quinta-feira, dezembro 31, 2009

Cap XII - Abutres

Estou morrendo de raiva agora! Muita! Demais! Odeio todas as meninas desse lugar, um bando de abutres! Minha vontade hoje à tarde era de fuzilar todas, mas não pude, muito menos podia beijar o Vitor na frente delas. A tia Sívia não tirava os olhos de mim e dele, já tô ficando de saco cheio com isso.
Hoje na hora do almoço o tio Luís fez um churrasco e chamou uns amigos, a Dani chamou as meninas daqui da rua. O Vitor chegou depois do futebol, a empresa dele entrou de recesso de fim de ano. Não sei quem espalhou a notícia, mas todo mundo já sabe que ele e a Amanda terminaram, até eu descobri isso antes dele me dizer.
Eu, a Dani, a Fernanda, a Aline e mais duas meninas conversávamos na sala. Quando o Vitor chegou elas simplesmente esqueceram de mim e da Dani e quase que obrigaram o rapaz a se sentar na cadeira que fica ao lado do telefone. Uma das razões da Dani gostar de mim é exatamente essa, geralmente as outras meninas esquecem completamente ela quando veêm o irmão dela:
- Nossa como você ta suado "V". - disse a Aline, minha vontade era de dizer: É claro que ele ta suado idiota, afinal ele tava jogando bola.
- "V" onde é que vai passar ano novo? - continuou a Fernanda, não sei se elas sabem mas o nome do irmão da Dani é mais que uma única consoante.
- Ah não sei, meu amigo me chamou pra passar no apartamento dele lá em Copa. Da para ver os fogos de lá, sem contar que ele vai dar uma festa. - ele respondeu, uma das coisas que me irrita profundamente no Vitor é essa necessidade que ele vê de ser tão simpático com todo mundo, custava ele dizer não interessa?
- Aí que maneiro! Me leva? - pediu a outra menina ao qual eu apelidei de galinha nº 1, que raiva dela! Como ela teve coragem de pedir isso? E o idiota do Vitor respondeu:
- Poxa não sei se eu vou mesmo. - qual o problema que ele vê em dizer não?
- "V" passa aqui com a gente se você não for passar lá. Ainda mais agora que você terminou o namoro, provavelmente vai sentir falta de alguém pra ficar do seu lado na hora da virada. - eu ainda não acredito como a Aline teve tanta coragem. Enquanto isso a galinha nº 2 levantou do sofá, foi até o Vitor e mexeu no cabelo dele.
- Ta precisando cortar esse cabelo heim "V". - ele não precisa cortar o cabelo, ela estava usando uma tática de garotas: fazer um contato corporal utilizando de um artifício, no caso os belos cabelos castanhos e lisos do Vitor.
O sangue me ferveu, fechei os olhos e os abri em seguida na tentativa de me acalmar.
- Vamos almoçar meninas! - chamou o tio Luís depois de um tempinho.
Aqueles abutres ambulantes se enrroscaram no braço do Vitor e o levaram até o quintal, eu preferi ficar na minha. Meu humor variava de muito irritada para psicopata em potencial diversas vezes.
Dentre todas elas a que mais me irritava era a Aline, o maneira como ela olhava pra ele e ficava dando risinhos sensuais pra cada coisa que ele dizia. A tia Sílvia ficava olhando pra minha cara enquanto eu almoçava, tentei ao máximo não olhar para o Vitor, mas era quase que impossível, ele e as meninas estavam na mesa em frente a minha:
- Às vezes essa babação toda de ovo me irrita. - comentou a Dani em relação ao modo como as meninas paparicavam o Vitor.
- A mim também. - eu deixei escapar, sem perceber o que acabara de falar.
- O que? Te irrita? - a Dani estranhou, eu nunca me importei com o irmão dela.
- Não, quer dizer! É chato porque elas acabam se esquecendo da gente né.
- Claro. Sem contar que o Vitor nem gosta disso.
- Eu sei. - respondi. Não sei o que me deu, mas não estava percebendo o que tava falando.
- Você sabe? - perguntou a Dani. - Ta afim do meu irmão Lu? - ela continuou antes de me deixar responder qualquer coisa.
- O que? Claro que não Daniele... - respondi dando um próximo gole no refrigerante.
Depois dali fui pro quarto da Dani ver televisão, não ia conseguir ficar mais um minuto naquele lugar sem voar no pescoço daqueles abutres ambulantes.
-Desculpa, eu não pude evitar. - disse o Vitor, algum tempo depois. Abrindo a porta do quarto da Dani.
- Fecha a porta se não o ar vai sair. - eu disse, com os olhos fixos no programa de televisão que contava do dia-a-dia de um cachorrinho que teve as patas da frente amputadas.
