Forcei um sorriso e guardei por dentro do casaco a carta que estava nas minhas mãos enquanto que o outro amontoado empurrei para o lugar de origem, fiquei quieta esperando ela falar qualquer coisa, aquela senhora me observou minuciosamente enquanto dava passos em minha direção eu gelei esperando a pior das broncas:
- Vá para o seu quarto, não quero te ver de novo aqui dentro. - ela sussurrou como se quisesse ter a certeza de que somente eu fosse escutar.
Deixei meus olhos encará-la de frente e me levantei da cadeira perguntando-me o motivo que a fizera falar tão baixo algo que poderia ser dito em voz alta e clara, obtive a resposta quando um senhor bem vestido adentrou o escritório, ele tinha traços femininos e o timbre agudo demais para alguém do sexo masculino:
- Você deve ser a neta da dona Maria Conceição. - achei meio estranho ele referir-se a minha vó pelo seu nome composto, a maior parte das pessoas a chamam de Maria.
Balancei a cabeça afirmando e apertei sua mão:
- Esse é o meu estilista, ele esta fazendo o vestido do casamento da Lorena. - minha vó anunciou enquanto conferia se eu tinha mexido em nada que pudesse preocupá-la.
- Boa sorte. - eu brinquei, mas nínguem riu aliás os dois olharam para mim de forma muito séria demonstrando que ambos desgostaram do meu comentário.
- Amanhã de manhã temos um café da manhã no clube, esteja pronta às sete. - minha avó anunciou enquanto eu caminhava até a porta, tive de dar meia volta após o que ela dissera:
- Vó eu não quero ir. - disse quase que suplicando que ela me deixasse ficar. Minha avó olhou para o estilista parecendo comunicar-se com ele mentalmente, ele saiu do escritório no mesmo minuto e encostou a porta:
- Qual o seu problema?! - derrepente vi o ar elegante e sofisticado da minha vó esvair.
- Como assim? - perguntei, sem entender com clareza ao que ela se referia.
- Luiza você chega nessa casa e em menos de 24 horas comete dezenas de gafes, eu até entendi que você não sabia do café da manhã de hoje, mas a sua atitude de não querer conhecer os meus amigos e essa sua implicância com a pobre da Lorena não vão te ajudar a se encaixar nessa sociedade. Amanhã é a comemoração dos 50 anos do clube. E é a minha chance de fazer contatos importantíssimos para o futuro do meu jornal e muito além disso é a sua oportunidade de fazer amizade com as amigas da Lorena.
- Vó eu não vou me sentir bem num ambiente cheio de patricinhas, eu não sou assim! - tentei argumentar, mas ela não me deu atenção já havia aberto a porta e me mandava sair.
Lorena e o estilista, que até o momento eu não sabia o nome, conversavam no hall, ela muito bem vestida e maquiada , os cabelos ruivos caiam em cachos longos pelos ombros, o vestido preto curto deixava-a parecendo uma daquelas modelos internacionais. Os dois conversavam como se fossem amigos antigos e ambos se calaram quando cruzei o hall em direção as escadas para subir até meu quarto:
- Prima! O Oscar me disse que você não tem roupa para ir no café-da-manhã do clube, se quiser te empresto alguma coisa. - ela estava me provocando, porém eu não respondi continuei meu caminho.
-
27-01-2010
Vitor, Amor por favor vem me buscar! Eu não aguento mais esse lugar, essas pessoas, esse mundo não é meu! A todo momento penso em ti e em todas as coisas que eu precisava te dizer, mas que não tive tempo.
Aqui o pensamento é outro, as pessoas são assustadoras e quando me lembro que você está a quilômetros de mim tudo piora de um jeito indescritível, preciso tanto do seu beijo, da sua voz... Da forma como você dizia que tudo iria acabar bem, mesmo eu sabendo que era mentira.
