito bem, calma! - a voz dela estava hesitante, minha mãe só fala dessa maneira quando não tem certeza do que diz.
- Tentei ligar pro celular dele, mas nínguem atendeu! Mãe me fala a verdade, por favor! O que esta acontecendo? - eu já estava chorando muito e a respiração começou a ficar pesada de mais foi quando tudo ao meu redor escureceu e meus sentidos desligaram.
Quando reabri os olhos estava deitada numa cama macia, dentro de um quarto desconhecido e com a voz do tio Ramon ao fundo conversando com minha mãe pelo telefone, sei disso pois ele falou o nome dela, o teto cor de caramelo com um belo lustre ainda tomava sua devida forma, foi quando os traços do Gabriel tomaram nitidez, ele parecia me examinar:
- Você teve uma queda de pressão. - escutei sua voz.
- Luiza, o que houve você estava caída no chão do banheiro! - minha avó perguntou aflita.
- Calma aí vó, eu estou bem. - respondi encostando-me na cama, foi quando notei que no quarto deveriam ter mais de vinte pessoas. A Lorena e a Júlia estavam sentadas mais ao fundo e conversavam em voz baixa sobre algo de que eu não fazia ideía.
- A sua mãe esta nervosa, disse que estavam conversando e do nada ela ouviu um barulho e você não respondeu mais! - tio Ramon anunciou bastante assustado.
- Calma tio, eu estou bem. - respondi, pondo uma mecha de cabelo por trás da orelha. Eu preciso falar com ela! - tentei levantar, mas o Gabriel empurrou meu ombro em direção à cama sem fazer muita força.
- Calma Luiza, você precisa descançar.
- Eu estou bem Gabriel, obrigado.
- A sua mãe já desligou, ela disse que se tiver alguma informação do seu amigo ela telefona. - tio Ramon deu o recado.
- Que amigo? - o Gabriel ficou sério e perguntou ríspido.
- Um tal de Vitor.
- Ah sim, Vitor. - o irmão mais novo do Fábio suspirou e levantou da cama, dando as costas a todos de dentro do quarto. - Ela está bem, só precisa de repouso. - ouvi ele sussurrar no ouvido da minha avó pouco antes de se retirar do cômodo.

Voltamos para casa logo depois, meus pensamentos estavam todos direcionados aonde estava o Vitor e uma sensação ruim na garganta causava um mal-estar horrível. Eu não conseguiria viver num mundo onde o Vitor não existisse e a imagem dele sem vida me deixava aflita e por mais que eu tentasse não imaginar o pior, as aparições dele na minha mente nas piores condições eram inevitáveis, tentei me concentrar no assunto que minha vó puxou sobre o seu jornal, mas não consegui lhe dar a atenção necessária e ela logo calou-se supondo que eu ainda estivesse tonta devido ao desmaio.


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30-01-10

Dani,

Afinal o que esta acontecendo por aí? Liguei para a minha mãe hoje e ela me disse que o Vitor sumiu a uns dois dias, me fala amiga para aonde o seu irmão foi! Vocês dois sempre foram bastante confidentes, apesar das desavenças causadas pelo fato de serem irmãos.
Eu não consigo pensar em outra coisa que não seja o Vitor, amiga por favor responde esse e-mail e me fala onde ele esta!
Para com essa infantilidade de fingir que eu não existo porque isso já esta me irritando o assunto é muito sério para você simplesmente ignorar esse e-mail, então responde.


Maria Luiza

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Liguei o som numa música que impediria qualquer um de me ouvir chorar, deitei na cama e cobri completamente o meu corpo com um cobertor de cor verde acabei perdendo a noção do tempo e adormeci pouco depois, acordei com um leve toque da dona Conceição:
- Desculpa te acordar, mas chegou essa carta pra senhorita. - a senhora me entregou um pequeno papel branco bem decorado eu agradeci e o peguei sem imaginar o que pudesse estar no seu interior.


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30/01/2010

Senhorita Maria Luiza,

O Hotel Valentine III lhe convida para um jantar na presente data no restaurante às oito da noite à pedido de um hóspede especial.


Atenciosamente,
Gerente: Sr. Marco Antônio Veceslau



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- É o hotel onde acontece os eventos mais sofisticados da cidade. - o senhor Davi respondeu quando lhe perguntei sobre o hotel mencionado no convite.
- Estranho demais esse convite. - respondi, um pouco intrigada.
Conversávamos na garagem, eu encostada num dos carros e o motorista mexendo em uma corrente da picape que havia arrebentado devido ao belo dom de dirigir da minha avó.
- Quem sabe não é um admirador secreto. - ele supôs rindo do próprio comentário.
- Estou fugindo de admiradores, fala sério Davi quem em sã consciência vai querer sair comigo? Pode um serial-killer.
- Ou pode ser um maluco desvairado e carente. - ele acrescentou rindo-se.
- Vai brincando, estou com medo, mas quero ir. Sou curiosa demais para deixar isso passar em branco. - disse imersa em pensamentos.
- Ué vamos então, eu te levo e espero por você na porta do hotel se acontecer qualquer coisa eu vou te resgatar! - o senhor Davi pareceu bastante prático e eu acabei me entusiasmando.
- Virou o super-homem agora? - eu brinquei.
- Ta vendo, esse é o mal do ser-humano! - ele rebateu após rir do meu comentário, no fim cedi a minha monstruosa curiosidade.

Pus um vestido verde claro e calcei uma sandália de salto branca, o senhor Davi trajava uma bermuda djeans e uma blusa preta, era a primeira vez que eu o via sem seus trajes sociais de trabalho. Ele pôs uma música do U2 e assim fomos até o hotel que era um prédio de mais de vinte andares com sete bandeiras de países diversos enfeitando a entrada com um singelo tapete vermelho:
- Qualquer coisa me liga. - o senhor Davi disse, enquanto um funcionário do hotel caminhava até o carro escuro para abrir a porta pra mim.
- Tudo bem! - respondi, antes de sair do veículo.

O simpático funcionário me levou até o restaurante onde uma recepcionista pouco mais velha que eu atendia numa pequena bancada bem detalhada de mogno, um caderno ocupava o único espaço livre, uma banda musical tocava ao fundo uma canção tranquila e a menina da recepção em guiou até a mesa de número 52 logo após eu dar-lhe meu nome:
- A sua companhia já esta a caminho. - ela me disse e foi inevitável minha pergunta:
- Companhia? Quem é minha companhia?
Ela apenas sorriu de forma doce e se retirou sem me responder, ao meu redor pessoas bem vestidas conversavam, a curiosidade de saber quem seria a pessoa ao qual ela se referia quase que gritava e eu mantinha meus 5 sentidos atentos a cada ruído estranho. Passei os olhos pelo cardápio de nomes engraçados na tentativa de distrair minha mente, atentei à música que o cantor e a cantora num dueto perfeito reproduziam acompanhados de instrumentos musicais.

O relógio do celular marcava oito e meia quando pensei em ir embora, o senhor Davi já havia me ligado para saber se eu estava bem e nínguem havia aparecido quando a imagem de alguém que eu não via a tempo me surpreendeu e acelerou meu coração fazendo minha circulação pulsar e meu corpo tremer. Pronto, eu não conseguia mais mover um músculo e assim fiquei enquanto ele se aproximava de mim:

- Quanto tempo menina. - era ele mesmo, o meu Vitor e parecia muito mais bonito e charmoso do que eu me lembrava, congelei e não consegui proferir uma palavra se quer.

