- Luiza, o que você esta fazendo aqui? - sua voz saiu com certa dificuldade enquanto ele caminhava na direção do portão.
Ele me encarou nos olhos e eu não ousei desviar por um minuto se quer, permaneci com a cabeça ereta e os olhos certos e adentrei a minha casa sem gesticular um abraço de saudade, nem eu e nem meu pai estavámos preparados para isso, ainda não era hora.
Subindo as escadas e o cheiro de café parecia penetrar as paredes daquela casa era sinal de que minha mãe estava em casa, ela lia o jornal sentada na bancada da cozinha quando entrei naquele cômodo que eu tanto sentia falta.
Vi seus olhos encherem-se d'água quando se deparou com a minha imagem diante dela:
- Meu Deus... Você esta aqui! - ela sussurrou no meu ouvido apertando seu corpo contra o meu como se quisesse ter a certeza de que aquele momento era real:
- Oi mãe! Saudades de você! - cochichei quando ela me beijou o rosto.
- Te amo, te amo, te amo! Como senti sua falta Luiza! Mas como? Quer dizer como veio para cá sem dinheiro? - ela me disparou perguntas.
- Calma mãe vou lhe contar tudo, mas antes preciso conversar com o meu pai. - respondi.
Os dois entreolharam-se como quem se comunica por pensamento e eu puxei uma cadeira para perto da bancada.
- Comece. - ele disse, mantendo seu porte inabalável.
Respirei fundo e engoli seco antes de iniciar e tomei um gole do café servido deixando todo aquele liquido quente percorrer minha garganta:
- Pai vim aqui na intenção de conversar para ver se chegamos a um denominador comum.
Ele suspendeu a sombracelha pretensioso, mas não me intimidou aliás devo admitir que me senti desafiada e afiei minhas palavras:
- Da última vez não conversamos, na verdade acho que o senhor nem me deixou expor meu lado. Acho que já esta na hora de enxergar que eu cresci e tenho minhas vontades, não quero desafiar o senhor, mas preciso que me aceite.
- Quando você diz aceitar inclui o seu relacionamento com o Vitor? - ele perguntou, fazendo uma pausa ante de continuar.- Inclui suas mentiras também?
Baixei meus olhos como quem esta prestes a desistir de algo aparentemente sem esperanças, mas eu já tinha ido longe de mais para lhe dar as costas:
- Por favor pai não dificulte as coisas entre nós e não faça nosso relacionamento se equiparar ao seu e da minha avó. - pedi e ele pareceu desestruturar suas ofensas. - Eu amo o Vitor... - iniciei, mas ele explodiu e me interrompeu.
- Por Deus, Luiza você só tem dezesete anos o que entende de amor? É muito nova, uma garota inexperiente que acabou caindo na lábia do primeiro homem mais velho que apareceu!
- O senhor acha que se eu não o amasse estaria aqui? Não sei se o senhor sabe, mas minha avó é rica, ela é dona do jornal mais lido da cidade, eu poderia estar lá, fazer uma faculdade e trabalhar ao lado dela, mas estou aqui por amar o senhor, a minha mãe e o Vitor. Larguei tudo para recomeçar da melhor maneira possível.
Minha mãe me sorriu sem ousar dizer uma palavra, ela sabia que aquele momento cabia a mim e a meu pai e ela apenas assistia a tudo parecendo sentir orgulho de algo que eu não fazia ideia:
- E a faculdade de medicina? - ele perguntou de volta ao tom moderado e calmo.
- Nunca foi meu sonho, quero fazer jornalismo e gostaria muito do seu apoio. Minhas notas em matérias de saúde eram péssimas. - balancei a cabeça e levantei da cadeira.
Ele fez uma pausa enquanto navegava em pensamentos:
- Onde você esta hospedada?
- Na casa do Fábio. - respondi e os olhares espantados de ambos me metralharam.
- Fábio? - os dois perguntaram em uníssono.
