terça-feira, março 09, 2010

Cap XXXII - Enfrentando leões (Parte I)

- Bom dia. - sussurrei minimamente na tentativa de quebrar o silêncio assustador da surpresa.
O meu pai me encarou sem movimentar um músculo, permaneceu imóvel por alguns segundos.
- Luiza, o que você esta fazendo aqui? - sua voz saiu com certa dificuldade enquanto ele caminhava na direção do portão.
- Vim conversar com o senhor. - respondi, assustando-me com o meu tom mais firme que o imaginado.
Ele me encarou nos olhos e eu não ousei desviar por um minuto se quer, permaneci com a cabeça ereta e os olhos certos e adentrei a minha casa sem gesticular um abraço de saudade, nem eu e nem meu pai estavámos preparados para isso, ainda não era hora.
Subindo as escadas e o cheiro de café parecia penetrar as paredes daquela casa era sinal de que minha mãe estava em casa, ela lia o jornal sentada na bancada da cozinha quando entrei naquele cômodo que eu tanto sentia falta.
Vi seus olhos encherem-se d'água quando se deparou com a minha imagem diante dela:
- Meu Deus... Você esta aqui! - ela sussurrou no meu ouvido apertando seu corpo contra o meu como se quisesse ter a certeza de que aquele momento era real:
- Oi mãe! Saudades de você! - cochichei quando ela me beijou o rosto.
- Te amo, te amo, te amo! Como senti sua falta Luiza! Mas como? Quer dizer como veio para cá sem dinheiro? - ela me disparou perguntas.
- Calma mãe vou lhe contar tudo, mas antes preciso conversar com o meu pai. - respondi.
Os dois entreolharam-se como quem se comunica por pensamento e eu puxei uma cadeira para perto da bancada.
- Comece. - ele disse, mantendo seu porte inabalável.
Respirei fundo e engoli seco antes de iniciar e tomei um gole do café servido deixando todo aquele liquido quente percorrer minha garganta:
- Pai vim aqui na intenção de conversar para ver se chegamos a um denominador comum.
Ele suspendeu a sombracelha pretensioso, mas não me intimidou aliás devo admitir que me senti desafiada e afiei minhas palavras:
- Da última vez não conversamos, na verdade acho que o senhor nem me deixou expor meu lado. Acho que já esta na hora de enxergar que eu cresci e tenho minhas vontades, não quero desafiar o senhor, mas preciso que me aceite.
- Quando você diz aceitar inclui o seu relacionamento com o Vitor? - ele perguntou, fazendo uma pausa ante de continuar.- Inclui suas mentiras também?
Baixei meus olhos como quem esta prestes a desistir de algo aparentemente sem esperanças, mas eu já tinha ido longe de mais para lhe dar as costas:
- Por favor pai não dificulte as coisas entre nós e não faça nosso relacionamento se equiparar ao seu e da minha avó. - pedi e ele pareceu desestruturar suas ofensas. - Eu amo o Vitor... - iniciei, mas ele explodiu e me interrompeu.
- Por Deus, Luiza você só tem dezesete anos o que entende de amor? É muito nova, uma garota inexperiente que acabou caindo na lábia do primeiro homem mais velho que apareceu!
- O senhor acha que se eu não o amasse estaria aqui? Não sei se o senhor sabe, mas minha avó é rica, ela é dona do jornal mais lido da cidade, eu poderia estar lá, fazer uma faculdade e trabalhar ao lado dela, mas estou aqui por amar o senhor, a minha mãe e o Vitor. Larguei tudo para recomeçar da melhor maneira possível.
Minha mãe me sorriu sem ousar dizer uma palavra, ela sabia que aquele momento cabia a mim e a meu pai e ela apenas assistia a tudo parecendo sentir orgulho de algo que eu não fazia ideia:
- E a faculdade de medicina? - ele perguntou de volta ao tom moderado e calmo.
- Nunca foi meu sonho, quero fazer jornalismo e gostaria muito do seu apoio. Minhas notas em matérias de saúde eram péssimas. - balancei a cabeça e levantei da cadeira.
Ele fez uma pausa enquanto navegava em pensamentos:
- Onde você esta hospedada?
- Na casa do Fábio. - respondi e os olhares espantados de ambos me metralharam.
- Fábio? - os dois perguntaram em uníssono.
Pausei por um instante, explicar a história do Fábio desviaria por completo o rumo ao qual eu realmente queria dar aquele momento:
- Isso eu explico depois. - tentei encurtar a conversa para que não fugisse do foco.
Minha mãe franziu os lábios e meu pai pareceu mais atento a mim o que me assustou, devo admitir, os dois pareciam não mais me enxergar como uma menininha e sim como alguém maduro o bastante para ser ouvido e levado a sério:
- Então você veio aqui para pedir para voltar, para namorar o Vitor e para virar amiguinha do Fábio? - ele ironizou, por mais que seus olhos demonstrassem que meu pai estava quase cedendo ele ainda fazia questão de fingir ser a pessoa mais indiferente do mundo.
-Não senhor, vim aqui para fazer minha faculdade, namorar o Vitor e sim, já virei amiguinha do Fábio. - respondi devolvendo a ironia, mas dessa vez ele não se irritou até esboçou um sorriso.
- Você sabe que o Fábio engravidou a sua melhor amiga ?
Balancei a cabeça afirmando e devolvi:
- O senhor só sabe uma parte da história.
Ele revirou seus olhos para cima e em seguida encarou minha mãe e mais uma vez os dois pareceram se comunicar mentalmente e depois de alguns segundos de total silêncio, sua voz saiu mais leve e branda:
- Senti saudades de você. - ele admitiu escondendo algumas lágrimas que escorreram de seus olhos.
- Te amo pai. - eu o abracei como nunca havia feito antes, eu sei que nossas diferenças continuariam, mas naquele momento, naquele exato momento ele abriu um precedente para que pudéssemos resgatar o tempo perdido.
- Me desculpa querida, me desculpa...-ele repetiu algumas vezes no meu ouvido enquanto eu o abraçava.
- Tenho que procurar o Vitor! - disse, depois daquele momento, mas a face de ambos mostrou saber de algo que ainda não fazia parte de meu conhecimento:
- O que aconteceu? Porque vocês estão com essas caras? - perguntei assustada.
- Filha... o Vitor, ele, bom... vai se mudar do bairro. - minha mãe iniciou.
- E vai pra onde? - perguntei sem muito me preocupar.
- Pra Nova Iorque.
Arregalei meus olhos e corri em direção à casa da minha madrinha, mas flagrei uma imagem que me fez parar: reconheci com precisão o meu Vitor sair de dentro de seu carro acompanhado de uma loira desconhecida, ele a beijou de forma ousada sem importa-se com os olhares acusadores de pessoas que cruzavam seu caminho e muito além disso aquela mulher correspondeu na mesma intensidade, ele estava bem vestido e parecia ainda não ter dormido. Fiquei encarando-os ao longe e me obriguei a assistir como a mão dele descia pelo traseiro dela e um sorriso charmoso enfeitava o belo rosto do meu Vitor, os dois entraram numa casa do condomínio que antes da minha mudança ostentava uma placa de aluga-se e agora não mais havia. Fiquei no mesmo lugar estática me segurando para não correr até aquele portão em que ele entrou e dizer: - Vitor não faça isso, estou aqui! - mas freei minhas vontades e desviei meu caminho para a casa do Fábio.

