sexta-feira, dezembro 25, 2009

Cap IX - Natal

Durante a tarde do dia 24 eu fui com o Bernardo na pracinha aqui perto de casa, ele me deu um cordão de cor prata com um pingente de ursinho, muito fofinho. Eu lhe dei uma pulseira tipo corrente, cor prata, eu sabia que ele queria ganhar isso. Me disse umas 12 vezes no dia do baile que ia comprar uma pra ele.
A Amanda teve que passar o natal na casa dos pais e o Vitor aqui, pra mim foi ótimo isso acontecer. Fui para a casa da Dani lá pelas onze, minha idéia era: Esperar meia-noite, comer um pouco da ceia, dizer que estava com sono e voltar pra casa meia-noite e vinte. Não queria ter que olhar para o Vitor, quanto mais eu pudesse evitar eu evitaria e assim ia ser até eu me casar, ter filhos e me mudar do bairro, mas nem tudo sai como esperamos. Ainda bem.
Às onze estava lá, fui a última a chegar, meus pais, uns vizinhos mais chegados, uns poucos amigos da rua, já estavam todos lá.
O Vitor conversava com o seu Jorge, um velhinho de 70 anos que mora numa casinha pequena perto da praça, a gente sempre convida ele no Natal, ele não tem nínguem, a mulher morreu a uns sete anos e os filhos não querem saber dele. Um é político e mora em Brasília o outro é juíz federal. Nem preciso dizer que os dois nadam na grana, mas o dinheiro os envenenou - é isso que diz o seu Jorge.
Meus Deus como o Vitor estava lindo, com uma camiseta branca que deixava os braços de fora, uma bermuda listrada.
Entrei e cumprimentei todos, exceto o Vitor, sei que é falta de educação, mas não consegui falar com ele, algo me travou.
- Cara, como você demorou! - a Dani me disse, me abraçando - Não aguento mais essa roupa, ta muito apertada, assim que der meia noite vou por um vestido. -ela me disse, se certificando que nínguem além de mim fosse escutar.
Eu respondi com um sorriso.
Tiramos milhares de fotos, foi até engraçado. Minha mãe de dez em dez minutos chamava meu pai pra uma pose nova:
- Aí meu Deus Andréia! Não existem mais poses possíveis para fazermos. - meu pai reclamou pela milésima vez, mas minha mãe continuou ignorando.
- Aí Carlos, deixa de ser chato. Filha depois passa photoshop em tudo!
Quando deu meia noite todos se abraçaram, seu Jorge me deu um porta-jóia em forma de bailarina, muito bonito.
Eu agradeci com um abraço.
Relutei em abraçar o Vitor e lhe desejar feliz natal, não que eu não quisesse. De coração era o que eu mais queria, mas não conseguia transparecer. Fui para o terraço observar os fogos e ficar um pouco sozinha, precisava daquilo.
- Faltou o meu feliz natal. - uma voz me disse pouco depois de eu subir para o terraço.
- Me desculpa, não consigo. - eu respondi, enquanto mantinha meus olhos fixos no céu cheio de cores, encará-lo só iria piorar tudo.
- Tenho uma coisa pra você. - ele me disse me entregando um papel com um número e um tema para redação.
- O que é isso? - eu perguntei.
-É sua inscrição num concurso para jovens jornalistas do jornal da cidade, você tem que fazer uma redação de 20 linhas com esse tema e enviar para o e-mail que esta embaixo do seu número de inscrição.
Eu sorri, mesmo com tudo o que aconteceu ele ainda pensava em nossas conversas, em meus sonhos.
- Pensei que não se importasse mais. - eu disse, não para ser fria, mas para ser verdadeira.
- Tentei não me importar, mas não consegui.
- Obrigado.
- Não agradeça, faço isso porque é mais forte que eu mesmo.
Eu baixei a cabeça, se voltasse a olhar nos olhos dele mais uma vez estaria perdida.
Eu e ele estávamos frente à frente, o cheiro dele já me invadia e a voz penetrava por meus ouvidos eu fechei meus olhos e tentei voltar ao mundo real, mas só a presença dele me tira o chão.
- Sabe te conheço a dezessete anos. Eu te juro nunca te olhei com maus olhos, nunca te desejei, mas de alguma forma você se tornou minha necessidade. O seu sorriso me embriaga de vontades. As outras garotas me parecem tão vazias perto de você.
Uma lágrima desceu de meus olhos, eu não consegui dizer nada, queria continuar escutando tudo o que ele tinha para me dizer, meu coração só faltava pular pra fora a cada palavra que ele dizia, tentei lembrar da aula de biologia que dizia que tudo isso era culpa da ocitocina.
- Era verdade? - ele me perguntou.
- O que? - pronto, eu tinha acabado de olhá-lo nos olhos mais uma vez. Não seria capaz de mentir ou esconder o que quer que fosse.
- O que você me disse naquele dia? Que pensa em mim, que te fascino... É verdade Luiza?
Eu sorri meia sem graça, não acredito que disse tudo aquilo, mas ele me deixa tão exposta:
- É. - maldita seja a ocitocina.
- Me desculpa, por tudo. Eu estava errado.
A mão direita dele desceu levemente por meus braços, segurou minha mão. A outra percorria meu rosto e devagar os lábios dele se aproximaram dos meus, ele me puxou para mais perto dele, dava para sentir o corpo dele contra o meu. Minha mão pousou no ombro dele, enquanto a outra mexia em seus cabelos lisos e arrumados.
A testa dele encostou na minha e ele me sorriu:
- Uau! Você tira meu fôlego menina.
Eu sorri.
- Vitor! - era a voz da tia Sílvia, ela estava parada olhando para a gente com os olhos arregalados iguais quando vemos algo fora da realidade, como um ET, por exemplo.
Eu e ele ficamos quietos, calados, assustados.
- Maria Luiza, desça por favor. -ela pediu, eu acatei. Vim para casa. Inventei uma desculpa qualquer e estou aqui agora sem fazer a mínima idéia do que está acontecendo, do que ela esta falando pro Vitor. Não me arrependo, mas me sinto mal.

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