Cap XXV - Sentimentos novos

O Gabriel me guiou até o centro da pista de dança, sua mão direita tocava pouco acima do meio das minhas costas e aquilo me causou certo desconforto, porém algo em mim estava gostando da presença dele que me deixava um pouco tonta e fora do meu próprio corpo. Estranhei, pois apenas o Vitor tinha aquela capacidade de causar tanta confusão dentro de mim.
- Eu precisava vir saber se era você mesma. - ele comentou, enquanto meu olhos estavam fixos no seu rosto perfeito.
- Você sabia que eu estava aqui? - perguntei após um pequeno instante de tempo.
- Escutei uma vez a Lorena comentando com uma menina que uma certa carioquinha estava morando na casa da futura madrinha do casamento dela e outro dia recebi um convite de uma festa de boas-vindas para a neta da dona Maria e hoje eu vim aqui me certificar. - ele respondeu num sorriso lindo e claro e eu mantive-me quieta, estava muito fascinada com aquele olhar cor de mel que parecia enxergar a minha alma.
A sensação era de que eu estava flutuando no ar, como se a gravidade não existisse para mim e as pessoas que não me queriam bem fossem totalmente inofensivas, apoiei a cabeça no seu peito e deixei seu corpo me guiar de acordo com o ritmo da música lenta que tocava.
Percebi que as pessoas ao redor me observavam críticas, a Júlia me encarava de forma mortal demonstrando total reprovação ao que via apenas notei tal fato quando parte de mim desprendeu de todo aquele fascínio que o Gabriel me causava naquela noite:
- Estão todos olhando. - comentei.
- Eu sei, mas eu não estou nem aí. - ele respondeu, sussurrando no meu ouvido e aquecendo meus tímpanos com seu hálito quente, senti o calafrio me subir pela espinha e fazer meus pêlos arrepiarem. - Acho que te deixei arrepiada. - ele comentou ao notar meus pêlos do braço oriçados.
Ele não disfarçou sua satisfação expressa num sorriso malicioso e eu desviei meu rosto impedindo que ele me visse corar com seu comentário, continuamos dançando sem mais diálogo.
Eu e o Gabriel nunca estivemos tão perto antes e desse modo continuamos até o fim da dança:
- Vocês estavam lindos! - minha avó nos elogiou enquanto abraçava o Gabriel como se já o conhecesse a muito tempo, sentamos todos numa mesma mesa.
- Formam um belo par! - uma senhora de aparência semelhante à minha avó comentou, as duas conversavam animadamente, junto a um senhor da mesma faixa etária delas.
- Lu essa é minha mãe e esse é meu pai. - ele me apresentou em seguida.
- Tudo bom? - cumprimentei, sendo observada com olhos flamejantes pela Júlia que caminhava até nossa mesa.
- Sou Margareth. - ela correspondeu apertando minha mão direita num sorriso encantador.
- Eu sou Augusto. - o senhor parecia ser sério.
- Gabriel preciso falar com você. - a Júlia interrompeu minha animada conversa entre eu, ele, minha avó e os pais do Gabriel.
- Vai ser rápido, eu te faço companhia enquanto os dois estiverem conversando. - a Lorena complementou no meu ouvido.
- Não será necessário - ele interrompeu a Lorena de forma ríspida, porém mantendo seu ar bem-educado. - Júlia depois conversamos. - logo em seguida finalizou deixando as duas contrariadas, porém sem argumentos.
- Olha acho que elas duas não nos deixarão em paz, será que podemos ir para outro lugar? - ele cochichou no meu ouvido e eu instatâneamente respondi afirmativamente, não sei o que me deu na hora, mas eu queria muito ficar a sós com o Gabriel.
- Eu e Luiza podemos nos retirar? Dona Maria, tenho sua permissão? - ele perguntou e minha avó acenou a cabeça fazendo um "sim".
Senti quando sua mão direita procurou a minha, mas eu evitei de andarmos de mãos dadas, até porque minha mente respeitava muito o Vitor, embora meu corpo estivesse de forma estranha perante a presença do Gabriel.
Cruzamos um jardim vazio dos fundos do salão, passamos por uma pequena ponte e fomos até alguns banquinhos de mármore onde nos sentamos em baixo do céu cheio de estrelas:
- Nunca imaginei que te veria de novo. - ele comentou sentando em um dos banquinhos.
- Muito menos eu. - disse, sentando em outro banco.
Ele me sorriu e percorreu seus olhos dos pés à minha cabeça como se me analisasse inocentemente eu o encarei e perguntei de uma forma involuntária:
- O que tanto você me olha?

Ele pareceu ficar desconfortável com minha indagação e eu sorri satisfeita, ao lado dele eu percebi que eu estava sendo a Maria Luiza de sempre, sem medos. Algo nele me causava certo interesse em demasia, ele estava tão atraente e carnalmente interessante que uma vontade estranha de querer ficar mais perto despontou do meu ser, mas eu me limitei apenas a continuar a observá-lo:
- Não faz tanto tempo, mas senti sua falta. - ele comentou após algum tempo em silêncio. O Gabriel parecia muito mais charmoso que quando nos conhecemos.
Desviei o olhar para uma pequena rosa vermelha que nascia entre os muros que limitavam o interior do salão com a rua cheia de bares e jovens animados e me mantive sem proferir se quer uma palavra:
- Desculpe, acho que não deveria dizer isso... - ele notou meu corte e tratou de mudar de assunto:
- Tudo bem Gabriel.

- E como vai a sua amiga? Daniele ? - seu tom tornou-se mais informal e menos sedutor e eu relaxei em sentir que o meu desconforto perante ele se esvaiu.

- Não sei muito bem, desde que toda aquela confusão se instalou na família dela a Dani parou de falar comigo. Ta tudo uma grande bagunça. - eu respondi triste enquanto me lembrava da última vez em que nos falamos.
- Calma, eu não vou deixar o meu irmão estragar a vida da sua amiga. - ele tentou me reconfortar, mas infelizmente sua voz não me enganava com uma falsa tranquilidade como aconteceria se fosse o Vitor a me dizer aquelas palavras.

- Esquece... Não quero falar sobre isso. - pedi quase que suplicando enquanto mais uma vez eu detalhava seus traços com meus olhos atentando à cada gesto expressivo.
- É a garota mais bonita da cidade. - ele disse, certa hora em que estavámos sentados um de frente ao outro.

Pigarreei um pouco sem graça levantei do banco de pedra, não queria ter ouvido aquelas palavras que me causaram certa perturbação, mal percebi mas era tarde quando voltei ao salão principal e uma banda desconhecida tocava as últimas músicas, fui conversar com a minha avó que se despedia de um casal de senhores idosos fiquei observando o Gabriel ao longe, ele não ousou aproximar-se de mim, aliás qualquer um daquele recinto não diria que eu o conhecia. A Júlia foi conversar com ele, ela estava um pouco bêbada e eu percebi quando ele a evitou de se aproximar mais, senti certa compaixão afinal ela era uma mulher linda que não precisava passar por uma cena daquelas, mas o Gabriel fora frio com ela e pouquíssimo tempo depois foi embora acompanhado de seus pais.
- Me surpreendeu essa noite. - minha avó comentou enquanto o senhor Davi nos levava de volta para casa. - Parecia que já conhecia o Gabriel, as meninas todas ficaram com inveja. - ela me disse piscando o olho direito como se quisesse me confidenciar um segredo.

Esbocei um leve sorriso e não acrescentei nada até ela interpor meus pensamentos com planos para o dia seguinte:

- Amanhã fomos convidadas para passar o dia no sítio da Margareth. Eu, você, a Lorena, a Júlia e a Madalena! Vai ser magnifico, vamos fazer planos para o casamento da sua prima!

- Nossa como você tem uma vida social agitada! - eu brinquei antes de recusar.
- Luiza, por favor faça-me companhia. Tenho certeza que vai adorar, aproveitamos e escolhemos um modelo para o seu vestido para o casamento da Lorena. A Margareth tem diversas revistas de roupas femininas para ocasiões variadas!
- eu já tenho uma estilista que vai fazer meu vestido, não precisa mesmo. Obrigada. - respondi pensando na Nanda.
- Querida, venha comigo. Prometo não pegar no seu pé por uma semana! - minha avó estava mais acessível e num bom humor contagiante, acabei cedendo à sua insistência com a condição de ir da forma que eu quisesse, sem a necessidade de roupas sociais ou outras formalidades desnecessárias.

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29-01-10


Dani,

Eu já deveria imaginar que você não iria responder meu e-mail, aliás eu nem sei se você está lendo o que eu estou te mandando, mas eu preciso tanto desabafar com alguém. Encontrei um rapaz essa noite que me assusta, é o Gabriel, o irmão do Fábio.

Sabe ele não me assusta no sentido de causar medo à minha segurança, mas fico tão diferente ao lado dele, meus sentidos se comportam de uma maneira tão involuntária e minha alma parece querer sair para fora toda a vez que percebo que estou com ele.

O Gabriel é tão... Bom amiga ainda não tenho o adjetivo exato para descrevê-lo, uma certeza eu tenho é que ele não altera nada que eu sinto pelo Vitor, mas ele me confunde, principalmente porque até agora o Vitor não deu sinal de vida.

Eu quero estar com o Gabriel e ao mesmo tempo quero fugir de tudo que ele me causa como se uma nova avalanche de sentimentos pudesse me derrubar e esta tudo tão bagunçado que eu só queria não perder o controle sobre mim mesma.

Queria ter você aqui comigo, queria que nada disso tivesse acontecido, queria que você não estivesse chateada comigo e embora eu esteja incapaz de te pedir desculpas queria muito que você passasse uma borracha no que aconteceu.

Você é uma amiga muito especial para mim e eu te desejo tanta felicidade que você não faz ideia.

Te amo.

Maria Luiza


PS: Responde essa porcaria!


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Acordei antes do celular despertar, o dia estava quente aliás até quente demais para Vale das Laranjeiras, pus um short djeans e uma camiseta branca, meus chinelos coloridos e fui até a cozinha onde um cheiro convidativo de algo sendo feito no forno perfumava a mansão:

- Bom dia! - disse, beijando a maçã do rosto de dona Conceição.

- Ta de bom humor é? Quem é você? - o senhor Davi brincou e eu lhe fiz uma cara feia, ele riu de mim e eu dei um leve tapa no seu ombro que ele pareceu nem sentir.

- E como foi a festa ontem? Saiu daqui tão bonita, chamou a atenção de algum rapaz? - dona Conceição me perguntou, mas antes que eu pudesse responder minha adentrou a cozinha.

