Esse final de semana foi o Enem, não sei se fui bem ou não. As primeiras questões tenho certeza que me dei bem tanto nas de sábado quanto nas de domingo, mas depois de um tempo não agüentei mais, muitos textos, prova cansativa pra caramba saí chutando uma porção nem me importei na hora. Queria ir logo embora, parar de ler, de pensar. Na hora que eu saí de casa os vizinhos estavam preparando um churrasco pra comemorar o jogo do Flamengo, meu pai foi o cabeça da comemoração. Ele tava lá na rua gritando, abraçando o vizinho que ele diz nem gostar. O Vitor tava lá também, aliás todo mundo. Por falar nele não imaginava como ele poderia ser tão inteligente, não estou dizendo no sentido de intelectualidade, mas no de conselho.
Antes do meio dia ele passou aqui em casa pra me buscar, eu fui sentada na frente com ele e a Dani lá atrás dormindo. Na maior parte do tempo ele foi calado, escutando música e cantarolando junto. Quando eu era mais nova achava que ele fazia isso para aparecer, mas percebi que é dele mesmo. Eu fui na minha, quieta - também -lendo umas fórmulas matemáticas e fazendo uns exercícios. Percebi que ele olhou no espelho de cima do carro para ver se a Dani dormia e depois me dirigiu a palavra:
- Isso não vai adiantar nada .
- Eu sei, mas parece que não é o suficiente. Parece que da sempre pra acomular mais informação.
- Mas não é, você devia estar calma. Como ta fazendo a Daniele! - ele brincou sorrindo do próprio comentário.
Eu não emendei nada, até porque não sabia o que falar. Tenho um medo do caramba de falar besteira e ele me achar uma criançona como acha todas as outras amigas da irmã.
- E aí pensou no que eu te falei? Sobre jornalismo?
- Pensei, eu li umas matérias que eu fiz. Achei muito boas por sinal. Antes de você me falar isso nunca tinha percebido.
- Investe nisso, se você quiser, claro, mas acho que você seria melhor jornalista que médica.
- Ahh... Isso eu tenho certeza!
Ele parou no sinal e pegou os livros do meu colo e os fechou todos, pôs debaixo do meu banco e me disse para depois da prova pegar.
- Tem quantos anos Luiza? - ele me perguntou, não entendi exatamente porque ele me fez essa pergunta, o Vitor nunca tinha se interessado nem em saber se eu estava viva ou não e agora queria saber minha idade e além disso para quê? Será que ele estava me achando tão idiota assim?
- Dezessete. - eu respondi com todas as partes do meu ser geladas e tensas.
- É nova ainda, pode fazer o quantas faculdades quiser. - Odeio quando me chamam de nova, ainda mais esses garotos que nem tão velhos são como é o caso do Vitor, mas eu sei que para eles é anos luz.
- E a Amanda tem te ligado? - Amanda é a ex namorada dele que ele fica de vez em quando, a mãe dele falou outro dia com a minha que essa garota enche o saco dele. Até agora não sei porque eu fiz essa pergunta, não era da minha conta e eu poderia levar um fora naquela hora.
O Vitor estranhou minha pergunta, não conseguiu esconder a surpresa , mas ele muito educado me respondeu:
- Eu gosto dela, mas não dá mais. Longa história, ela me sacaneou muito. Não dá certo, ela me liga todo dia, às vezes eu atendo e às vezes não.
Essa minha pergunta deu sinal verde para ele me perguntar sobre garotos também ou pelo menos foi o que ele achou.
- E você?
Eu fiquei sem graça de responder de início, até porque o que eu iria dizer? Que passei três anos da minha vida apaixonada por um garoto que nem olhava pra mim?
- Bem, não tenho muito tempo para pensar nisso.
Ele riu e comentou:
- Olha eu acho melhor você arrumar, porque as coisas só tendem a piorar e se você não achar tempo agora lá na frente também não vai achar.
Eu ri e fiquei calada, ele olhou de novo para ver se a irmã dormia.
- Boa sorte hoje, vai com calma. Vou esperar o tempo que for. Tô torcendo por vocês! - ele me disse, cutucando a irmã para acordar.
Eu agradeci e desci do carro, ele ficou lá escutando música e deitado.
Quando eu voltei da prova a Dani já estava lá com ele me esperando. Voltamos os três calados, ele estacionou o carro na garagem daqui de casa e entrou. Iria ajudar meu pai com o churrasco, a Dani foi pra casa tomar banho e eu me joguei na cama e fechei a porta do meu quarto, estava exausta!
O Vitor entrou no meu quarto já com a blusa do flamengo e meus livros na mão,
- Você esqueceu. - disse ele.
Ele sentou na cama e eu sentei ao lado dele, ficamos falando da prova e do jogo do flamengo, eu peguei umas reportagens que fiz no colégio e mostrei pra ele. Eram as minhas preferidas, contei da história do vestiário ele riu muito e depois de um tempo ficamos calados, olhando para a outra parede do meu quarto onde tinha um mural com várias fotos de amigos.
- Te conheço a dezessete anos e nunca troquei um oi com você.
- Tudo bem, eu também não era a senhora sociável com você. Aliás nunca fui né?
Ele riu, ultimamente tenho achado o sorriso dele tão bonito.
- Nunca mesmo.
- Me ajudou muito naquele dia, brigado.
- Não foi nada. Era só uma opinião.
Ficamos em silêncio mais uma vez, de alguma forma aquilo me incomodava. Parecia que eu não sabia ser interessante, comunicativa, mas ele também não estava sendo então esse pensamento me traquilizou por um tempo até eu pensar que ele poderia sair, eu não queria que ele saísse.
- Droga, tenho que descer agora. Se teu pai me pega no seu quarto me mata.
- Mata nada, mas vai lá. Conversamos depois.
Ele tinha razão meu pai matava mesmo.
Eu fiquei assistindo o jogo no meu quarto, enquanto meu pai e a maioria dos vizinhos gritava lá na rua. Mas depois eles se calaram quando o Grêmio fez o primeiro gol, só voltaram a gritar no gol do flamengo.
Aliás somos HEXA agora!!
Hoje faz dois dias que não vejo o Vitor, também não vou procurar. A última coisa que quero é me relacionar com ele, aliás nem sei mais.
Vou estudar porque semana que vem tenho prova da UERJ.


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