Ontem à noite fui na casa da Dani para conversar com ela, estava péssima, muito confusa, parecia que iria explodir de tantas perguntas. Eu não sei explicar exatamente como me sentia, mas sei que era horrível. Precisava escutar a Dani dizer que isso iria passar, era uma fase e que meus pais sabiam exatamente o que era melhor para mim.
Toquei a campainha umas três vezes até que o irmão dela veio atender, nunca conversei muito com ele. O máximo que já falamos foi:
- Oi tudo bom? Ta quente né? - e mesmo assim à cinco anos atrás.
O irmão dela é mais velho, já ta na faculdade, trabalha, é muito maduro. As meninas daqui da rua são apaixonadas por ele, mas ele não da idéia para nenhuma delas.
Eu perguntei pela Dani enquanto ele girava a chave para abrir o portão:
-A Daniele não ta aí não, aliás saiu todo mundo, mas se você quiser esperar ela lá na sala. Não vai demorar muito não, ela foi levar um documento lá na rua do meio para o sindico.
Ele me disse, eu entrei. Conhecia aquela família a 17 anos, eu e a Dani nascemos no mesmo dia, na mesma maternidade, nossas mães eram amigas de colégio, a minha mãe era madrinha da Dani e a dela minha.
Liguei a televisão da sala e o Vitor me ofereceu algo pra comer, mas eu não quis.
Ele se enfiou no quarto e me deixou a vontade na sala, eu acabei dormindo. A Dani tava demorando muito, aposto que ela tinha encontrado o Fabinho no caminho - Fabinho é um rolo dela.
Eu despertei quando senti alguém desligar a televisão, era o Vitor que estava até me cobrindo com uma coberta - Achei aquilo tão fofo, nunca que um menino da minha idade faria isso. No máximo me diria: - Aí vai pra casa não garota, ta na hora já!
-Você dormiu, ia te cobrir. - disse, sentando na beira da poltrona.
- Nossa, acabei dormindo. Tenho que ir pra casa, a Dani vai demorar muito. Quando ela chegar diz que eu quero falar com ela? - eu pedi, enquanto calçava os chinelos pra ir embora.
- São problemas? Eu posso tentar ajudar, desde que não seja sobre garotos. - ele brincou sorrindo, estava tentando descontrair.
Nunca percebi, mas o sorriso dele é incrivelmente bonito. Me transmitiu confiança, não sei explicar, poucas pessoas tem esse dom.
Eu voltei a sentar, estava tão desesperada que mesmo se ele fosse meu pior inimigo diria o que estava passando. Falei tudo mesmo, ele me analizou, me deixou falar tudo, calado e sério, atento a cada palavra minha meu Deus o que ele deve ter pensado de mim?
Mas eu falei mesmo, tava precisando!
Disse que tava nervosa com o Enem, que meus pais querem que eu faça algo que eu tenho certeza que não é o que eu quero, mas que não há maneira de tirar isso da cabeça deles. Disse que tô com medo, não sei o que fazer, parece que não levo jeito para nada, nenhuma profissão se encaixa comigo, que me sentia uma idiota por estar falando isso com ele até porque ele nem meu amigo era. Disse que minha vontade era correr até ter certeza que nada me alcançaria.
O Vitor me disse:
- Isso que você esta passando é normal, eu tenho 21 anos na minha época de vestibular foi a mesma coisa. Eu ficava horas pensando no que ser, no que meus pais queriam que eu fosse. E eu descobri uma coisa, nossos pais só nos conhecem por completo até nossos 3 anos, depois passamos aos poucos a nos relacionar com pessoas que eles desconhecem, falamos entre nossos amigos palavras que nunca diríamos na frente deles, fazemos bobeiras, temos sonhos que eles não sabem. Aos poucos nossa personalidade vai se formando, passamos a ter nossas próprias escolhas. Olha não estou querendo dizer que seus pais não sabem o que é bom pra você, mas estou dizendo que às vezes eles também erram. Olha só eu vou tentar te ajudar, quais matérias do colégio você mais gostava?
Ele foi a segunda pessoa a me perguntar isso, eu deduzi que ele também não iria me ajudar, mas eu respondi e expliquei que apesar de gostar de história e português não era nenhum referencial nas aulas.
- Já pensou em fazer jornalismo? Você era do jornal da sua escola, suas matérias até que eram bem legais eu sempre as lia quando a Daniele trazia o jornal pra casa...
Nunca pensei em fazer jornalismo, até porque pra mim não se passava de uma brincadeira. Adorava entrevistar os meninos do time de futebol, falar dos problemas do colégio, preparar reuniões, mas levar isso a sério parecia meio que sonho de criança, até aquele momento.
Pensa nisso Luiza, não se precipita, mas pensa. Pode ser uma ideía.
Eu disse que ia pensar, conversar com ele foi melhor que seria conversar com a Dani ( que ela nunca leia isso ), mas é porque pessoas mais maduras e que já passaram por isso tem ideia de como é essa situação.
Bom vou voltar a estudar porque o Enem é depois de amanhã!


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