- Luiza, vamos querida. A Margareth já me ligou estão todas nos esperando. - ela me apressou segurando uma chave de carro diferente da chave que o senhor Davi usava para dirigir o veículo escuro.

- A senhora vai dirigir, não quer que eu as leve? - ele perguntou.

- Não, é sábado vocês são os únicos funcionários que gostam de trabalhar nos finais de semana. Vamos de picape hoje, vem Luiza temos que nos apressar. - ela me puxou pelo pulso e me conduziu em passos rápidos até a garagem, onde uma picape vermelha importada de quatro portas repousava, ao lado de mais cinco carros, entre eles o preto, e outros quatro importados de marca desconhecida.

Saímos do centro de Vale das Laranjeiras e entramos numa pequena estrada de terra cercada de fazendas e sítios por ambos os lados, adentramos um portão enorme de madeira bem trabalhado e minha avó estacionou o carro num pequeno canteiro próximo ao portão, descemos e fomos recebidas pela dona Margareth e pela Madalena que nos abraçaram animadamente:

- Estão todos lá no campo, os rapazes estão jogando! - dona Margareth enroscou seu braço no meu e me conduziu até o campo de futebol, onde paralisei quando presenciei um beijo entre a Lorena e o Fábio.

-Aquele é meu filho mais velho, venha conhecê-lo! - a mãe do Gabriel me puxou até o centro do campo de futebol e me deixou frente a frente com o casal.

Analisei a cor morena do Fábio esbranquiçar-se com a minha presença, ele não conseguiu fechar a boca diante do susto que tomara, por sorte a dona Magareth não percebeu e o Gabriel conseguiu interceder antes de qualquer suspeita:

- Mãe, a dona Maria esta te chamando! Deixa que eu faço as apresentações! - ele disse, pondo o braço por meus ombros:

- Acho que precisamos esclarecer algumas coisas para a Lorena. - a voz do Gabriel diminuiu enquanto o Fábio permanecia em choque.

- Ela já sabe. - fui ríspida e os dois a encararam com a feição de dúvida.

- Pera aí, o que você sabe Lorena? E você, Luiza, ta fazendo o que aqui? E meus pais eles sabem de alguma coisa ou de tudo? - o Fábio finalmente perguntou mantendo sua voz moderadamente baixa.

- Acho que aqui não é o melhor lugar para conversarmos, vamos para dentro. - o Gabriel parecia ser o mais racional da situação e nós quatro fomos até a casa principal, conversar no escritório.

- Muito bem preciso saber o que esta acontecendo aqui, o que você sabe Lorena? - o Fábio perguntou, fechando a porta do escritório, ela permaneceu quieta:

- Ela sabe que você engravidou a Dani. -eu fui objetiva.

- Você contou para ela? - o Fábio me indagou.

- Não.

- Então como você sabe Lorena? - foi a vez do Gabriel perguntar.

A ruiva então me analisou com raiva e pela primeira vez senti medo dela, eu percebi que estava pisando em terreno desconhecido e não procurei avançar nas minhas respostas, até porque não era mais necessário:

- Eu escutei quando essa garota apareceu na sua casa totalmente descontrolada e assisti a tudo que vocês conversaram, mas eu não me importo com essa tal de Dani ou sei lá qual o nome. Fábio eu só quero me casar com você e que se dane essa amiguinha da Luiza.

- Que se dane não, eu não vou deixar ela sozinha! - explodi alterando o tom de voz, o Gabriel me segurou.

- Cala essa sua boca, você só me atrapalha! Volta para a sua vidinha medíocre no Rio e me deixa em paz, para que você está aqui? Tomara que essa sua amiga perca esse maldito bebê! - me enfureci ao escutar a última frase dita por ela e caminhei em passos rápidos em sua direção , mas o Gabriel me segurou antes de eu me aproximar e o Fábio fez o mesmo com a ruiva irritante.

- Dobre sua língua ao falar da Daniele!

- Calma vocês duas! - a voz grossa do Gabriel emudeceu nós duas, enquanto meu corpo estava totalmente preso nos braços dele de modo que eu não conseguia me soltar.

- Olha Lorena ta pegando muito pesado você, relaxa tá! - o Fábio continuou aparentemente irritado.

- Fábio me solta! - ela gritou e ele mandou ela se calar.

- Fábio tira ela daqui, conversamos depois. - o Gabriel disse, enquanto o irmão carregava a noiva para fora do escritório

- Se controla Luiza, deixa de ser explosiva! - o Gabriel gritou assim que me soltou, mas eu não lhe dei atenção e fui andando até a porta do escritório foi quando ele me puxou pelo braço num gesto rápido e ficamos de frente:

Observei mais de perto seus belos olhos que tanto me confundiam e minha pernas ficaram bambas, mas ele me segurava dando firmeza à meu equilíbrio. Eu estava totalmente vulnerável, ele esboçou um sorriso demonstrando gostar do controle da situação e eu continuei sem forças para reagir.

Cap XXIV - Reencontro inesperado

Forcei um sorriso e guardei por dentro do casaco a carta que estava nas minhas mãos enquanto que o outro amontoado empurrei para o lugar de origem, fiquei quieta esperando ela falar qualquer coisa, aquela senhora me observou minuciosamente enquanto dava passos em minha direção eu gelei esperando a pior das broncas:
- Vá para o seu quarto, não quero te ver de novo aqui dentro. - ela sussurrou como se quisesse ter a certeza de que somente eu fosse escutar.
Deixei meus olhos encará-la de frente e me levantei da cadeira perguntando-me o motivo que a fizera falar tão baixo algo que poderia ser dito em voz alta e clara, obtive a resposta quando um senhor bem vestido adentrou o escritório, ele tinha traços femininos e o timbre agudo demais para alguém do sexo masculino:
- Você deve ser a neta da dona Maria Conceição. - achei meio estranho ele referir-se a minha pelo seu nome composto, a maior parte das pessoas a chamam de Maria.
Balancei a cabeça afirmando e apertei sua mão:

- Esse é o meu estilista, ele esta fazendo o vestido do casamento da Lorena. - minha anunciou enquanto conferia se eu tinha mexido em nada que pudesse preocupá-la.
- Boa sorte. - eu brinquei, mas nínguem riu aliás os dois olharam para mim de forma muito séria demonstrando que ambos desgostaram do meu comentário.

- Amanhã de manhã temos um café da manhã no clube, esteja pronta às sete. - minha avó anunciou enquanto eu caminhava até a porta, tive de dar meia volta após o que ela dissera:

- eu não quero ir. - disse quase que suplicando que ela me deixasse ficar. Minha avó olhou para o estilista parecendo comunicar-se com ele mentalmente, ele saiu do escritório no mesmo minuto e encostou a porta:
- Qual o seu problema?! - derrepente vi o ar elegante e sofisticado da minha esvair.

- Como assim? - perguntei, sem entender com clareza ao que ela se referia.
- Luiza você chega nessa casa e em menos de 24 horas comete dezenas de gafes, eu até entendi que você não sabia do café da manhã de hoje, mas a sua atitude de não querer conhecer os meus amigos e essa sua implicância com a pobre da Lorena não vão te ajudar a se encaixar nessa sociedade. Amanhã é a comemoração dos 50 anos do clube. E é a minha chance de fazer contatos importantíssimos para o futuro do meu jornal e muito além disso é a sua oportunidade de fazer amizade com as amigas da Lorena.
- eu não vou me sentir bem num ambiente cheio de patricinhas, eu não sou assim! - tentei argumentar, mas ela não me deu atenção já havia aberto a porta e me mandava sair.
Lorena e o estilista, que até o momento eu não sabia o nome, conversavam no hall, ela muito bem vestida e maquiada , os cabelos ruivos caiam em cachos longos pelos ombros, o vestido preto curto deixava-a parecendo uma daquelas modelos internacionais.
Os dois conversavam como se fossem amigos antigos e ambos se calaram quando cruzei o hall em direção as escadas para subir até meu quarto:
- Prima! O Oscar me disse que você não tem roupa para ir no café-da-manhã do clube, se quiser te empresto alguma coisa. - ela estava me provocando, porém eu não respondi continuei meu caminho.

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27-01-2010

Vitor, Amor por favor vem me buscar! Eu não aguento mais esse lugar, essas pessoas, esse mundo não é meu! A todo momento penso em ti e em todas as coisas que eu precisava te dizer, mas que não tive tempo.
Aqui o pensamento é outro, as pessoas são assustadoras e quando me lembro que você está a quilômetros de mim tudo piora de um jeito indescritível, preciso tanto do seu beijo, da sua voz... Da forma como você dizia que tudo iria acabar bem, mesmo eu sabendo que era mentira.
Fico aqui pensando em onde você pode estar agora, estou com tanto medo de te perder que às vezes parece que vou sufocar de tanta coisa que se passa na minha mente, porque eu te amo tanto que o auto-controle parece inviável.
Me sinto muito sozinha, minha avó parece viver de aparências e eu não sou capaz de ser assim, os amigos dela agem como se eu fosse um bicho-do-mato! Essa noite antes de dormir vou orar e pedir a Deus que todas essas coisas passem, engraçado é que até um tempo atrás eu duvidada da existência desse espiríto maior e hoje eu acredito mais que minha própria vida.