Ele entrou no quarto e sentou-se na beira da cama:
- Cadê as suas fãs? - perguntei, querendo implicar.
- Você sabe que elas não querem me dizer nada.
- Vitor eu já tô ficando de saco cheio disso. Na boa! Não agüento mais ter que ficar fingindo que não tô nem aí pra você, ou ter que ficar me encontrando às escondidas contigo, ou ter que ficar suportando aquelas garotas te dando mole. Isso tudo é um saco! Eu quero estar com você na frente de todo mundo! De preferência pendurar uma plaquinha no seu pescoço escrito: Propriedade da Maria Luiza!
- Ué então vamos lá em baixo. Se quiser te dou um beijo na frente de todo mundo. Tirando a parte da plaquinha, podemos fazer tudo que você quer se tornar realidade. - ele disse de maneira calma, me enchendo de tranquilidade.
- Sabe que não podemos. Você conhece meu pai, seu pai, nossas mães.
- E você também, mas, sinceramente, eu não me importo. Só quero estar com você sempre que eu quiser.
Eu sorri, triste. Embora o que estou começando a sentir pelo Vitor seja maior que eu mesma, meu medo é de meus pais irem contra. O que certamente vão, dentre os quatro a tia Sílvia é a mais liberal e se ela está contra nosso relacionamento imagine os outros. De certo meu pai vai me mandar morar com a minha vó lá no Sul, uma vez que nós brigamos feio ele me disse que da próxima vez que eu o decepcionasse ele me mandaria pra lá para reavaliar meus feitos. Isso até hoje me assusta, imaginar que posso ficar sem o meu Vitor me mata, essa é uma das razões que me obriga a manter-nos em segredo.
- Olha só vamos dar um jeito nisso. Não sei como, mas vamos. - ele me assegurou enquanto me abraçava forte e mais uma vez acreditei fielmente nas palavras dele.
Conversamos por pouco tempo a tia Sílvia subiu para ver onde estávamos, ele foi pro quarto dele e eu continuei assistindo televisão.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Cap XI - Chuva

O Vitor veio aqui em casa hoje, estava chovendo muito quando ele tocou a campainha. Meu pai estava no trabalho e minha mãe na casa da mãe dela que fica a umas duas horas daqui. Ele chegou do trabalho e veio pra cá direto, a tia Sílvia esta fazendo marcação cerrada pra gente não se ver, coitado estava encharcado quando o recebi em minha cozinha, servi um chocolate que tinha acabado de fazer:
- Cara essa chuva me pegou no meio do caminho. -ele comentou.
- Tô vendo. - eu respondi, com um leve sorriso esboçado nos lábios.
- Mas eu precisava vir te ver. - ele disse, enquanto desabotoava o blusão branco que estava. - Tem problema? - ele me perguntou em relação a tirar a camisa.
- Tem não. - eu disse, enquanto tentava disfarçar o modo como meus olhos involuntariamente percorriam aqueles ombros, o toráx...
- Minha mãe me disse que falou com você.
- É, falou. Ela disse que você aceitou se afastar de mim. - eu disse, querendo saber da própria boca dele se aquilo era verdade, afinal porque se fosse ele não estava cumprindo o que dissera.
- Tive que dizer isso pra ela não contar pros seus pais o que viu. Para mim não tem problema nenhum se eles soubessem, mas ficaria uma situação meia chata entre nós e nossas famílias.
- Eu sei, até porque acho que ninguém nunca imaginou isso. - eu disse, sentada em uma ponta da mesa da cozinha e ele da outra.
- É. - ele concordou enquanto dava o próximo gole no chocolate.
Ficamos em silêncio por uns vinte minutos, mas mesmo nessa condição o clima estava bom eu gosto de olhá-lo, enquanto ele faz coisas tão normais, como beber um chocolate.
- Ta muito longe de mim. - ele me disse.
Eu sorri:
- Vamos pro meu quarto então. - eu disse, juro que foi sem segundas intenções , mas era o melhor lugar da casa onde poderíamos ficar mais próximos.
- Tudo bem, mas não venha abusar de mim. - ele brincou.
Deitamos na minha cama, os dois de frente para o teto. Ele segurava minha mão e juntos escutávamos o barulho da chuva lá fora:
- E então o que minha mãe te disse?
- Umas coisas, acho que ela não mentiu. A madrinha ta meio assustada ainda com o que viu.
- Meio? Ta totalmente, aposto que falou de sexo com você.
Eu sorri meia sem graça, nunca tinha conversado com nenhum menino sobre isso antes. Mas ele agiu com tanta naturalidade que tentei fingir que isso era um assunto tão corriqueiro pra mim quanto era pra ele.
- Aham. - eu concordei apenas, tentei usar o mínimo de palavras possíveis para não denunciar o meu desconforto perante tal assunto.