Fico aqui pensando em onde você pode estar agora, estou com tanto medo de te perder que às vezes parece que vou sufocar de tanta coisa que se passa na minha mente, porque eu te amo tanto que o auto-controle parece inviável.
Me sinto muito sozinha, minha avó parece viver de aparências e eu não sou capaz de ser assim, os amigos dela agem como se eu fosse um bicho-do-mato! Essa noite antes de dormir vou orar e pedir a Deus que todas essas coisas passem, engraçado é que até um tempo atrás eu duvidada da existência desse espiríto maior e hoje eu acredito mais que minha própria vida.
Te amo,
-
Deitei sem sentir sono, pus o celular para despertar às seis, a luz da lua entrava pela sacada do quarto e vinha até a mim banhando meu corpo num toque que me tranquilizava fechei os olhos e pedi a Deus para me teletransportar para perto do meu Vitor e meu olfato pareceu sentir o cheiro dele por um instante de tempo, mas quando abri os olhos continuava perdida em meu novo quarto.
A vontade de estar ao lado do Vitor me sufocava e aos poucos eu ia tendo a sensação que o meu amor por ele estava se transformando numa saudade horrível.
Eu permaneci acordada durante toda a noite, vi quando a Lorena chegou em um carro todo preto, ela andava em passos tortos até em casa. Logo após voltei a deitar, não conseguia pegar no sono de forma alguma meu corpo parecia estar em processo de abstinência, uma abstinência do Vitor e isso me dava vontade de gritar até ter a certeza de que ele me ouviria chamando seu nome.
Desliguei o celular quando este despertou às seis, eu ainda não havia dormido. Caminhei até o closet, para ser bem sincera eu não fazia ideia do que usar no tal café da manhã.
Pus um vestido preto e um cordão que ia até a metade do busto. Me lembrei do conselho da Nanda, enquanto nós compravámos sapatos ela me disse: -" Quando você não souber como ir, opte por um vestido simples e um cordãozinho longo."
Foi o que eu fiz, às sete minha avó já batia na minha porta me apressando para não atrasá-la a Lorena cruzou o meu caminho quase me atropelando na escada deixando no ar um cheiro forte de perfume, ela sim estava impecável, os cabelos lindíssimos, a maquiagem bem feita e o vestido rosa claro.
- Esta muito bonita Luiza. - a dona Conceição me elogiou quando eu esperava por minha avó no hall. - Obrigada! Segui o conselho da sua neta! - respondi abraçando aquela senhora simpática. Entramos no veículo em que o senhor Davi já nos aguardava, ele abriu a porta de trás para que eu e a Lorena entrássemos e logo em seguida abriu a porta do carona para minha avó sentar, pus os fones do mp4 no ouvido e me acomodei no confortável banco de couro:
- Todas as minhas amigas estão curiosas para conhecer a Luiza! - a Lorena anunciou para a minha vó, esta olhou para trás e num sorriso inocente respondeu:
- Ta vendo Luiza, tenho certeza que irá gostar das amigas da sua prima.
Eu forcei um sorriso e para não ser mal educada usei da mesma falsidade que mantinha-se presente em todos os comentários da cobra da Lorena:
- Mal posso esperar devem ser todas tão amadas quanto a minha prima! O Fábio quem diga né Lô? Posso te chamar de Lô? - tive que segurar o riso quando presenciei a face de satisfação da Lorena dar lugar a um rosto sério e cheio de raiva.
- Já contou sobre o Fábio para a Luiza? - minha avó pareceu não perceber nada e insistiu na conversa. - Conte a ela o que eu sei prima! - impliquei num tom de voz debochado.
- Ahhh... Dona Maria deixa isso para lá, ela sabe que eu e o Fábio somos muito felizes... Foi isso que eu contei. - ela respondeu, um pouco perdida nas palavras.