Te amo,
ass: Maria Luiza
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Deitei sem sentir sono, pus o celular para despertar às seis, a luz da lua entrava pela sacada do quarto e vinha até a mim banhando meu corpo num toque que me tranquilizava fechei os olhos e pedi a Deus para me teletransportar para perto do meu Vitor e meu olfato pareceu sentir o cheiro dele por um instante de tempo, mas quando abri os olhos continuava perdida em meu novo quarto.
A vontade de estar ao lado do Vitor me sufocava e aos poucos eu ia tendo a sensação que o meu amor por ele estava se transformando numa saudade horrível.
Eu permaneci acordada durante toda a noite, vi quando a Lorena chegou em um carro todo preto, ela andava em passos tortos até em casa. Logo após voltei a deitar, não conseguia pegar no sono de forma alguma meu corpo parecia estar em processo de abstinência, uma abstinência do Vitor e isso me dava vontade de gritar até ter a certeza de que ele me ouviria chamando seu nome.
Desliguei o celular quando este despertou às seis, eu ainda não havia dormido. Caminhei até o closet, para ser bem sincera eu não fazia ideia do que usar no tal café da manhã.
Pus um vestido preto e um cordão que ia até a metade do busto. Me lembrei do conselho da Nanda, enquanto nós compravámos sapatos ela me disse: -" Quando você não souber como ir, opte por um vestido simples e um cordãozinho longo."
Foi o que eu fiz, às sete minha avó já batia na minha porta me apressando para não atrasá-la a Lorena cruzou o meu caminho quase me atropelando na escada deixando no ar um cheiro forte de perfume, ela sim estava impecável, os cabelos lindíssimos, a maquiagem bem feita e o vestido rosa claro.
- Esta muito bonita Luiza. - a dona Conceição me elogiou quando eu esperava por minha avó no hall. - Obrigada! Segui o conselho da sua neta! - respondi abraçando aquela senhora simpática. Entramos no veículo em que o senhor Davi já nos aguardava, ele abriu a porta de trás para que eu e a Lorena entrássemos e logo em seguida abriu a porta do carona para minha avó sentar, pus os fones do mp4 no ouvido e me acomodei no confortável banco de couro:

- Todas as minhas amigas estão curiosas para conhecer a Luiza! - a Lorena anunciou para a minha , esta olhou para trás e num sorriso inocente respondeu:
- Ta vendo Luiza, tenho certeza que irá gostar das amigas da sua prima.
Eu forcei um sorriso e para não ser mal educada usei da mesma falsidade que mantinha-se presente em todos os comentários da cobra da Lorena:

- Mal posso esperar devem ser todas tão amadas quanto a minha prima! O Fábio quem diga ? Posso te chamar de ? - tive que segurar o riso quando presenciei a face de satisfação da Lorena dar lugar a um rosto sério e cheio de raiva.
- Já contou sobre o Fábio para a Luiza? - minha avó pareceu não perceber nada e insistiu na conversa.
- Conte a ela o que eu sei prima! - impliquei num tom de voz debochado.
- Ahhh... Dona Maria deixa isso para lá, ela sabe que eu e o Fábio somos muito felizes... Foi isso que eu contei. - ela respondeu, um pouco perdida nas palavras.
Eu sorri e voltei meus olhos a paisagem de Vale das Laranjeiras, depois disso minha avó voltou-se para a frente num ar satisfeito e feliz, já a Lorena mantinha-se contrariada ao meu lado e impotente de fazer qualquer coisa, pois se o fizesse sua máscara de boa moça cairia.

O clube se chamava " Jockei Clube Vale das Laranjeiras ", estava cheio de gente, repórteres da cidade, o prefeito e um monte de outras pessoas ricas que eu não fazia muita idéia de quem poderiam ser, algumas pessoas na entrada vestidas com roupas típicas distribuíam panfletos com o cronograma do que aconteceria durante toda aquela manhã:

- Se quiser ir embora me liga. - o senhor Davi cochichou no meu ouvido quando minha avó se destacou um pouco de nós, eu balancei a cabeça para dizer que entendi e continuei minha caminhada.
O clube tinha um jardim enorme cheio de laranjeiras, um chafariz bem no centro com a estátua de Afrodite ou alguma deusa grega que eu não sabia quem era:

- O incidente no carro vai ter volta. - a Lorena ameaçou quando estavámos apenas eu e ela andando, o motorista já estava em algum lugar que eu não sabia onde era e minha avó conversava com o prefeito da cidade.
Uma banda tocava uma música de fundo, as pessoas ao redor pareciam todas se conhecer. Cidade pequena geralmente é assim mesmo, o que piorou ainda mais a minha falta de encaixe naquele lugar:
- Amiga! - uma voz estridente gritou vindo na direção onde eu e a Lorena estavámos, a menina loira e de olhos castanhos abraçou a ruiva do meu lado como se fossem amigas antigas e deveriam ser mesmo.
- Saudades de você! - a voz estridente continuou.
- Eu também amiga! Como você ta? - a Lorena perguntou.
- Meninas! Vocês viram que os solteiros gatos da cidade estão todos aí? - uma outra morena de cabelos longos aproximou-se das duas, esta estava acompanhada de uma réplica que era sua irmã gêmea.
- E essa quem é? - a loira perguntou olhando para mim com repulsa, não sei se essa pode ser a palavra exata, mas é o que mais se aproxima do olhar que ela fez.
- É a neta da dona Maria. - a Lorena respondeu.
- Prima! - uma menina que eu já havia visto antes se aproximou e abraçou a Lorena. Era a mesma menina que no dia anterior ria de mim junto com aquela ruiva irritante.
- Júlia! - a Lorena gritou estridentemente abraçando a menina de cabelos lisos castanhos e olhos azuis.
Agora sim, as cinco me encaravam como se eu fosse um bicho fora da jaula, a Júlia foi a primeira a rir de mim enquanto contava para as outras o motivo que causava aquela vontade súbita de graça. O incidente da manhã passada era o que ela narrava, eu não fiquei para saber a reação daqueles seres-humanos que pareciam não usar muito o cérebro
.
Peguei um copo de uma bebida efervescente que era servida em bandejas e continuei averiguando o espaço em que estava. Na verdade aquilo tudo era um evento da alta sociedade da cidade, as famílias ricas iam com suas filhas procurar maridos de familias igualmente ricas, os rapazes eram muito bonitos - devo admitir - e as meninas também. Todas estavam reunidas em grupos, sentei próximo a entrada do restaurante onde todos iam para o café-da-manhã e fiquei observando as pessoas que cruzavam o meu caminho, me sentia como um estranho no ninho em meio a todos aqueles seres belos e ricos.
Adentrei o restaurante quando minha avó subiu os degraus e me conduziu pela mão até a mesa reservada para nós, a Lorena veio logo depois junto com sua prima, Júlia.
- Esse ano eles capricharam! - ela comentou bastante animada.

- Mal posso esperar para começar a dança! - a Júlia continuou no mesmo nível de animação.
- Aposto que nínguem vai tirar esse patinho feio para dançar. - escutei a Lorena acrescentar, porém permaneci quieta até porque não imaginava ao certo do que elas estavam falando.
- Vai adorar a comemoração. - minha avó segurou na minha mão e num sorriso simpático disse. Passei a mão pelo cabelo, e voltei meus olhos para o prefeito que se levantara para um discurso político chato sobre a cidade e as mudanças que ocorreram em tão pouco tempo, ele foi muito aplaudido ao terminar de falar sobre toda a urbanização daquela cidade pequena e logo em seguida anunciou a dança típica:

- Cada rapaz tira uma moça para dançar, é uma homenagem que fazemos ao modo como os fundadores da cidade se relacionavam. - minha avó explicou, enquanto a música começava.
- É uma forma das desesperadas arrumarem um marido. - brinquei e observei minha esboçar um sorriso, ainda não a tinha visto sorrir.
- Vamos ver quem vai escolher essa daí. - mais uma vez a Lorena espetou pouco antes de um belo rapaz moreno tirá-la para dançar.
- Não se preocupe, tem sempre alguém que sobra. - a Júlia cochichou para mim.

Tomei um gole do suco de goiaba que tinham posto na mesa e voltei meus olhos para a minha avó, ela me olhava com uma expressão terna e satisfeita:

- O filho do prefeito te achou linda. - ela disse.
Balancei a cabeça negativamente e respondi:
- eu não estou interessada em nín... - antes de completar a frase uma voz masculina grossa me interrompeu:
- Quer dançar? - era um belo exemplar do sexo oposto usando um traje social que o deixava mais atraente, porém apesar de todas as qualidades físicas dele eu não senti a mínima vontade de dançar com aquele rapaz de olhos azuis.

- Desculpa, deixa para a próxima. - recusei e ele foi praticamente atacado por uma menina morena que o puxou quase que intantâneamente após a minha recusa.