-Minha mãe ta pensando que eu sou o tarado do condomínio. - ele disse, rindo do próprio comentário. - Ela me perguntou com quantas amigas da minha irmã eu já fiquei, se usei preservativo...
- E com quantas você já ficou? - eu perguntei, não consegui esconder aquela ponta de ciúmes que brotou com aquela última frase.
Ele sorriu, pôs minha mão a qual ele segurava acima de seu umbigo. Aquilo me fez arrepiar, enquanto ele continuava a acaricia-la.
- Você foi a primeira amor, as amiguinhas da Dani são muito infantis. Não me interessam.
- E a Amanda? - tive que perguntar, afinal eu não quero ser a outra. Se ele quer ter alguma coisa comigo que seja só comigo e ponto final.
Ele pigarreou, se ajeitou na cama e segurou minha mão mais forte:
- Me precipitei ao voltar com ela, mas estava com tanta raiva de você e daquele molequinho que você beijou no dia do baile que não quis pensar. Eu sei que foi meio infantil isso. - ele respondeu.
-Ainda bem que você sabe. - eu disse. Ele sorriu.
Ele virou de bruços para o meu lado eu continuei virada para o teto:
- Isso não tem como dar certo. Quero dizer, meus pais, seus pais, nunca nos aceitariam juntos.
-Eu não me importo. Sei que é arriscado, mas me sinto de uma forma indescritível quando estou contigo.
Ele me abraçou, eu fechei os olhos para aproveitar mais aquele momento. Me senti mais segura, ele me beijou devagar, mas eu não quis dar prosseguimento, estávamos deitados na minha cama era melhor não continuar com algo que provavelmente fosse ficar mais intenso:
- Me desculpa. - ele pediu, quando percebeu que o empurrei levemente.
- Tudo bem é que depois das coisas que minha madrinha me falou, sei lá, me assustei um pouco.
- Lu, eu nunca vou fazer algo que você não queira. Eu te respeito muito, não vou mentir, eu realmente sinto vontades quando te beijo e te sinto mais perto, mas minha maior necessidade é estar com você assim do jeito que estamos hoje, conversando, um perto do outro. - ele me disse.
Passamos a tarde conversando, ele teve que ir embora pois a hora do meu pai chegar do trabalho já se aproximava, mas eu não queria. Ele me deu um leve beijo para se despedir e foi embora debaixo da chuva que agora já estava mais fina.

sábado, dezembro 26, 2009

Cap X - Tia Sívia

Quando estou com o Vitor me sinto diferente, parece que estou mais viva, mais sensível, mais humana. O beijo dele, o modo como me puxa, as mãos que deslizam por minha pele de modo respeitador, mas ainda sim provocante. Nessas horas me lembro quando minha mãe diz que um homem de verdade não precisa desrespeitar da mulher para fazê-la desejar, basta ter apenas um toque distinto. Isso que difere homens e meninos. Além disso a voz dele me traz paz, serenidade, parece que tudo fica mais fácil quando converso com ele. O Vitor é tão diferente dos meninos que eu estou acostumada, até o modo como se veste, ele adora blusões, bermudas listradas ou quadriculadas, tênis, calças djans, os meninos que conheço só ligam para a marca da roupa que usam, quanto maior estiver o nome da grife melhor acham que estão. Mas explicar toda essa turbulência de sentimentos pra tia Sílvia é complicado.
Hoje de manhã, lá pelas onze horas ela veio aqui em casa conversar comigo. Estava com uma cara péssima, se trancou no meu quarto me mandou sentar na cadeira da mesa do computador e ela se sentou na beirada da cama. Fiquei frente a frente com ela:
- Bom, ontem não tive estruturas para vir falar com você depois daquela cena que presenciei no meu terraço. - ela começou, enquanto fazia um torturante barulho de "tic tac" com uma caneta, eu engoli seco e ela prosseguiu -Eu, realmente, não acreditei quando te vi beijar meu filho, sabe Luiza não que eu seja contra você ficar com garotos mais velhos, até acho que você deva sim, mas além do Vitor ser quase que cinco anos mais velho que você, ele foi criado como se fosse seu irmão, sem contar que ele tem namorada, você é minha afilhada e a maneira como estavão ontem me assustou. Eu vi tanta vontade naquele beijo, tanto desejo... Você ta vendo o que está acontecendo com a Daniele ? Imagina só se acontece com você? Imagina se se pai descobre o romancezinho de vocês dois? O Vitor é homem já, ele tem as necessidades dele ou você pensa que o que esta havendo entre vocês dois será um conto de fadas? Já pensou se invés de mim é o seu pai que sobe naquele terraço ou o Luís? Imagina o clima chato que ficaria entre nossas famílias? Entre o Vitor e seus pais?