Eu sorri e voltei meus olhos a paisagem de Vale das Laranjeiras, depois disso minha avó voltou-se para a frente num ar satisfeito e feliz, já a Lorena mantinha-se contrariada ao meu lado e impotente de fazer qualquer coisa, pois se o fizesse sua máscara de boa moça cairia.
O clube se chamava " Jockei Clube Vale das Laranjeiras ", estava cheio de gente, repórteres da cidade, o prefeito e um monte de outras pessoas ricas que eu não fazia muita idéia de quem poderiam ser, algumas pessoas na entrada vestidas com roupas típicas distribuíam panfletos com o cronograma do que aconteceria durante toda aquela manhã:
- Se quiser ir embora me liga. - o senhor Davi cochichou no meu ouvido quando minha avó se destacou um pouco de nós, eu balancei a cabeça para dizer que entendi e continuei minha caminhada.
O clube tinha um jardim enorme cheio de laranjeiras, um chafariz bem no centro com a estátua de Afrodite ou alguma deusa grega que eu não sabia quem era:
- O incidente no carro vai ter volta. - a Lorena ameaçou quando estavámos apenas eu e ela andando, o motorista já estava em algum lugar que eu não sabia onde era e minha avó conversava com o prefeito da cidade.
Uma banda tocava uma música de fundo, as pessoas ao redor pareciam todas se conhecer. Cidade pequena geralmente é assim mesmo, o que piorou ainda mais a minha falta de encaixe naquele lugar:
- Amiga! - uma voz estridente gritou vindo na direção onde eu e a Lorena estavámos, a menina loira e de olhos castanhos abraçou a ruiva do meu lado como se fossem amigas antigas e deveriam ser mesmo.
- Saudades de você! - a voz estridente continuou.
- Eu também amiga! Como você ta? - a Lorena perguntou.
- Meninas! Vocês viram que os solteiros gatos da cidade estão todos aí? - uma outra morena de cabelos longos aproximou-se das duas, esta estava acompanhada de uma réplica que era sua irmã gêmea.
- E essa quem é? - a loira perguntou olhando para mim com repulsa, não sei se essa pode ser a palavra exata, mas é o que mais se aproxima do olhar que ela fez.
- É a neta da dona Maria. - a Lorena respondeu.
- Prima! - uma menina que eu já havia visto antes se aproximou e abraçou a Lorena. Era a mesma menina que no dia anterior ria de mim junto com aquela ruiva irritante.
- Júlia! - a Lorena gritou estridentemente abraçando a menina de cabelos lisos castanhos e olhos azuis.
Agora sim, as cinco me encaravam como se eu fosse um bicho fora da jaula, a Júlia foi a primeira a rir de mim enquanto contava para as outras o motivo que causava aquela vontade súbita de graça. O incidente da manhã passada era o que ela narrava, eu não fiquei para saber a reação daqueles seres-humanos que pareciam não usar muito o cérebro.
Peguei um copo de uma bebida efervescente que era servida em bandejas e continuei averiguando o espaço em que estava. Na verdade aquilo tudo era um evento da alta sociedade da cidade, as famílias ricas iam com suas filhas procurar maridos de familias igualmente ricas, os rapazes eram muito bonitos - devo admitir - e as meninas também. Todas estavam reunidas em grupos, sentei próximo a entrada do restaurante onde todos iam para o café-da-manhã e fiquei observando as pessoas que cruzavam o meu caminho, me sentia como um estranho no ninho em meio a todos aqueles seres belos e ricos.
Adentrei o restaurante quando minha avó subiu os degraus e me conduziu pela mão até a mesa reservada para nós, a Lorena veio logo depois junto com sua prima, Júlia.
- Esse ano eles capricharam! - ela comentou bastante animada.
- Mal posso esperar para começar a dança! - a Júlia continuou no mesmo nível de animação.
- Aposto que nínguem vai tirar esse patinho feio para dançar. - escutei a Lorena acrescentar, porém permaneci quieta até porque não imaginava ao certo do que elas estavam falando.