Voltei meus olhos à mesa onde estava sentada e minha avó me encarava com a face de poucos amigos, parecia estar contrariada com algo que eu havia dito. A Júlia olhava para mim admirada com algo que eu ainda não sei o que era, talvés por eu ter sido convidada para dançar antes dela, ou pelo fato de ter dito "não" para alguém como aquele rapaz que eu não sabia quem era:

- Ele é o filho do dono do jornal mais vendido da capital, é um dos solteiros mais desejados da cidade. - minha avó anunciou entre os dentes.

Suspendi as sombracelhas e sorri:

- Ele não deve receber muitos "nãos". É bom variar um pouquinho. - brinquei, dando um gole no suco de goiaba.

A Júlia foi tirada para dançar por um rapaz e ficamos apenas eu e minha avó na mesa, ela não conversou comigo durante toda a dança idiota daquela cidade idiota de jovens idiotas incapazes de perceber que o mundo é muitíssimo mais que Vale das Laranjeiras.

- Me desculpa . - pedi já irritada com todo aquele ambiente, levantei e fui para fora.

Escutei alguns gritos masculinos vindo de trás do restaurante, alguns meninos jogavam futebol num campo de grama sintética, sentei ali perto num banquinho me lembrando do futebol que sempre ocorria no meu condomínio. Balancei a cabeça negativamente tentando espantar um pensamento que me entristecia, mas não consegui evitar as lágrimas originadas dos fatos que se desenrolavam na minha mente:

- Droga de lugar... - disse entre os lábios enquanto analisava um pequeno grupo de meninas que se sentaram do outro lado do campo, num outro banquinho de pedra. Eram três meninas que aparentavam ter aproximadamente a minha idade, elas encaravam os rapazes de modo sedutor, mas estes não davam muita importância, estavam concentrados demais no pequeno objeto redondo que deslizava na grama entre um chute e outro.

O lugar onde eu estava era de fato bonito, por todo o lado haviam flores diferentes que coloriam todo aquele espaço, percebi isso quando olhei para o lado e um beija-flor tocava uma órquidea, mas não me animei, nem muito menos fiquei a admirar aquela maravilha da natureza por muito tempo, antes mesmo do futebol acabar minha avó me encontrou sentada e distante da realidade dela:

- Você me envergonhou profundamente hoje Luiza! - ela estourou, num tom de voz baixo pra não chamar a atenção das pessoas envolta. No pouco tempo que convivo com ela, deu para perceber que a mãe do meu pai é uma pessoa que valoriza demais a sua imagem na sociedade, talvés seja pelo fato dela ser uma pessoa importante onde mora ou por todos ao redor sempre a avaliarem... Eu ainda não descobri.

- Vó eu não fiz nada para te prejudicar... Só não estava me sentindo bem naquele lugar com aquelas pessoas olhando para a minha cara e me julgando.
Minha avó franziu a testa parecendo sentir pena de mim e eu me destestei por isso.
- Será que posso voltar para casa? - perguntei e minha vó assentiu com a cabeça eu não aguentava mais ver os olhos dela de compaixão, aquilo me irritava de forma absurda.

Entrei no carro preto de vidros fumê e apoiei a cabeça no banco de couro ao lado do motorista, liguei o som e pus numa música do meu agrado, me sentia tão triste que não sentia vontade de falar o que quer que fosse.

Às vezes queria poder fugir para um lugar onde nínguem me visse, um lugar onde eu pudesse gritar até a voz sumir, em que eu pudesse esquecer do Vitor por apenas um minuto. Eu precisava desse momento de paz, desesparadamente.

Me aninhei na cama e pus o cabertor até a cabeça, tentando esquecer do dia. Liguei o som no último volume e pus um rock nacional que parte do refrão dizia:
"- Morra, civilização capitalista morra!" - apesar de eu não gostar do tipo de música que gritava no meu quarto algo me dizia que o vocalista cantava para mim. Em pouco tempo acabei encarando aquele homem de voz fina e palavras sem rima como um poeta.

Acabei perdendo a noção do tempo e não sei ainda se quando eu dormi era tarde ou já era noite, as cortinas impediram qualquer entrada de luz fosse do sol ou da lua.

Quando reabri os olhos já estava claro, as cortinas abertas e o som desligado. Pus meus pés no frio piso do quarto e caminhei em passos curtos até o banheiro, lavei o rosto com água fria que saia da bica e voltei minha face ao espelho.
Um rosto feio, triste de olhar profundo me encarou do outro lado. Aquela menina estava quase que irreconhecível, tão deprimente aquela figura que me causou certa indignação ela era tão esperta e auto-confiante e agora se perguntava onde havia parado todas aquelas qualidades que ela tanto se orgulhara um dia.
- Maria Luiza, onde esta você? - perguntei-me em voz mínima, continuei dispersa em meus pensamentos enquanto vestia um short qualquer e uma bata branca.
- Luiza! - escutei uma voz masculina gritar meu nome de forma espontânea e alegre era meu tio Ramon.
- Oi tio. - respondi, desanimada enquanto ele me abraçava de forma sincera.
- Você ta enorme! Faz quanto tempo? Dez anos? Nossa... Estou ficando velho! - ele continuou enquanto ria-se. - E como esta seu pai? Faz tempo que não vejo aquele coroa!
Eu sorri diante de tanta animação:
- Vamos lá para baixo, sua avó esta numa reunião de família! - meu tio me puxou pelo braço e fomos descendo as escadas, eu esforcei meus passos para que eu pudesse acompanhá-lo:

O tio Ramon sempre foi muito espontâneo, alegre, muito poucas coisas o irritam. Esta sempre de bem com a vida e tem a maravilhosa capacidade de enxergar a parte boa de uma situação ruim, é por causa disso e de seu ótimo humor que o meu tio sempre fez sucesso entre as mulheres. Apesar de meu pai sempre ter sido mais bonito que ele, o meu tio sempre chamou mais a atenção das mulheres e de qualquer outra pessoa que se aproximasse dele. Quando eram jovens, meu tio era o popular, cheio de amigos e garotas meu pai o bonitão, metido e chato.

Minha avó, a Lorena e uma mulher de cabelos pretos com aparentemente a mesma idade do meu tio conversavam na sala de estar, a mulher que eu ainda não conhecia sentada no sofá entre a mãe do meu pai e do meu tio e a noiva do Fábio, ela mostrava fotos e narrava histórias sobre as imagens e o dia em que foram tiradas, eu entrei meio sem graça naquele lugar e aquela mulher me abraçou num ato totalmente inesperado o que me deixou surpresa, não só a mim quanto à Lorena. O gene ruim da minha "prima" provavelmente deve ter vindo do pai, pois a mãe me pareceu ser simpática:
- Nossa, você é tão bonita! - a mulher disse após o abraço.
- Ah obrigado, sou a Luiza.
- Madalena. - ela apertou a minha mão num sorriso enorme e animado e beijou minha bochecha.

A parte boa era que a Lorena finalmente foi embora e a ruim era que eu teria a festa de boas-vindas que provavelmente marcaria minha total falta de encaixe naquele mundo estranho de pessoas tão diferentes à mim:

- Minha avó não entende que eu não me sinto bem no meio daqueles amigos dela. Droga, não sei mais o que fazer. - me lamentei deitada na cama, enquanto a Nanda analisava a rua da sacada do meu quarto, eu tinha convidado-a para almoçar:
- Ué Luiza, nínguem nunca te disse que seria fácil! A sua prima ta adorando essa sua reação na frente dos amigos da sua avó, você ta dando o ouro ao bandido se quer saber.
- Mas Nanda você não entende, as pessoas daqui não me aceitam da forma como eu sou... Me sinto o patinho feio nesse lugar.
- Luiza, as pessoas não te aceitam porque você é diferente delas sim. Aqui todos tem costumes, sotaque, vestimentas iguais e chega você usando djeans e falando " Pô cara...", isso te individualiza, mas não é, de fato, ruim! Aposto que a tal da Lorena e as amiguinhas dela são todas iguais.

Deixei a Nanda continuar seu ponto de vista sem interropê-la, algo nela me lembrava da Dani, talvés fosse o jeito ou a forma como encarava a vida, ela tinha pouco mais de 19 anos e uma visão esplêndida das pessoas e aquilo me causava um bem-estar como se eu tivesse de volta aos meus amigos e meu mundo do Rio de Janeiro.
- E então como você vai? Já escolheu o penteado? Eu vou te deixar linda! Você vai despetar o interesse de todos os solteiros da festa! - a Nanda começou enquanto puxava um cadeira para o centro do cômodo.
- Você vai comigo né? - pedi.
- Poxa eu queria muito ir, mas tenho um desfile para assistir. Vou tentar mostrar alguns desenhos meus para o estilista Breno Braga! - ela anunciou numa animação notável, eu bati palmas e lhe desejei sorte, apesar de não fazer ideía de quem pudesse ser Breno Braga.

A Nanda tratava a avó de uma forma rara, como se ela fosse sua mãe, quase não deixou a dona Conceição mexer na cozinha, pediu para que ela ficasse no quarto conosco assistindo ao meu "tratamento de beleza".
Ela alargou um pouco os cachos com a baby-liss, os prendeu no meio da cabeça com alguns poucos grampos deixando fios soltos que acompanhavam o caimento da franja, pôs uma maquiagem que detalhou o meu olhar e um batom cor de boca.