A tia Sílvia continuou por mais algum tempo, me fazendo indagações meia absurdas e depois me disse o resultado que teve de conversar com o Vitor:
- Ele me disse que vai se afastar de você - ela percebeu meu susto, não consegui evitar meus olhos se arregalaram e a voz saiu meia trêmula.
- Ele disse isso?
- Disse, vai ser o melhor pra todos nós. Eu te amo Luiza e por isso estou fazendo isso. Quero que me prometa que não vai mais procurá-lo. Não me obrigue a falar a verdade pros seus pais. - ela me pediu, como se já estivesse me impondo. Eu fiz que sim com a cabeça e depois ela beijou minha testa em sinal de alívio e antes que me deixasse sozinha finalizou:
- É só uma apaixonite, depois vai passar e você não vai nem entender o que viu nele.
Nunca considerei o Vitor um irmão, apesar de nossas famílias serem super amigas, eu e ele nunca nos falamos direito. Sempre fomos educados um com o outro, mas nada além. Sem contar que eu sei que não é só uma apaixonite, ninguém consegue me fascinar como ele me fascina.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Cap IX - Natal

Durante a tarde do dia 24 eu fui com o Bernardo na pracinha aqui perto de casa, ele me deu um cordão de cor prata com um pingente de ursinho, muito fofinho. Eu lhe dei uma pulseira tipo corrente, cor prata, eu sabia que ele queria ganhar isso. Me disse umas 12 vezes no dia do baile que ia comprar uma pra ele.
A Amanda teve que passar o natal na casa dos pais e o Vitor aqui, pra mim foi ótimo isso acontecer. Fui para a casa da Dani lá pelas onze, minha idéia era: Esperar meia-noite, comer um pouco da ceia, dizer que estava com sono e voltar pra casa meia-noite e vinte. Não queria ter que olhar para o Vitor, quanto mais eu pudesse evitar eu evitaria e assim ia ser até eu me casar, ter filhos e me mudar do bairro, mas nem tudo sai como esperamos. Ainda bem.
Às onze estava lá, fui a última a chegar, meus pais, uns vizinhos mais chegados, uns poucos amigos da rua, já estavam todos lá.
O Vitor conversava com o seu Jorge, um velhinho de 70 anos que mora numa casinha pequena perto da praça, a gente sempre convida ele no Natal, ele não tem nínguem, a mulher morreu a uns sete anos e os filhos não querem saber dele. Um é político e mora em Brasília o outro é juíz federal. Nem preciso dizer que os dois nadam na grana, mas o dinheiro os envenenou - é isso que diz o seu Jorge.
Meus Deus como o Vitor estava lindo, com uma camiseta branca que deixava os braços de fora, uma bermuda listrada.
Entrei e cumprimentei todos, exceto o Vitor, sei que é falta de educação, mas não consegui falar com ele, algo me travou.
- Cara, como você demorou! - a Dani me disse, me abraçando - Não aguento mais essa roupa, ta muito apertada, assim que der meia noite vou por um vestido. -ela me disse, se certificando que nínguem além de mim fosse escutar.
Eu respondi com um sorriso.
Tiramos milhares de fotos, foi até engraçado. Minha mãe de dez em dez minutos chamava meu pai pra uma pose nova:
- Aí meu Deus Andréia! Não existem mais poses possíveis para fazermos. - meu pai reclamou pela milésima vez, mas minha mãe continuou ignorando.
- Aí Carlos, deixa de ser chato. Filha depois passa photoshop em tudo!
Quando deu meia noite todos se abraçaram, seu Jorge me deu um porta-jóia em forma de bailarina, muito bonito.
Eu agradeci com um abraço.
Relutei em abraçar o Vitor e lhe desejar feliz natal, não que eu não quisesse. De coração era o que eu mais queria, mas não conseguia transparecer. Fui para o terraço observar os fogos e ficar um pouco sozinha, precisava daquilo.
- Faltou o meu feliz natal. - uma voz me disse pouco depois de eu subir para o terraço.
- Me desculpa, não consigo. - eu respondi, enquanto mantinha meus olhos fixos no céu cheio de cores, encará-lo só iria piorar tudo.
- Tenho uma coisa pra você. - ele me disse me entregando um papel com um número e um tema para redação.
- O que é isso? - eu perguntei.
-É sua inscrição num concurso para jovens jornalistas do jornal da cidade, você tem que fazer uma redação de 20 linhas com esse tema e enviar para o e-mail que esta embaixo do seu número de inscrição.
Eu sorri, mesmo com tudo o que aconteceu ele ainda pensava em nossas conversas, em meus sonhos.
- Pensei que não se importasse mais. - eu disse, não para ser fria, mas para ser verdadeira.