Pausei por um instante, explicar a história do Fábio desviaria por completo o rumo ao qual eu realmente queria dar aquele momento:
- Isso eu explico depois. - tentei encurtar a conversa para que não fugisse do foco.
Minha mãe franziu os lábios e meu pai pareceu mais atento a mim o que me assustou, devo admitir, os dois pareciam não mais me enxergar como uma menininha e sim como alguém maduro o bastante para ser ouvido e levado a sério:
- Então você veio aqui para pedir para voltar, para namorar o Vitor e para virar amiguinha do Fábio? - ele ironizou, por mais que seus olhos demonstrassem que meu pai estava quase cedendo ele ainda fazia questão de fingir ser a pessoa mais indiferente do mundo.
-Não senhor, vim aqui para fazer minha faculdade, namorar o Vitor e sim, já virei amiguinha do Fábio. - respondi devolvendo a ironia, mas dessa vez ele não se irritou até esboçou um sorriso.
- Você sabe que o Fábio engravidou a sua melhor amiga né?
Balancei a cabeça afirmando e devolvi:
- O senhor só sabe uma parte da história.
Ele revirou seus olhos para cima e em seguida encarou minha mãe e mais uma vez os dois pareceram se comunicar mentalmente e depois de alguns segundos de total silêncio, sua voz saiu mais leve e branda:
- Senti saudades de você. - ele admitiu escondendo algumas lágrimas que escorreram de seus olhos.
- Te amo pai. - eu o abracei como nunca havia feito antes, eu sei que nossas diferenças continuariam, mas naquele momento, naquele exato momento ele abriu um precedente para que pudéssemos resgatar o tempo perdido.
- Me desculpa querida, me desculpa...-ele repetiu algumas vezes no meu ouvido enquanto eu o abraçava.
- Tenho que procurar o Vitor! - disse, depois daquele momento, mas a face de ambos mostrou saber de algo que ainda não fazia parte de meu conhecimento:
- O que aconteceu? Porque vocês estão com essas caras? - perguntei assustada.
- Filha... o Vitor, ele, bom... vai se mudar do bairro. - minha mãe iniciou.
- E vai pra onde? - perguntei sem muito me preocupar.
- Pra Nova Iorque.
Arregalei meus olhos e corri em direção à casa da minha madrinha, mas flagrei uma imagem que me fez parar: reconheci com precisão o meu Vitor sair de dentro de seu carro acompanhado de uma loira desconhecida, ele a beijou de forma ousada sem importa-se com os olhares acusadores de pessoas que cruzavam seu caminho e muito além disso aquela mulher correspondeu na mesma intensidade, ele estava bem vestido e parecia ainda não ter dormido. Fiquei encarando-os ao longe e me obriguei a assistir como a mão dele descia pelo traseiro dela e um sorriso charmoso enfeitava o belo rosto do meu Vitor, os dois entraram numa casa do condomínio que antes da minha mudança ostentava uma placa de aluga-se e agora não mais havia. Fiquei no mesmo lugar estática me segurando para não correr até aquele portão em que ele entrou e dizer: - Vitor não faça isso, estou aqui! - mas freei minhas vontades e desviei meu caminho para a casa do Fábio.
- Ele não te viu Lu! - a Nanda insistiu pela quinta vez enquanto eu mergulhava naquele pote de sorvete de chocolate que tinha na geladeira do Fábio.
- Foi horrível vê-lo com outra pessoa, da forma como eu vi... Não o reconheci, na verdade nem imaginava que ele poderia ser daquela forma...
- O Vitor nunca foi nenhum príncipe encantado Luiza, já sai para alguns lugares e pude ver. Ele só mudou porque te ama o o que não deve ser o caso dessa loira que você disse. Até porque se ele se importasse com ela não agiria da forma como agiu na frente de todos. - o Fábio, quem diria, explicou.
- E essa historia dele se mudar para Nova Iorque? É verdade mesmo?- o Gabriel continuou, nós quatro estavamos na sala sentados envolta da mesinha de centro.