Me encarei no espelho após toda aquela produção, eu estava muito bonita e desejei que o Vitor me visse, mas ele estava muito longe de mim o relógio marcava sete e alguma coisa, a festa de boas-vindas seria num salão cinco estrelas que eu não fazia ideía de onde ficava, mas o motorista me levaria então nem me preocupei.
Minha avó já estava lá, aliás até animada demais me ligou dizendo que estava tudo pronto e os convidados já estavam chegando:
- Qualquer coisa vou fingir um ataque e tremer no chão! - brinquei durante o trajeto de ida ao salão, o motorista esboçou um sorriso.
- As pessoas vão gostar de você! Aposto, eu e os outros empregados simpatizamos com a senhorita no primeiro dia. - o Davi continuou.
O carro entrou numa rua fechada de poucas casas e muitos bares, jovens bonitos bebiam e conversavam em todos os cantos, pareciam bastantes animados e felizes.
O salão era o último da rua, o muro verde cheio de flores rosas e violetas formava um belo casamento da arquitetura com a natureza.

Diversos veículos perfeitos estacionados próximo ao salão de dois andares, abri a porta do carro com certa hesitação e olhei para o motorista antes de descer:
- Preciso mesmo ir? - perguntei.
Ele sorriu e balançou a cabeça afirmando:
- A ídeia de cair tremendo não é tão ruim quanto parece.
Eu sorri e desci sendo bombardeada por olhares, dei o próximo passo e levantei a cabeça em direção à entrada onde minha vó me aguadava sorridente ao lado de três homens de paletó preto que eram os seguranças:
- Uau! Você ta linda Lu! - ela me abraçou, enquanto me conduzia até o interior do lugar. - Estão todos te esperando.
- Obrigada vó.
E mais uma vez olhares diversos me metralharam, eu fingi que não era eu e continuei com a máscara de boa moça, simpática e debil mental, cumprimentei um casal de senhores que riu de mim no dia do incidente da camisola, depois mais uma dezenas de pessoas que queriam agradar a minha avó, o tio Ramón foi o único a fazer algo racional e me ofereceu um copo de wisky que minha avó não me deixou beber.
A música que tocava reunia alguns jovens no meio do salão principal, observei a Lorena e as amigas dela ao longe. A ruiva estava linda, com os cabelos lisos , os olhos verdes acentuados com a maquiagem escura combinada em preto e branco estava sendo disputadíssima pelos rapazes, todos eles queriam tirá-la para dançar e era perceptível a satisfação dela em ser a mais desejada do lugar:
- Pelo menos se esqueceram de mim um pouco! - disse num tom baixo antes de levar à boca o suco natural de morango.
- Luiza vem ficar com a sua prima! - minha avó me puxou para perto das amigas da Lorena, onde a desagradável da Júlia também estava.

Pronto eu havia acabada de ser jogada aos leões, as cinco me criticavam com olhares e riam de mim sem que eu soubesse o motivo da graça e aquilo me irritava, porém eu não podia dizer nada precisava manter a classe embora a vontade de voar no pescoço de cada uma estivesse quase gritando:
- Ela é uma prostituta, semana passada estava namorando um e essa já esta com outro. - a Júlia comentou com a Lorena assim que uma menina de cabelos negros acompanhada de um rapaz passou pela mesa em que todas estavam sentadas:
Balancei a cabeça negativamente em sinal de reprovação e todas me encararam com os olhares igualmente contrariados, mas antes que qualquer uma pudesse dizer alguma coisa ofensiva ele calou a mesa com sua presença inesperada, por onde passava arrancava olhares admirados de mulheres - acompanhadas ou não.
Ele estava perfeito no traje social cor escura que escolhera, seu andar perfeitamente simétrico era algo que adicionava charme à sua bela aparência masculina e eu o conhecia, era ele mesmo, dos olhos mais belos e expressivos o Gabriel veio em direção à mesa em que eu e as cinco meninas estavámos:
- Meu Deus ele esta vindo aqui, não acredito que depois de tanto tempo vai me tirar para dançar. - a Júlia suspirou e segurou nas mãos da Lorena fingindo normalidade.
- Me daria a honra dessa dança? - ele perguntou num tom de voz envolvente que parecia música aos ouvidos de qualquer uma que pudesse ouvi-lo e aquelas palavras eram unicamente direcionadas a mim.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Cap XXIII - Cartas sem remetente

Senti aqueles olhos verdes subirem dos pés a minha cabeça sem a menor preocupação em disfarçar, dona Conceição permanecia de cabeça baixa aparentemente envergonhada com os gritos que chamara minha atenção, porém Lorena não dava a menor atenção ao estado em que deixara aquela senhora:
- Querida Luiza, pode ir dormir não se preocupe. - dona Conceição segurou levemente em minhas mãos e me conduziu até dentro do quarto, a ruiva ficou parada me encarando.

Depois disso não escutei mais gritos, apenas um passo que provavelmente seria da dona Conceição descendo para fazer o chá que a Lorena ordenara.
Deitei na cama e passei a analisar o teto em cor bege com um lustre altamente bem trabalhado, a minha direita estava a sacada do quarto onde dava para ver o jardim e a rua, a festa ainda estava rolando na casa em frente alguns risos altos e vozes alteradas:
- Esse mundo é mesmo pequeno... - a voz da Lorena tomou conta do meu quarto, ela fechou cuidadosamente a porta e deu passos curtos em direção a minha cama.
- O que você quer aqui? - eu perguntei, levantando-me em defesa.
- Só conversar minha querida, nada mais. - a sua voz estava fria e assustadora.
- Fale. - respondi, fixa no lugar onde estava próximo a sacada.
- Eu escutei boatos na mansão que uma neta da dona Maria viria morar aqui, mas nunca imaginei que fosse você. - ela percorreu-me os olhos com desdém e eu permaneci quieta. - Eu sei Luiza, sei de tudo sobre o Fábio.
Enruguei a testa em dúvida e espanto, como ela sabendo tudo que o noivo fizera mesmo assim aceitaria tal condição:
- Como assim? - quis confirmar.
- Embora você tenha a cara de idiota, eu sei muito bem que você não é. - após uma pausa ela continuou - Depois que voltou do Rio o Gabriel só falava na carioquinha que ele tinha conhecido lá, acho que ele não teve tempo de te falar sobre a Júlia, já que estava tão fascinado com você acabou se esquecendo da minha pobre prima e namorada dele. - não sei explicar com precisão o que eu sentira com aquela revelação, mas eu me incomedei muito mais que o imaginado ao saber que o Gabriel namorava e não me contou, como ele pode mentir para mim? Eu deveria ter percebido que ele, como irmão do Fábio só poderia ser igual ou até mesmo pior.
- Você só entrou aqui para me desacatar?
Ela riu-se ironicamente e respondeu:
- Desacatar? Não, eu estou apenas conversando.
Tomei coragem e dei um passo em sua direção, mas ainda continuava muito distante dela:
- Qual o seu vinculo com a minha vó?
- Sou enteada do Ramón, seu titio, eu presumo, minha mãe se casou com ele a uns dois anos e adivinha quem vai ser a madrinha do meu casamento com o Fábio?! - ela perguntou demonstrando uma empolgação sombria e perante meu silêncio respondeu. - A sua vovó.
Engoli seco, fechei e abri os olhos seguidas vezes. Aquilo mais parecia um sonho, aliás um verdadeiro pesadelo, fiquei imaginando quando é que eu havia saído da realidade e sido transportada para um universo paralelo completamente assustador:
- Agora é sério! - ela levantou-se da cadeira e deu dois passos em minha direção por um segundo pensei que fosse me agredir. - Esse é o meu mundo, minha vida, minhas regras... Se você atrapalhar qualquer coisa eu juro que passo por cima de você, entendeu?
Não respondi, simplesmente não disse que "sim" nem que "não" eu só queria que ela fosse embora do meu quarto e de preferência que evaporasse do globo terrestre, fiquei observando-a sair do meu quarto com passos firmes, seu cabelo ruivo e liso balançava de um lado para o outro, sua pele clara reluzia com a luz da lua que invadia o quarto ela estava assustadoramente decidida a me prejudicar caso eu o fizesse primeiro.
Apesar de ser ameaçada de morte ou algo do tipo eu não estava com medo, tomei banho, pus a camisola "Good Dreams" e coloquei as roupas no closet, não me surpreendi quando percebi que elas tinham ocupado apenas metade de uma das prateleiras do closet, pus meus 4 "all stras", o chinelo. Menos da metade da parte direita do closet havia sido ocupado, sorri ao perceber que aquele quarto de roupas era do tamanho da minha sala.