- Tentei não me importar, mas não consegui.
- Obrigado.
- Não agradeça, faço isso porque é mais forte que eu mesmo.
Eu baixei a cabeça, se voltasse a olhar nos olhos dele mais uma vez estaria perdida.
Eu e ele estávamos frente à frente, o cheiro dele já me invadia e a voz penetrava por meus ouvidos eu fechei meus olhos e tentei voltar ao mundo real, mas só a presença dele me tira o chão.
- Sabe te conheço a dezessete anos. Eu te juro nunca te olhei com maus olhos, nunca te desejei, mas de alguma forma você se tornou minha necessidade. O seu sorriso me embriaga de vontades. As outras garotas me parecem tão vazias perto de você.
Uma lágrima desceu de meus olhos, eu não consegui dizer nada, queria continuar escutando tudo o que ele tinha para me dizer, meu coração só faltava pular pra fora a cada palavra que ele dizia, tentei lembrar da aula de biologia que dizia que tudo isso era culpa da ocitocina.
- Era verdade? - ele me perguntou.
- O que? - pronto, eu tinha acabado de olhá-lo nos olhos mais uma vez. Não seria capaz de mentir ou esconder o que quer que fosse.
- O que você me disse naquele dia? Que pensa em mim, que te fascino... É verdade Luiza?
Eu sorri meia sem graça, não acredito que disse tudo aquilo, mas ele me deixa tão exposta:
- É. - maldita seja a ocitocina.
- Me desculpa, por tudo. Eu estava errado.
A mão direita dele desceu levemente por meus braços, segurou minha mão. A outra percorria meu rosto e devagar os lábios dele se aproximaram dos meus, ele me puxou para mais perto dele, dava para sentir o corpo dele contra o meu. Minha mão pousou no ombro dele, enquanto a outra mexia em seus cabelos lisos e arrumados.
A testa dele encostou na minha e ele me sorriu:
- Uau! Você tira meu fôlego menina.
Eu sorri.
- Vitor! - era a voz da tia Sílvia, ela estava parada olhando para a gente com os olhos arregalados iguais quando vemos algo fora da realidade, como um ET, por exemplo.
Eu e ele ficamos quietos, calados, assustados.
- Maria Luiza, desça por favor. -ela pediu, eu acatei. Vim para casa. Inventei uma desculpa qualquer e estou aqui agora sem fazer a mínima idéia do que está acontecendo, do que ela esta falando pro Vitor. Não me arrependo, mas me sinto mal.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Cap VIII - Acontecimentos

Nossa! Hoje já é dia 22, faz tempo que não posto nada! Mal tive tempo, dezenas de coisas me aconteceram nesses dias, o mais importante é que a Dani já está em casa, está bem melhor. O Fabinho continua fingindo que está tudo bem, que ele não tem nada haver com isso, às vezes tenho vontade de ir no portão dele gritar para todo o condomínio o que ele fez, mas eu sei que se fizesse isso a Dani me mataria, ela não quer que ninguém saiba que ele é o pai.
Ontem o Vitor veio falar comigo pela primeira vez depois de tudo que aconteceu. Não sei porque ele está se importando agora, ele devia é cuidar da vida dele, já que ele voltou com a ex, não queria entrar nesse assunto, mas foi um dos principais fatos que aconteceu nesses dias.
A Dani conseguiu ir na formatura, ela não pode dançar, mas ficou a noite toda curtindo. Todo mundo queria tirar foto com ela, a turma toda ficou sentada com ela conversando e lembrando o tempo de colégio, é muito legal como o pessoal se importa com ela, aliás com todos. Na hora do baile é que o pessoal foi dançar, ela ficou sentada, mas nem se importou. A Juliana, uma menina de nossa sala, e eu ficamos sentadas do lado dela conversando, e também toda hora chegava alguém para tirar foto, conversar, contar piada... Foi muito bom! - Por um lado *.
Ia ser perfeito se o Vitor não tivesse ido também, pois é... Ao invés dele ter ido embora com nossos pais assim que acabou a cerimônia, não. Ele resolveu ficar para tomar conta da Dani.
As meninas todas amigas da Dani chamavam ele para dançar, teve umas duas lá que só faltaram se jogar em cima dele e ele nem aí. Não tirava os olhos da ex dele. Isso mesmo, ela foi. Eu já imaginava, porque ela é irmã de uma menina da outra turma de 3° ano. Eu fiquei para morrer, toda hora olhava pra ele, a Amanda também não tirava os olhos dele. Era mais que óbvio que os dois iam ficar naquela noite. Nunca me importei com o Vitor, para mim ele podia ficar com quem quisesse, mas depois daquele beijo... As coisas mudaram. Bom, voltando ao assunto da formatura, eu resolvi fingir que estava tudo bem, acho que a única que percebeu que tinha alguma coisa errada foi a Dani, isso não me surpreende, ela sempre pega as coisas no ar.