- Vai adorar a comemoração. - minha avó segurou na minha mão e num sorriso simpático disse. Passei a mão pelo cabelo, e voltei meus olhos para o prefeito que se levantara para um discurso político chato sobre a cidade e as mudanças que ocorreram em tão pouco tempo, ele foi muito aplaudido ao terminar de falar sobre toda a urbanização daquela cidade pequena e logo em seguida anunciou a dança típica:
- Cada rapaz tira uma moça para dançar, é uma homenagem que fazemos ao modo como os fundadores da cidade se relacionavam. - minha avó explicou, enquanto a música começava.
- É uma forma das desesperadas arrumarem um marido. - brinquei e observei minha vó esboçar um sorriso, ainda não a tinha visto sorrir.
- Vamos ver quem vai escolher essa daí. - mais uma vez a Lorena espetou pouco antes de um belo rapaz moreno tirá-la para dançar.
- Não se preocupe, tem sempre alguém que sobra. - a Júlia cochichou para mim.
Tomei um gole do suco de goiaba que tinham posto na mesa e voltei meus olhos para a minha avó, ela me olhava com uma expressão terna e satisfeita:
- O filho do prefeito te achou linda. - ela disse.
Balancei a cabeça negativamente e respondi:
- Vó eu não estou interessada em nín... - antes de completar a frase uma voz masculina grossa me interrompeu:
- Quer dançar? - era um belo exemplar do sexo oposto usando um traje social que o deixava mais atraente, porém apesar de todas as qualidades físicas dele eu não senti a mínima vontade de dançar com aquele rapaz de olhos azuis.
- Desculpa, deixa para a próxima. - recusei e ele foi praticamente atacado por uma menina morena que o puxou quase que intantâneamente após a minha recusa.
Voltei meus olhos à mesa onde estava sentada e minha avó me encarava com a face de poucos amigos, parecia estar contrariada com algo que eu havia dito. A Júlia olhava para mim admirada com algo que eu ainda não sei o que era, talvés por eu ter sido convidada para dançar antes dela, ou pelo fato de ter dito "não" para alguém como aquele rapaz que eu não sabia quem era:
- Ele é o filho do dono do jornal mais vendido da capital, é um dos solteiros mais desejados da cidade. - minha avó anunciou entre os dentes.
Suspendi as sombracelhas e sorri:
- Ele não deve receber muitos "nãos". É bom variar um pouquinho. - brinquei, dando um gole no suco de goiaba.
A Júlia foi tirada para dançar por um rapaz e ficamos apenas eu e minha avó na mesa, ela não conversou comigo durante toda a dança idiota daquela cidade idiota de jovens idiotas incapazes de perceber que o mundo é muitíssimo mais que Vale das Laranjeiras.
- Me desculpa vó. - pedi já irritada com todo aquele ambiente, levantei e fui para fora.
Escutei alguns gritos masculinos vindo de trás do restaurante, alguns meninos jogavam futebol num campo de grama sintética, sentei ali perto num banquinho me lembrando do futebol que sempre ocorria no meu condomínio. Balancei a cabeça negativamente tentando espantar um pensamento que me entristecia, mas não consegui evitar as lágrimas originadas dos fatos que se desenrolavam na minha mente:
- Droga de lugar... - disse entre os lábios enquanto analisava um pequeno grupo de meninas que se sentaram do outro lado do campo, num outro banquinho de pedra. Eram três meninas que aparentavam ter aproximadamente a minha idade, elas encaravam os rapazes de modo sedutor, mas estes não davam muita importância, estavam concentrados demais no pequeno objeto redondo que deslizava na grama entre um chute e outro.