- O que eu tô fazendo aqui? - perguntei-me enquanto eu encarava mais uma vez o teto.
Acabei adormecendo depois de um tempo, provavelmente devo ter dormido menos de duas horas tive alguns pesadelos e acordei diversas vezes no meio da noite, despertei de vez quando o relógio apitou às oito e meia, levantei, calcei minhas pantufas, molhei o rosto e escovei os dentes fui até a sacada do quarto e avistei pessoas caminhando e passeando com seus respectivos cachorros, não fiquei muito tempo ali e desci as escadas na procura do cômodo onde eu pudesse tomar o café da manhã, o jardineiro cuidava das flores rosas e vermelhas, uma das empregadas arrumava a sala de estar que tinha uma televisão de plasma quase do mesmo tamanho da parede, poucos móveis.

Escutei talheres e vozes vindo de um cômodo próximo, segui meus ouvidos e congelei quando deparei com dezenas de pessoas sentadas numa mesa enorme de café da manhã, todas muito bem vestidas, homens e mulheres que se calaram em perfeita consonância quando viram uma menina de camisola e pantufas adentrar a sala de jantar, permaneci estática com o susto só ouvi o leve riso debochado de Lorena que estava sentada em uma das cadeiras da mesa para vinte pessoas:
- Luiza...? - a senhora da ponta levantou-se, muito bonita, de olhos claros e cabelos grisalhos deduzi que fosse a minha avó, mas certeza não tinha.
- Desculpa... - eu disse dando um passo para trás antes de sair correndo para o meu quarto, mal tive coragem de encarar as pessoas que ali se encontravam.
Cruzei a sala de estar, a sala de vídeo, a sala de visitas, o hall e corri em direção a meu quarto sem diminuir a velocidade dos meus passos só fui parar quando me joguei na cama do meu quarto, as lágrimas insistiam em correr por meus olhos eu só queria sumir daquele lugar, esquecer de tudo:
- Posso entrar? - uma voz feminina me desligou de meus pensamentos.
- Pode. - respondi à senhora que ali estava sentando-me na cama enquanto enxugava os olhos.
- Nossa como você cresceu... Não te reconheceria se nos esbarrássemos na rua, ta com quantos anos Luiza? Dezessete? - era a mesma senhora de cabelos grisalhos e olhos claros que chamara meu nome a minutos atrás na sala de jantar.
- Aham... - balancei a cabeça afirmando.
- Humn... Se parece muito com sua mãe... - eu dei um leve sorriso e ela continuou: - Chamou a atenção daquelas pessoas lá debaixo.
- Percebi. - eu respondi, sorrindo.
- Arrume-se e desça, quero te apresentar a eles. - minha avó disse, pouco antes de dar as costas e abrir a porta do quarto:
- Mas vó, eu não quero descer e encarar aquelas pessoas! Estou morrendo de vergonha.
- Pelo amor de Deus, não se acovarde no seu primeiro tropeço. Seja diferente de seu pai. - ela finalizou com a voz ríspida e firme.
Pus a roupa mais social que eu poderia ter e desci depois de me observar no espelho e tomar coragem para encarar novamente aquelas pessoas.
Uma das empregadas servia bebidas coloridas na sala de visitas, uma música ambiente de fundo e conversas paralelas dava espírito ao lugar. Adentrei a sala um pouco envergonhada, principalmente quando todos se calaram ao me ver aquilo era totalmente constrangedor:
- Essa aqui é Maria Luiza, minha única neta! - minha avó anunciou.
- Oi! - eu disse, sorrindo amarelo para aquela multidão que me encarava. Percebi que a Lorena conversava com uma menina apontando disfarçadamente para mim e rindo.
A maior parte das pessoas veio me dar boas-vindas, me abraçaram e em momento nenhum tocaram no assunto que ocorrera a poucos minutos atrás, quando senti que as atenções se dispersaram um pouco peguei um dos copos de bebida colorida que a empregada servia e caminhei até próximo da janela da sala eu só queria que aquelas horas passasem o mais rápido possível, mas a relatividade do tempo não ajudaria muito afinal tudo que é bom passa rápido demais e tudo que é ruim ao contrário:
Não esperei todos os convidados irem embora, subi para o meu quarto quando a maioria já não estava mais ali, cheguei perto da sacada do meu quarto encostei os cotovelos no murinho com metade da minha altura e dali pude analisar a montanha a poucos quilômetros.
Minha avó entrou pouco tempo depois acompanhada da ruiva irritante, as duas pareciam se dar muito bem:
- Maria Luiza, aconteceram tantas coisas nessa manhã que eu me esqueci de lhe apresentar a minha quase neta Lorena! - ela anunciou aparentemente satisfeita, mas mantendo seu ar frio e desprovido de sentimentos.
- Será que posso te chamar de Luiza? - a ruiva fingiu que não me conhecia.
- Não. - respondi, ignorando seu sorriso falso.
- Luiza, seja mais educada! Lorena é enteada do seu tio Ramón, aliás ele esta muito ansioso para lhe ver, ele e a esposa Madalena estão numa viagem e voltam na sexta bem no dia da sua festa de boas-vindas.
- Festa? Pera aí vó, eu não quero festas!- eu interrompi qualquer outra coisa que ela pudesse falar.
- Como não Luiza, já esta tudo pronto. Não faça desfeitas, a sociedade quer te conhecer.
- É Lu, não faça desfeitas. - a Lorena repetiu irritando meus ouvidos com o total cinismo.
- Bom eu vou ter que ir, tome fique com isto. - minha vó passou os olhos pelo relógio de pulso e antes de sair do meu quarto me entregou um pequeno cartão de crédito dourado com seu nome no verso.
Percebi os olhos arregalados e admirados da ruiva que não imaginava que a minha avó faria aquilo, para ser bem sincera nem eu mesma imaginava que ganharia um cartão de crédito assim de uma forma tão fácil.
- É para suas necessidades, se precisar de mais alguma coisa ligue para mim. Pedi para o senhor Davi ficar disponível o resto do dia para você. - minha avó finalizou saindo às pressas do meu quarto ela aparentemente estava atrasada.
- Vai fazer a festa hoje heim?! - a Lorena comentou com o tom sarcástico irritante que sempre estava presente em seus comentários.
- E você esta morrendo de inveja. - respondi.