- É, meus pais não mentiriam pra mim. - respondi. - e agora o que eu faço? -perguntei.
- Continua a fazer o que você iria fazer, vai conversar com os seus padrinhos, a Dani e ele. O que tiver que ser, será. - o Fábio aconselhou.
- É você fala isso, mas e a Dani? Conversou com ela?
- Ela nem quis olhar na minha cara, porque você não conversa com ela e aproveita para falar bem de mim? - ele disse e todos sorrimos com a simplicidade dele.
- Ta bom Fábio, deixa comigo. - finalizei antes de levar à boca aquela colher de sorvete.
No final da tarde quando o céu avermelhado fazia os moradores do condomínio saírem para suas caminhadas eu voltei para a casa de meus pais, meu quarto estava como eu havia deixado e quando me joguei na cama pude sentir todas os momentos que ali tive com meu Vitor encherem-me de paz, não fiquei ali por muito tempo, depois do banho fui para a casa da minha madrinha, já era noite e eu me sentia renovada e encorajada caminhando pelas ruas do condomínio pude ver ao longe seu Jorge, mas ele não meu viu.
Fiquei na dúvida entre tocar a campainha e entrar usando a chave que os pais da minha amiga deixavam com os meus, preferi a segunda opção e abri o portão:
- Já estou cansada dessa situação, quase não reconheço mais o Vitor! - escutei minha madrinha desabafar para o meu padrinho, os dois conversavam na sala quando eu entrei.
- Boa noite. - eu disse, foram as únicas palavras que consegui reproduzir quando os encarei.
- Luiza? - tia Sílvia estranhou minha aparição naquele cômodo.
Esbocei um sorriso sem jeito e antes de qualquer retaliação disparei:
- Olha eu vim aqui para pedir desculpas, quero muito que tudo volte a ser como antes, mas também preciso que aceitem meu relacionamento com o Vitor porque eu o amo demais... - acho que fiquei quase duas horas conversando com os meus padrinhos, eles me contaram sobre as recentes atitudes do Vitor e que ele não mais dormia em casa e aparecia com uma mulher diferente por dia, percebi o quanto estavam preocupados e minha tia Sílvia me confessou que arrependeu-se por não ter me apoiado na época em que descobriu que eu e o filho dela estávamos nos relacionando, por fim fiz as pazes com os dois e fiquei até tarde esperando a Dani voltar da rua, ela tinha saído com uma amiga de escola e ainda não tinha voltado.
Entrei no quarto da Dani para esperá-la, sentei no seu computador e num canto vi um amontoado de papéis cor de rosa eram todos os e-mails que eu havia mandado para ela e no verso a sua resposta. Sorri quando li ela dizendo que eu seria a madrinha do bebê que estava esperando e algumas lágrimas desceram de meus olhos quando li um outro e-mail e ela dizia que sentia muito a minha falta:
- Luiza? - a voz da minha amiga interrompeu minha leitura e eu voltei meus olhos aquela loira linda e grávida parada na minha frente:
- Dani! - eu a abracei expressando a saudade imensa que eu sentia:
- Lu! Como você fez falta! - ela correspondeu e naquele momento percebi que tinhámos feito as pazes:
- Nossa amiga! Te amo, te amo muito!
- Lu você não imagina como foi difícil ficar sem você aqui. Me desculpa amiga, prometo nunca mais te abandonar. - ela sussurrou enquanto eu tentava secar as lágrimas que insistiam em correr de meus olhos.
Dormi na casa dela como fazíamos quando criança, tínhamos tanta coisa para contar que foi impossível dormir, de fato, relembramos o tempo de colégio, falamos do Fábio e do Vitor tudo de uma forma bem mais leve, como se aqueles dois rapazes não nos preocupassem:
- Eu o vi hoje com uma loira linda, amiga você não sabe como aquilo me magoou. - eu confessei logo após contar do motivo que fizera o irmão dela voltar tão rápido de Vale das Laranjeiras.