O lugar onde eu estava era de fato bonito, por todo o lado haviam flores diferentes que coloriam todo aquele espaço, percebi isso quando olhei para o lado e um beija-flor tocava uma órquidea, mas não me animei, nem muito menos fiquei a admirar aquela maravilha da natureza por muito tempo, antes mesmo do futebol acabar minha avó me encontrou sentada e distante da realidade dela:
- Você me envergonhou profundamente hoje Luiza! - ela estourou, num tom de voz baixo pra não chamar a atenção das pessoas envolta. No pouco tempo que convivo com ela, deu para perceber que a mãe do meu pai é uma pessoa que valoriza demais a sua imagem na sociedade, talvés seja pelo fato dela ser uma pessoa importante onde mora ou por todos ao redor sempre a avaliarem... Eu ainda não descobri.
- Vó eu não fiz nada para te prejudicar... Só não estava me sentindo bem naquele lugar com aquelas pessoas olhando para a minha cara e me julgando.
Minha avó franziu a testa parecendo sentir pena de mim e eu me destestei por isso.
- Será que posso voltar para casa? - perguntei e minha vó assentiu com a cabeça eu não aguentava mais ver os olhos dela de compaixão, aquilo me irritava de forma absurda.
Entrei no carro preto de vidros fumê e apoiei a cabeça no banco de couro ao lado do motorista, liguei o som e pus numa música do meu agrado, me sentia tão triste que não sentia vontade de falar o que quer que fosse.
Às vezes queria poder fugir para um lugar onde nínguem me visse, um lugar onde eu pudesse gritar até a voz sumir, em que eu pudesse esquecer do Vitor por apenas um minuto. Eu precisava desse momento de paz, desesparadamente.
Me aninhei na cama e pus o cabertor até a cabeça, tentando esquecer do dia. Liguei o som no último volume e pus um rock nacional que parte do refrão dizia:
"- Morra, civilização capitalista morra!" - apesar de eu não gostar do tipo de música que gritava no meu quarto algo me dizia que o vocalista cantava para mim. Em pouco tempo acabei encarando aquele homem de voz fina e palavras sem rima como um poeta.
Acabei perdendo a noção do tempo e não sei ainda se quando eu dormi era tarde ou já era noite, as cortinas impediram qualquer entrada de luz fosse do sol ou da lua.
Quando reabri os olhos já estava claro, as cortinas abertas e o som desligado. Pus meus pés no frio piso do quarto e caminhei em passos curtos até o banheiro, lavei o rosto com água fria que saia da bica e voltei minha face ao espelho.
Um rosto feio, triste de olhar profundo me encarou do outro lado. Aquela menina estava quase que irreconhecível, tão deprimente aquela figura que me causou certa indignação ela era tão esperta e auto-confiante e agora se perguntava onde havia parado todas aquelas qualidades que ela tanto se orgulhara um dia.
- Maria Luiza, onde esta você? - perguntei-me em voz mínima, continuei dispersa em meus pensamentos enquanto vestia um short qualquer e uma bata branca.
- Luiza! - escutei uma voz masculina gritar meu nome de forma espontânea e alegre era meu tio Ramon.
- Oi tio. - respondi, desanimada enquanto ele me abraçava de forma sincera.
- Você ta enorme! Faz quanto tempo? Dez anos? Nossa... Estou ficando velho! - ele continuou enquanto ria-se. - E como esta seu pai? Faz tempo que não vejo aquele coroa!
Eu sorri diante de tanta animação:
- Vamos lá para baixo, sua avó esta numa reunião de família! - meu tio me puxou pelo braço e fomos descendo as escadas, eu esforcei meus passos para que eu pudesse acompanhá-lo:
O tio Ramon sempre foi muito espontâneo, alegre, muito poucas coisas o irritam. Esta sempre de bem com a vida e tem a maravilhosa capacidade de enxergar a parte boa de uma situação ruim, é por causa disso e de seu ótimo humor que o meu tio sempre fez sucesso entre as mulheres. Apesar de meu pai sempre ter sido mais bonito que ele, o meu tio sempre chamou mais a atenção das mulheres e de qualquer outra pessoa que se aproximasse dele. Quando eram jovens, meu tio era o popular, cheio de amigos e garotas meu pai o bonitão, metido e chato.