Ela calou-se e antes que pudesse me dizer algo eu a atropelei com palavras:
- Desculpa não tenho tempo para você. - então abri a porta do meu quarto esperando que ela saísse e quando ela o fez eu fui logo atrás.
O cheiro do perfume dela penetrou por todo o ambiente, enquanto eu descia as escadas atentei à quantidade de empregados que ali trabalhavam, o senhor Davi conversava com a dona Conceição na cozinha enquanto um cheiro bom de algo que fervia no fogão despertava a curiosidade do meu paladar:
- Bom dia senhorita Luiza! - o Davi sorriu.
- Bom dia. - respondi puxando uma cadeira para sentar na bancada que ficava no meio da cozinha.
Os dois calaram-se ao me analisar, algo no que eu fizera chamou a atenção deles:
- Vocês também estão pensando no mico que eu paguei? - perguntei, pondo os cotovelos na bancada e segurando o rosto com as duas mãos.
- A sua prima não senta conosco. - o Davi respondeu expressando o que provavelmente fosse o motivo que os fizera me encarar.
- Ela não é minha prima e ela é uma idiota. - retruquei, embolando as palavras numa fala confusa. - Preciso comprar uma roupa e não faço a mínima idéia do que usar para ir à minha festa de boas-vindas. - continuei sem antes notar o sorriso esboçado pelos dois devido ao meu primeiro comentário sobre a Lorena.
- Acho que conheço alguém que pode te ajudar. - a cozinheira respondeu depois de um tempo de silêncio.
- É? - perguntei sem muito interesse.
- Os amigos da sua avó não estão pondo muita fé na senhorita. - o Davi anunciou, em voz baixa como quem conta um segredo.
- Conte-me uma novidade Davi, essa vida é totalmente o inverso do que era a minha vida. - eu disse, no tom triste que eu forçava em disfarçar.
- Humn... Isso tem cara de romance... - a dona Conceição constatou fazendo uma voz doce.
Abaixei os olhos na direção do piso branco e pisquei algumas vezes para secá-los que insistiam em manterem-se úmidos.
- Falei alguma coisa que não deveria? - a dona Conceição baixou a cabeça na direção do meu rosto e perguntou.
- Não, não... E então quem é a pessoa?
- Minha neta, ela faz moda. Se quiser ligo para ela.
- Liga sim.
Dona Conceição foi rápida, parecia bastante animada com o fato de apresentar sua neta à mim, porém eu não estava muito entusiasmada com esse fato aliás nada me entusiasmava muito, às três da tarde o senhor Davi me levou até o shopping da cidade, um lugar de pessoas muitíssimo bem vestidas em nada se assemelhava ao shopping que tinha perto da minha casa, onde as pessoas, inclusive eu, iam de chinelo e camiseta. Me senti um estranho no ninho quando adentrei aquele lugar trajando uma calça larga estilo saruel, chinelo e camiseta.
Avistei uma menina de cabelos chanel loiros, olhos verdes, usando um vestido cinza que valorizava suas curvas combinado perfeitamente com uma meia-calça preta e sapatinhos sem salto, fiquei abservando-a enquanto me aproximava tentando imaginar se era ela ou não a neta da dona Conceição, a sua aparência denotava traços de quem de fato conhecia sobre moda. Ela estava distraída observando uma calça pela vitrine de uma loja de marcas caras, ela me sorriu quando me aproximei mais um pouco e então pude reparar num piercing que ela tinha no canto do nariz e uma tatuagem no pulso escrito Carpe Diem em letras desenhadas:
- Maria Luiza eu sou a Nanda. - ela me estendeu a mão direita num sorriso enorme.
- Oi. - respondi, apertando sua mão, ela me analisou logo em seguida e após erguer a cabeça me disse:
- Gostei da sua roupa, você parece ser uma pessoa de personalidade.
Franzi os lábios e suspendi calmamente a sobrancelha direita e logo em seguida respondi num tom incerto:
- É... Nunca pensei o que eu transmitia através de uma roupa.
- Ah, mas isso é muito importante!- ela então enroscou seu braço no meu e me puxou para andar por aquele santuário do consumismo desmedido.
- É uma festa social, vai estar repleta de gente que procurará milhões de defeitos em você. Temos que encontrar algo que valorize seu corpo, mas sem atropelar essa sua personalidade forte.
- É... - respondi sem saber o que eu podia acrescentar.
- Mas relaxa, vamos escolher algo que você irá gostar! - ela sorriu como quem tinha certeza do que falava.
Depois de horas andando por aquele lugar cheio de roupas dos mais diferenciados estilos ela me puxou para mais próximo de uma vitrine de uma loja de vestidos:
- Acho que você ficaria bem nesse aqui. - ela apontou para um preto, tomara-que-caia, pouco acima dos joelhos.
- Vai ficar apertado de mais. - eu respondi sem a mínima animação.
- Ilusão sua, vai marcar sua cintura e ficar solto nos quadris, perfeito! Pelo menos experimenta. - ela pediu e assim entramos, uma simpática vendedora aproximou-se de nós duas e com um sorriso enorme ofereceu ajuda:
- Bom queria ver aquele vestido preto ali. - Nanda apontou para a peça de roupa ao qual se referia e me dirigiu até os provadores.
- Acho que ela vai ficar bem com o vestido. - escutei a vendedora conversar com a Nanda enquanto eu me enfiava dentro daqueles panos bem costurados.
- Eu também, o corpo dela é bem legal parece ficar bem em qualquer tipo de roupa. - a neta da dona Conceição completou.
Me encarei no espelho após estar vestida, a minha cintura estava totalmente marcada realçando as curvas que eu tinha e embaixo o vestido ficou soltinho me deixando confortável:
- E então o que acharam? - perguntei, arrastando as cortinas do provador para o canto:
- Está perfeito! - os brilhos nos olhos da Nanda denunciavam a total sinceridade do que ela falava.
- Você ta linda! - a vendedora completou.
Esbocei um sorriso entre os lábios e prendi os cabelos num coque desajeitado:
- Podemos levar... - disse olhando para a Nanda, uma fala que não fora nem uma pergunta e nem uma afirmação.
- Claro que sim! Agora teremos que comprar os sapatos e um cordãozinho bem simples.
Passamos a tarde toda no shopping e no final fomos lanchar na praça de alimentações, já passavam das seis eu já tinha liberado o senhor Davi para fazer o que quisesse a Nanda tinha dito que me levaria para casa depois dali:
- Você é diferente Luiza. - a Nanda me disse me analisando de uma forma bastante séria.
- Deve ser o sotaque. - respondi, tentando não entrar no assunto ao qual aquele comentário pudesse nos levar.
- Não, não é isso... - ela respondeu quase que instantaneamente parecia estar perdida em pensamentos.
- A Nanda esqueça isso, estamos nos divertindo tanto!- forcei um sorriso.
- Não Luiza você não esta, andamos o shopping todo compramos uma porção de coisas, sua avó te deu um cartão de crédito que é o sonho de qualquer pessoa da sua idade e você não esboçou um sorriso sincero. Porque você esta aqui nessa cidade? Dá para perceber que não é por vontade própria.
- Nanda, não quero falar sobre isso. - eu respondi num tom de voz pesado, ela estava entrando num assunto bastante delicado e a idéia de contar a uma completa estranha os motivos que me fizeram estar naquele lugar no atual momento não me agradava.
- Sabia, anda Luiza me conta! O que aconteceu com você? Homens? - ela foi bem direta.
- Homens? - eu ri ao repetir o que ela dissera. - Não tenho muitas experiências com o sexo oposto.
Ela riu-se com o que eu disse e depois respondeu:
- Então é um homem? Anda Luiza fala logo! - a Nanda me apressou sorrindo.
- Ta Dani eu falo... - revirei os olhos para cima diante de tanta insistência e mal percebi o nome que acabara de dizer.
- Dani? - ela estranhou.
- Não, deixa... Eu vou te contar... - comecei dando introdução a todo o assunto a cerca dos motivos que me fizeram estar ali.
Provavelmente levei mais de uma hora contando tudo sobre o Vitor e a Dani, a Nanda me observava com os olhos analisando friamente toda a situação que eu descrevia como uma psicóloga, sequei os olhos algumas vezes toda a vez que a imagem do meu pai no dia do fragrante vinha à minha cabeça. Era tão bom e tão ruim falar do Vitor que por vezes me peguei sorrindo ao me lembrar dele, a Nanda segurou minha mão certa hora quando pareceu que eu não iria agüentar manter-me firme e continuar a confidencia no final ela não acrescentou nada, não demonstrou em momento nenhum pena de mim o que era muito bom, pois eu detesto que sintam pena de mim nunca fiz nada humilhante que merecesse compaixão dessa forma.
A Nanda me deixou em frente a casa da minha avó, eu adentrei os portões de ferro logo após pedir pelo interfone que abrissem aquelas exageradas grades que tinham um design no mínimo curioso.
O sol já se escondia por de trás da montanha que fica próximo a rua de casas mais bonitas daquela pequena cidade, conforme a noite se aproximava o frio acompanhava o céu estrelado de tom azul escuro joguei minhas compras dentro do closet distribuindo em alguns cabides, pus uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta acompanhada do casaco de moletom da mesma cor da calça, fui para a frente do computador vasculhar um pouco minha vida digital, visitei o site de relacionamentos ao qual eu tinha um perfil e dei uma conferida nos recados, quase ninguém sabia que eu estava morando no Sul, aproveitei para matar a saudade do meu Vitor e deixei um recado no perfil dele, me surpreendi com a quantidade de recados femininos que se insinuavam para ele na sua página:

-

Aline: Oi amor, tô sabendo que a Lu não esta mais aqui na cidade. Se quiser podemos conversar sobre isso.

Fê: Vitor, tudo bom? Faz tempo que não nos vemos, vamos marcar de sair essa semana.

-

Senti a raiva esquentar meu corpo, a sensação era de que eu poderia perder o meu Vitor a qualquer momento, e eu já tinha plena consciência de que mais cedo ou mais tarde ele acabaria caindo nas tentações da carne afinal: Ele é homem, é lindo e dezenas de meninas muitíssimo mais bonitas que eu o procuravam. Não que eu seja uma pessoa insegura, mas sem dúvidas sou realista.
Mal quis saber se ele respondera ou não aos recados libidinosos daquelas meninas, fui para o meu e-mail na esperança de encontrar algum vestígio por menor que fosse da Dani, mas não havia nada além de e-mails de propaganda, desliguei o notebook e desci as escadas tentando me entreter com algo que pudesse desviar dos meus pensamentos o imagem do Vitor beijando outra garota. Cruzei a direita no hall onde uma biblioteca cheia de livros interessantes dava um ar mais intelectual à casa, ali perto tinha uma porta de madeira fechada que era o escritório onde minha avó se reunia com os seus editores, bati algumas vezes antes de abrir não havia ninguém ali e então eu adentrei aquele lugar de móveis rústicos, com algumas reportagens espalhadas por quadros verdes num mural, tinha fotos da minha avó com pessoas famosas, no computador um registro dela e de meu falecido avô enfeitava a área de trabalho como papel de parede, sentei na acolchoada cadeira por de trás da mesa onde minha avó provavelmente sentava para digitar suas matérias do jornal, percebi num canto um amontoado de cartas organizadas uma em cima da outra, puxei devagar aqueles papéis coloridos e abri o primeiro, pouco depois de analisar o envelope datado de 1960:

-

15 de junho de 1960

Olá amor, muitas coisas foram ditas desde o nosso último encontro e eu sinto que ainda me sobrou uma pequena porção de palavras muito mais importantes e necessárias do que as que eu disse.
Acho que não preciso explicar o quanto você é importante na minha vida e nem muito menos o que você significa para mim, afinal você me conhece muito bem e sabe perfeitamente que não gosto em insistir em coisas óbvias e muito, além disso, nunca necessitamos de formalidades para sabermos o que sentimos um pelo outro...

-

- O que você esta fazendo aqui? - minha avó me interrompeu parecendo muito irritada ao me ver mexendo em suas coisas particulares.

Quem esta por aqui?