- Relaxa Lu, aquela era a de finais de semana. Meu irmão voltou a ser aquele galinha ordinário, só que agora bem pior. Mas ele só ta fazendo isso pra te esquecer... Bom, pelo menos é o que eu acho. Ele te ama amiga, te ama mesmo e toda a vez que eu falo no seu nome o Vitor fica desnorteado, liga pra primeira na lista do celular e sai, sem que ninguém aqui de casa saiba pra onde ele vai. Para te dizer a verdade, essa semana só o vi uma vez dentro de casa e ele estava de ressaca e para piorar ainda tem essa mudança dele pra Nova Iorque... - ela explicou enquanto eu pensava numa forma de conversar com ele:
- Tô com medo dele não olhar mais na minha cara...
- Olha amiga se você errou em beijar o irmão do Fábio o Vitor errou muito mais em dormir com a Aline... - mordi meu lábio inferior em sinal de dúvida e antes de dizer qualquer coisa ouvi a porta da sala bater e a voz do meu Vitor interromper o silêncio da madrugada.
- Vai lá falar com ele. - a Dani me disse e eu levantei da cama determinada a conversar com o meu Vitor.
Caminhei em passos silenciosos até a sala tomando cuidado para não acordar meus padrinhos, o Vitor conversava no celular com alguém indeterminado, sua voz penetrou meus tímpanos e fez meu coração disparar gelei ao vê-lo com o blusão social aberto mostrando seu belo porte masculino:
- Poxa Lê, não posso ir na sua casa não amanhã tenho que viajar... - ouvi perfeitamente enquanto ele fechava a porta:
Dei um passo para a frente, antes de ele se virar e me flagrar espionando-o:
- Luiza? - ele pareceu não acreditar no que via e eu não consegui dizer nada.
O Vitor balançou a cabeça negativamente como se quisesse espantar um pensamento ruim e cruzou meu caminho em direção ao seu quarto como se eu não significasse nada, fui atrás dele irritada com aquela atitude:
- Acho que precisamos conversar. - eu insisti, quando entrei no seu quarto e fechei a porta.
- Sai daqui Luiza, não precisamos conversar nada. Segue teu caminho que eu sigo o meu e ponto final, nossa historia acabou em Vale das Laranjeiras. - ele disse, enquanto tirava sua camisa.
-Vitor você sabe que não, você sabe que tudo que aconteceu foi um mal entendido... - tentei explicar, mas me perdi nas palavras quando percebi que seus olhos percorriam meu ser como se fosse um ímã me atraindo para perto dele.
- Olha Luiza eu quero tirar minha roupa, será que você pode sair? - ele pediu e eu respondi:
- Ué, esqueceu que eu já te vi com bem menos roupas? - esbocei um sorriso travesso e ele riu-se sem graça.
- Não me provoque menina, não estamos mais juntos. - ele avisou, mas meu corpo encarou como um desafio e devo admitir que gostei da reação dele.
- O que foi? Esta com medo de mim? Eu não mordo. - instiguei seus instintos e ele mais uma vez sorriu.
-Mas eu sim. - ele respondeu me puxando pelo braço antes de me beijar e morder levemnte meu pescoço como sempre fazia quando queria me atiçar, mas após uma pausa sua voz doce sussurrou no meu ouvido:
- Vá para o quarto da Dani, não quero fazer algo para nos arrependermos depois. - ele disse, sorrindo aquele sorriso singelo que usava apenas para mim.
Balancei a cabeça aceitando o que ele me pedira, mas antes de sair de seu quarto:
- Posso te pedir um favor?
- Claro Lu, peça.
- Só não use esse sorriso para mais nínguem. - não fiquei para ouvir sua resposta, voltei para o quarto da minha amiga que já dormia e deitei ao seu lado desejando esquecer aquela noite e imaginando como seria minha vida sem o meu Vitor.