Minha avó, a Lorena e uma mulher de cabelos pretos com aparentemente a mesma idade do meu tio conversavam na sala de estar, a mulher que eu ainda não conhecia sentada no sofá entre a mãe do meu pai e do meu tio e a noiva do Fábio, ela mostrava fotos e narrava histórias sobre as imagens e o dia em que foram tiradas, eu entrei meio sem graça naquele lugar e aquela mulher me abraçou num ato totalmente inesperado o que me deixou surpresa, não só a mim quanto à Lorena. O gene ruim da minha "prima" provavelmente deve ter vindo do pai, pois a mãe me pareceu ser simpática:
- Nossa, você é tão bonita! - a mulher disse após o abraço.
- Ah obrigado, sou a Luiza.
- Madalena. - ela apertou a minha mão num sorriso enorme e animado e beijou minha bochecha.
A parte boa era que a Lorena finalmente foi embora e a ruim era que eu teria a festa de boas-vindas que provavelmente marcaria minha total falta de encaixe naquele mundo estranho de pessoas tão diferentes à mim:
- Minha avó não entende que eu não me sinto bem no meio daqueles amigos dela. Droga, não sei mais o que fazer. - me lamentei deitada na cama, enquanto a Nanda analisava a rua da sacada do meu quarto, eu tinha convidado-a para almoçar:
- Ué Luiza, nínguem nunca te disse que seria fácil! A sua prima ta adorando essa sua reação na frente dos amigos da sua avó, você ta dando o ouro ao bandido se quer saber.
- Mas Nanda você não entende, as pessoas daqui não me aceitam da forma como eu sou... Me sinto o patinho feio nesse lugar.
- Luiza, as pessoas não te aceitam porque você é diferente delas sim. Aqui todos tem costumes, sotaque, vestimentas iguais e chega você usando djeans e falando " Pô cara...", isso te individualiza, mas não é, de fato, ruim! Aposto que a tal da Lorena e as amiguinhas dela são todas iguais.
Deixei a Nanda continuar seu ponto de vista sem interropê-la, algo nela me lembrava da Dani, talvés fosse o jeito ou a forma como encarava a vida, ela tinha pouco mais de 19 anos e uma visão esplêndida das pessoas e aquilo me causava um bem-estar como se eu tivesse de volta aos meus amigos e meu mundo do Rio de Janeiro.
- E então como você vai? Já escolheu o penteado? Eu vou te deixar linda! Você vai despetar o interesse de todos os solteiros da festa! - a Nanda começou enquanto puxava um cadeira para o centro do cômodo.
- Você vai comigo né? - pedi.
- Poxa eu queria muito ir, mas tenho um desfile para assistir. Vou tentar mostrar alguns desenhos meus para o estilista Breno Braga! - ela anunciou numa animação notável, eu bati palmas e lhe desejei sorte, apesar de não fazer ideía de quem pudesse ser Breno Braga.
A Nanda tratava a avó de uma forma rara, como se ela fosse sua mãe, quase não deixou a dona Conceição mexer na cozinha, pediu para que ela ficasse no quarto conosco assistindo ao meu "tratamento de beleza".
Ela alargou um pouco os cachos com a baby-liss, os prendeu no meio da cabeça com alguns poucos grampos deixando fios soltos que acompanhavam o caimento da franja, pôs uma maquiagem que detalhou o meu olhar e um batom cor de boca.
Me encarei no espelho após toda aquela produção, eu estava muito bonita e desejei que o Vitor me visse, mas ele estava muito longe de mim o relógio marcava sete e alguma coisa, a festa de boas-vindas seria num salão cinco estrelas que eu não fazia ideía de onde ficava, mas o motorista me levaria então nem me preocupei.