- Ta tudo bem com você? - ela me perguntou.
- Ta.
- Eu sei que não ta Lu, o Bernardo ta à meia hora olhando para você e até agora você não percebeu nada. Sem dúvidas você ta com algum problema. - ela deduziu.
Eu ri pra disfarçar e olhei para ele, a Dani estava falando sério quando disse que ele olhava pra mim.
Com isso consegui esquecer um pouco do Vitor, sei que ele não estava fazendo por mal mas o que ele sentia pela ex ainda era bem intenso.
Depois de um tempinho o Bernardo veio até a mim, me tirou pra dançar a Dani quase me jogou em cima dele, tava mais feliz que eu. Depois fiquei sabendo que o Vitor fez dezenas de perguntas sobre o Bernardo, bom pelo menos foi o que a Dani disse.
Eu vi quando a Amanda chamou o Vitor pra dançar, a Dani ficou lá sozinha, por um tempo depois um zilhão de meninos aproveitou a solidão dela para fazer companhia.
- Hoje você ta linda Luiza. - o Bernardo começou, mas eu só agradecia, sorria um pouco e mais nada. Não tirava os olhos do Vitor e da Amanda, aquela era para ser a minha noite e não estava sendo por causa dele.
Às vezes me dá raiva do Vitor, outras de mim mesma. eu estava lá com o menino a quem fui apaixonada por três anos e só pensava, lembrava, olhava o Vitor. Ele também estava olhando pra mim porque eu vi! Eu juro!
Não me lembro bem o motivo, mas o Bernardo me beijou. Eu sei que para beijar não precisa de motivo, mas eu nem senti, correspondi ,claro, mas foi diferente do que eu imaginava que fosse. Aliás acho que o beijo do Vitor é que foi diferente, foi rápido, mas naquele pequeno instante senti uma avalanche de sentimentos.
O Bernardo é um cara legal, mas sei lá é tão diferente conversar com ele e conversar com o Vitor, parecem dois opostos. O Bernardo é legal sim, interessante, mas não tem aquela magia que o Vitor tem, não sei explicar mas quando estou com ele mesmo sem dizer nada quero ficar com ele, já o Bernardo não, às vezes até o acho meio chato, não é culpa dele é minha mesmo, sem querer acabo sempre comparando os dois, principalmente quando conversamos sobre o futuro. Eu disse pra ele que estou pensando em seguir o ramo de jornalista, ele me disse para parar de viajar, estudar e passar pra medicina que é o melhor a fazer. O Vitor me apoiaria.
Mas voltando ao assunto da formatura, bom depois que beijei o Bernardo voltei meus olhos ao Vitor, ele dizia alguma coisa para a Amanda porque ela sorria e fazia aquela cara de idiota que as garotas fazem quando estão gostando do que o garoto diz. Aí que raiva, minha vontade era falar pro Vitor ir tomar conta da irmã, ou pelo menos ir lá escutar o que de tão bonito ele estava falando. Não fiquei surpresa quando os dois se beijaram, mas aquilo me machucou, desviei o olhar para a Dani, mas mesmo assim aquela imagem já tinha cravado na minha mente e foi se repetindo até o fim da festa.
Depois eu e o Bernardo continuamos ficando e ontem o Vitor veio conversar comigo, depois do futebol. Era ainda de manhã eu estava de camisola, tomando café da manhã na cozinha, minha mãe tinha ido no mercado e meu pai foi tomar banho, o Vitor veio junto com ele pra pegar o carro pra levar pro mecânico amigo dele. É que o nosso carro ta fazendo uns barulhos estranhos, mas isso não vem ao caso.
Estava eu lá comendo meu delicioso pão dormido com café gelado e lendo o jornal quando o Vitor aparaceu na cozinha, estava sem camisa, o corpo suado, eu nunca fui muito de reparar em rapazes suados, mas ele estava irresistível daquela maneira. Os ombros largos, o toráx bem definido, tudo nele parecia mais atraente. Ele me sorriu sem graça, não costumava ficar sem camisa na minha frente, bom e eu não costumo ficar de camisola na frente dele.
- Desculpa, pensei que tava dormindo. - ele me disse.
- Acordo cedo. - eu respondi.
- Tem problema? É que minha camisa ta muito molhada e seu pai nem me deixou ir em casa.
- Tem não. - é óbvio que não tem problema nenhum.
Ficamos em silêncio, de uma forma torturante e incômoda.
- E aquele cara que você ficou na formatura? Qual é a dele? Seus pais já sabem?
