Estou trancada no quarto desde às cinco pensando no dia de ontem, foi horrível. O pior dia da minha vida, não sei por onde começar. Presenciei uma das piores cenas, me sinto culpada, uma mentirosa, não aguento me olhar no espelho, queria ser qualquer outra pessoa. Pela primeira vez desejo nunca ter conhecido a Daniele, aquela vontade de fugir esta se tornando cada vez mais forte. Queria poder voar para muito longe agora, nada que penso me anima, tô com medo de sair do quarto e ter que enfrentar o Vitor. Nunca pensei que fosse escutar tantas coisas ruins dele como as que ouvi ontem.
Tudo começou logo de manhã, a Dani me ligou lá pelas nove eu ainda dormia quando ela me pediu para tirar o Vitor de casa, meus pais não estavam aqui tinham saído com os dela. Eu disse que não, mas ela entrou em desespero, não consegui continuar negando de ajudar minha melhor amiga logo na hora que ela mais precisava.
Meia hora depois o Vitor estava aqui em casa, a Dani tinha dito que eu queria falar com ele. Ficamos sentados na sala, eu de uma ponta do sofá e ele de outra.
- O que foi Luiza? - ele me perguntou, depois de vinte minutos de silêncio.
- Nada. - eu respondi, só pensava na Dani tomando o tal chá. Provavelmente ela não sofreria nenhum dano, mas o feto iria desaparecer, tudo que a Dani mais queria e tudo que eu mais era contra.
- Nada? - o Vitor estranhou, pela quarta vez ele me fazia essa pergunta. - Ta tremendo porque? - ele me perguntou, enquanto segurava nas minhas mãos.
- Nada. - eu respondi, levantando.
- O que foi? Foram seus pais? - ele insistia e a cada palavra atenciosa e preocupada dele eu me afundava mais em culpa.
Ele me abraçou. meu Deus ele não devia ter feito isso, eu esqueci de tudo na hora, o cheiro dele, a voz tão perto de mim, eu senti a batidas do coração dele.
- Olha só, não precisa me dizer se você não se sentir a vontade, mas eu vou ficar aqui até você melhorar. - ele me disse.
- Penso em você todos os dias, acho que estou ficando louca. Sua voz, seu sorriso, seus olhos... Me fascinam. - eu disse, meu Deus não consegui segurar, pensei que ele fosse me soltar, dizer que eu estava confundindo as coisas.
A mão direita dele desceu pelas minhas costas e pausou acima do meu cóccix, ele me beijou devagar até meu lábios e eu me deixei levar por poucos instantes até me vir à cabeça a imagem da Dani, eu o empurrei e falei a verdade:
- A Dani me pediu para te tirar de casa para ela poder tomar um chá para abortar.
Ele primeiro me olhou com repulsa, depois correu para a casa tentar impedir a irmã de tomar o chá, mas já era tarde, quando chegamos lá a Dani estava desmaiada no chão do banheiro, tinha sangue em volta. Ela havia mentido para mim, na verdade não era chá que ela comprou era um remédio, ele estava em cima da pia do banheiro. O Vitor tentou reanimá-la enquanto eu liguei para a ambulância.
O condomínio todo saiu para ver o que havia acontecido, meus amigos me perguntavam o que tinha acontecido com a Dani, o Fabinho viu tudo da casa dele.
Eu e o Vitor ficamos mais de uma hora calados na sala de espera do hospital, ele olhando a hora e eu para o chão, não tive coragem de olhar para ele. A tia Sílvia e o tio Luís chegaram desesperados, meus pais estavam com eles, dava para ver pelos olhos da minha mãe que também estavam assustados, mas queriam permanecer calmos para transmitir segurança. O Vitor explicou tudo, em nenhum momento disse que eu sabia da história, mas teve que contar que a Dani estava grávida e tentou abortar, os pais dela ficaram arrasados.
Mais tarde quando o Vitor foi pegar um café para a minha mãe eu fui atrás dele para tentar explicar:
- Vitor pera aí! Preciso falar com você!
- Por favor Luiza, eu não quero falar com você.
- Preciso explicar. - foi aí que ele disparou:
- Explicar o que Luiza? Que você é uma mentirosa?Falsa. Que ajudou a minha irmã a tentar se matar e matar uma criança? Quer saber, você é pior que ela. Devia ter pensado, que tipo de amiga você é? Foi tudo combinado né? O beijo também fazia parte do planinho de vocês duas? E se mesmo assim eu quisesse ir embora? Agiria como uma prostituta?
Fiquei quieta escutando ele, fui embora logo depois, meu pai me trouxe em casa e voltou para o hospital, não dormi direito, na verdade eu não dormi. Fiz prova hoje, mas devo ter zerado tudo.
A Dani esta melhor, esta em observação, agora. O médico disse que aquilo foi um efeito colateral que ela teve, disse que o bebê esta bem, ela esta de um mês e meio, aposto que nem ela mesmo sabia.
Vou hoje na casa do Fabinho falar com ele, o pai da Dani me perguntou se eu sei quem é o pai eu desconversei, mas não menti. Chega de mentiras.


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