Minha avó já estava lá, aliás até animada demais me ligou dizendo que estava tudo pronto e os convidados já estavam chegando:
- Qualquer coisa vou fingir um ataque e tremer no chão! - brinquei durante o trajeto de ida ao salão, o motorista esboçou um sorriso.
- As pessoas vão gostar de você! Aposto, eu e os outros empregados simpatizamos com a senhorita no primeiro dia. - o Davi continuou.
O carro entrou numa rua fechada de poucas casas e muitos bares, jovens bonitos bebiam e conversavam em todos os cantos, pareciam bastantes animados e felizes.
O salão era o último da rua, o muro verde cheio de flores rosas e violetas formava um belo casamento da arquitetura com a natureza.
Diversos veículos perfeitos estacionados próximo ao salão de dois andares, abri a porta do carro com certa hesitação e olhei para o motorista antes de descer:
- Preciso mesmo ir? - perguntei.
Ele sorriu e balançou a cabeça afirmando:
- A ídeia de cair tremendo não é tão ruim quanto parece.
Eu sorri e desci sendo bombardeada por olhares, dei o próximo passo e levantei a cabeça em direção à entrada onde minha vó me aguadava sorridente ao lado de três homens de paletó preto que eram os seguranças:
- Uau! Você ta linda Lu! - ela me abraçou, enquanto me conduzia até o interior do lugar. - Estão todos te esperando.
- Obrigada vó.
E mais uma vez olhares diversos me metralharam, eu fingi que não era eu e continuei com a máscara de boa moça, simpática e debil mental, cumprimentei um casal de senhores que riu de mim no dia do incidente da camisola, depois mais uma dezenas de pessoas que queriam agradar a minha avó, o tio Ramón foi o único a fazer algo racional e me ofereceu um copo de wisky que minha avó não me deixou beber.
A música que tocava reunia alguns jovens no meio do salão principal, observei a Lorena e as amigas dela ao longe. A ruiva estava linda, com os cabelos lisos , os olhos verdes acentuados com a maquiagem escura combinada em preto e branco estava sendo disputadíssima pelos rapazes, todos eles queriam tirá-la para dançar e era perceptível a satisfação dela em ser a mais desejada do lugar:
- Pelo menos se esqueceram de mim um pouco! - disse num tom baixo antes de levar à boca o suco natural de morango.
- Luiza vem ficar com a sua prima! - minha avó me puxou para perto das amigas da Lorena, onde a desagradável da Júlia também estava.
Pronto eu havia acabada de ser jogada aos leões, as cinco me criticavam com olhares e riam de mim sem que eu soubesse o motivo da graça e aquilo me irritava, porém eu não podia dizer nada precisava manter a classe embora a vontade de voar no pescoço de cada uma estivesse quase gritando:
- Ela é uma prostituta, semana passada estava namorando um e essa já esta com outro. - a Júlia comentou com a Lorena assim que uma menina de cabelos negros acompanhada de um rapaz passou pela mesa em que todas estavam sentadas:
Balancei a cabeça negativamente em sinal de reprovação e todas me encararam com os olhares igualmente contrariados, mas antes que qualquer uma pudesse dizer alguma coisa ofensiva ele calou a mesa com sua presença inesperada, por onde passava arrancava olhares admirados de mulheres - acompanhadas ou não.
Ele estava perfeito no traje social cor escura que escolhera, seu andar perfeitamente simétrico era algo que adicionava charme à sua bela aparência masculina e eu o conhecia, era ele mesmo, dos olhos mais belos e expressivos o Gabriel veio em direção à mesa em que eu e as cinco meninas estavámos:
- Meu Deus ele esta vindo aqui, não acredito que depois de tanto tempo vai me tirar para dançar. - a Júlia suspirou e segurou nas mãos da Lorena fingindo normalidade.
- Me daria a honra dessa dança? - ele perguntou num tom de voz envolvente que parecia música aos ouvidos de qualquer uma que pudesse ouvi-lo e aquelas palavras eram unicamente direcionadas a mim.