- Não é nada de importante, meus pais não precisam saber.
- Cuidado, moleques novos assim só pensam besteira.
- Sei me cuidar. - eu respondi, mas ele não estava prestando a mínima atenção em mim, sei disso porque ele estava fazendo a mesma cara de bunda que eu fiz quando me deparei com aquele físico bem desenvolvido, acho que só naquele momento ele percebeu que eu estava de camisola. Eu fiquei meia sem graça, pus o jornal no meu colo para minhas coxas ficarem mais tampadas. Ele percebeu:
- Desculpa, não foi minha intenção. - ele disse, muito sem graça.
- Ta. - eu disse, nossa comunicação estava um pouco difícil. Não conseguia olhar pra ele sem lembrar das ofensas e do beijo na ex.
Nossa conversa não evolui mais meu pai chegou na cozinha, e puxou ele para a garagem. Pronto eu estava salva.
A Dani me disse que ele voltou com a Amanda, a tia Sílvia confirmou mais tarde.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Cap VII - Dani

Conversei com o Fábio domingo, ele me surpreendeu, foi gentil e atencioso. Me perguntou mil coisas sobre a Dani, quis saber como ela estava, disse que já imaginava que eu sabia da história deles, foi bem legal falar com ele. Parte da minha repulsa pelo Fábio sumiu, a outra parte só vai sumir se ele resolver assumir a criança.
O pai da Dani, o tio Luís, disse que vai matar o moleque que engravidou a filha dele, mas mal sabe ele que não é moleque, na verdade um homem com mais de 10 anos de diferença da idade da Dani.
Fico imaginando quando descobrirem que o Fabinho é o pai, as meninas da rua vão morrer de inveja da Dani porque ela ficou com um dos homens mais bonitos daqui, os meninos vão falar mal dela, vão dizer que ela deu o golpe e talz... E os adultos vão dizer que a culpa é dos pais que sempre a deixaram fazer o que quer. Na verdade nada disso importa no momento. Apesar do Fábio ter sido super legal, ele deixou bem claro que não vai querer saber dessa criança, mas ele me disse que vai visitá-la no hospital hoje, imagino a surpresa dela quando o vir. Ela me perguntou umas mil vezes se ele a viu sair carregada pela ambulância, eu disse que sim todas as vezes e todas as vezes ela me perguntou se eu tinha certeza.
Embora ela fique fazendo um monte de bobeira, dizendo que os médicos são bonitos, querendo me apresentar pra eles e falando que eu vou fazer medicina, dá pra ver nos olhos dela que ela ta muito triste, não vai poder ir pra formatura que é sexta agora, vai ficar um tempão sem poder jogar handebol - as meninas do condomínio tem um time e ela é a goleira - e sem contar que vai ter que deixar de ir pras baladas que ela ama - ela diz que quando dança nesses lugares expõe a alma...
Ontem passei o dia todo no hospital, o Vitor tava lá. Ele foi indiferente comigo, para mim é pior do que ser ignorada, ele me cumprimentou bem formalmente, quando foi pegar água perguntou se eu queria e só. Como sempre fez.
Quando ele me deixou a sós com a Dani ela me perguntou logo de cara:
- O que aconteceu entre você e o Vitor? - a Dani pega tudo no ar, sabe quando as pessoas estão bem ou não, desde pequena ela é assim, costumo pensar que isso é um Dom.
- Nada.
- Nada? Dúvido Maria Luiza! O Vitor ta com essa cara de bunda desde que eu abri os olhos, a Amanda ligou umas 15 vezes e ele não atendeu nenhuma! Sabe quando ele faz isso? Nunca! Ele é apaixonado por ela, ou pelos menos era até antes de eu quase morrer. Dos dois uma: Ou ele descobriu que ela é homem ou ele ta com outra garota na cabeça.
Eu fiquei quieta e deixei ela falar, não quero ficar criando falsas esperanças, ainda mais agora que o Vitor ta com mais raiva de mim do que qualquer outra coisa. Às vezes acho que ele esta sendo meio egoísta, como se a culpa de tudo fosse minha, ta certo eu agi errado sim, devia ter dito a verdade, mas ele devia se por no meu lugar.
Vou terminar de fazer o almoço, meus pais vão ficar no hospital hoje e só voltam amanhã. Eles estão revesando com os pais da Dani.

domingo, dezembro 13, 2009

Cap VI - A verdade

Estou trancada no quarto desde às cinco pensando no dia de ontem, foi horrível. O pior dia da minha vida, não sei por onde começar. Presenciei uma das piores cenas, me sinto culpada, uma mentirosa, não aguento me olhar no espelho, queria ser qualquer outra pessoa. Pela primeira vez desejo nunca ter conhecido a Daniele, aquela vontade de fugir esta se tornando cada vez mais forte. Queria poder voar para muito longe agora, nada que penso me anima, com medo de sair do quarto e ter que enfrentar o Vitor. Nunca pensei que fosse escutar tantas coisas ruins dele como as que ouvi ontem.
Tudo começou logo de manhã, a Dani me ligou lá pelas nove eu ainda dormia quando ela me pediu para tirar o Vitor de casa, meus pais não estavam aqui tinham saído com os dela. Eu disse que não, mas ela entrou em desespero, não consegui continuar negando de ajudar minha melhor amiga logo na hora que ela mais precisava.
Meia hora depois o Vitor estava aqui em casa, a Dani tinha dito que eu queria falar com ele. Ficamos sentados na sala, eu de uma ponta do sofá e ele de outra.
- O que foi Luiza? - ele me perguntou, depois de vinte minutos de silêncio.
- Nada. - eu respondi, só pensava na Dani tomando o tal chá. Provavelmente ela não sofreria nenhum dano, mas o feto iria desaparecer, tudo que a Dani mais queria e tudo que eu mais era contra.
- Nada? - o Vitor estranhou, pela quarta vez ele me fazia essa pergunta. - Ta tremendo porque? - ele me perguntou, enquanto segurava nas minhas mãos.
- Nada. - eu respondi, levantando.
- O que foi? Foram seus pais? - ele insistia e a cada palavra atenciosa e preocupada dele eu me afundava mais em culpa.
Ele me abraçou. meu Deus ele não devia ter feito isso, eu esqueci de tudo na hora, o cheiro dele, a voz tão perto de mim, eu senti a batidas do coração dele.
- Olha só, não precisa me dizer se você não se sentir a vontade, mas eu vou ficar aqui até você melhorar. - ele me disse.
- Penso em você todos os dias, acho que estou ficando louca. Sua voz, seu sorriso, seus olhos... Me fascinam. - eu disse, meu Deus não consegui segurar, pensei que ele fosse me soltar, dizer que eu estava confundindo as coisas.
A mão direita dele desceu pelas minhas costas e pausou acima do meu cóccix, ele me beijou devagar até meu lábios e eu me deixei levar por poucos instantes até me vir à cabeça a imagem da Dani, eu o empurrei e falei a verdade:
- A Dani me pediu para te tirar de casa para ela poder tomar um chá para abortar.
Ele primeiro me olhou com repulsa, depois correu para a casa tentar impedir a irmã de tomar o chá, mas já era tarde, quando chegamos lá a Dani estava desmaiada no chão do banheiro, tinha sangue em volta. Ela havia mentido para mim, na verdade não era chá que ela comprou era um remédio, ele estava em cima da pia do banheiro. O Vitor tentou reanimá-la enquanto eu liguei para a ambulância.
O condomínio todo saiu para ver o que havia acontecido, meus amigos me perguntavam o que tinha acontecido com a Dani, o Fabinho viu tudo da casa dele.
Eu e o Vitor ficamos mais de uma hora calados na sala de espera do hospital, ele olhando a hora e eu para o chão, não tive coragem de olhar para ele. A tia Sílvia e o tio Luís chegaram desesperados, meus pais estavam com eles, dava para ver pelos olhos da minha mãe que também estavam assustados, mas queriam permanecer calmos para transmitir segurança. O Vitor explicou tudo, em nenhum momento disse que eu sabia da história, mas teve que contar que a Dani estava grávida e tentou abortar, os pais dela ficaram arrasados.
Mais tarde quando o Vitor foi pegar um café para a minha mãe eu fui atrás dele para tentar explicar:
- Vitor pera aí! Preciso falar com você!
- Por favor Luiza, eu não quero falar com você.
- Preciso explicar. - foi aí que ele disparou:
- Explicar o que Luiza? Que você é uma mentirosa?Falsa. Que ajudou a minha irmã a tentar se matar e matar uma criança? Quer saber, você é pior que ela. Devia ter pensado, que tipo de amiga você é? Foi tudo combinado ? O beijo também fazia parte do planinho de vocês duas? E se mesmo assim eu quisesse ir embora? Agiria como uma prostituta?
Fiquei quieta escutando ele, fui embora logo depois, meu pai me trouxe em casa e voltou para o hospital, não dormi direito, na verdade eu não dormi. Fiz prova hoje, mas devo ter zerado tudo.
A Dani esta melhor, esta em observação, agora. O médico disse que aquilo foi um efeito colateral que ela teve, disse que o bebê esta bem, ela esta de um mês e meio, aposto que nem ela mesmo sabia.
Vou hoje na casa do Fabinho falar com ele, o pai da Dani me perguntou se eu sei quem é o pai eu desconversei, mas não menti. Chega de mentiras.

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