- Ele não te viu Lu! - a Nanda insistiu pela quinta vez enquanto eu mergulhava naquele pote de sorvete de chocolate que tinha na geladeira do Fábio.
- Foi horrível vê-lo com outra pessoa, da forma como eu vi... Não o reconheci, na verdade nem imaginava que ele poderia ser daquela forma...
- O Vitor nunca foi nenhum príncipe encantado Luiza, já sai para alguns lugares e pude ver. Ele só mudou porque te ama o o que não deve ser o caso dessa loira que você disse. Até porque se ele se importasse com ela não agiria da forma como agiu na frente de todos. - o Fábio, quem diria, explicou.
- E essa historia dele se mudar para Nova Iorque? É verdade mesmo?- o Gabriel continuou, nós quatro estavamos na sala sentados envolta da mesinha de centro.
- É, meus pais não mentiriam pra mim. - respondi. - e agora o que eu faço? -perguntei.
- Continua a fazer o que você iria fazer, vai conversar com os seus padrinhos, a Dani e ele. O que tiver que ser, será. - o Fábio aconselhou.
- É você fala isso, mas e a Dani? Conversou com ela?
- Ela nem quis olhar na minha cara, porque você não conversa com ela e aproveita para falar bem de mim? - ele disse e todos sorrimos com a simplicidade dele.
- Ta bom Fábio, deixa comigo. - finalizei antes de levar à boca aquela colher de sorvete.

No final da tarde quando o céu avermelhado fazia os moradores do condomínio saírem para suas caminhadas eu voltei para a casa de meus pais, meu quarto estava como eu havia deixado e quando me joguei na cama pude sentir todas os momentos que ali tive com meu Vitor encherem-me de paz, não fiquei ali por muito tempo, depois do banho fui para a casa da minha madrinha, já era noite e eu me sentia renovada e encorajada caminhando pelas ruas do condomínio pude ver ao longe seu Jorge, mas ele não meu viu.
Fiquei na dúvida entre tocar a campainha e entrar usando a chave que os pais da minha amiga deixavam com os meus, preferi a segunda opção e abri o portão:
- Já estou cansada dessa situação, quase não reconheço mais o Vitor! - escutei minha madrinha desabafar para o meu padrinho, os dois conversavam na sala quando eu entrei.
- Boa noite. - eu disse, foram as únicas palavras que consegui reproduzir quando os encarei.
- Luiza? - tia Sílvia estranhou minha aparição naquele cômodo.
Esbocei um sorriso sem jeito e antes de qualquer retaliação disparei:
- Olha eu vim aqui para pedir desculpas, quero muito que tudo volte a ser como antes, mas também preciso que aceitem meu relacionamento com o Vitor porque eu o amo demais... - acho que fiquei quase duas horas conversando com os meus padrinhos, eles me contaram sobre as recentes atitudes do Vitor e que ele não mais dormia em casa e aparecia com uma mulher diferente por dia, percebi o quanto estavam preocupados e minha tia Sílvia me confessou que arrependeu-se por não ter me apoiado na época em que descobriu que eu e o filho dela estávamos nos relacionando, por fim fiz as pazes com os dois e fiquei até tarde esperando a Dani voltar da rua, ela tinha saído com uma amiga de escola e ainda não tinha voltado.

Entrei no quarto da Dani para esperá-la, sentei no seu computador e num canto vi um amontoado de papéis cor de rosa eram todos os e-mails que eu havia mandado para ela e no verso a sua resposta. Sorri quando li ela dizendo que eu seria a madrinha do bebê que estava esperando e algumas lágrimas desceram de meus olhos quando li um outro e-mail e ela dizia que sentia muito a minha falta:
- Luiza? - a voz da minha amiga interrompeu minha leitura e eu voltei meus olhos aquela loira linda e grávida parada na minha frente:
- Dani! - eu a abracei expressando a saudade imensa que eu sentia:
- Lu! Como você fez falta! - ela correspondeu e naquele momento percebi que tinhámos feito as pazes:
- Nossa amiga! Te amo, te amo muito!
- Lu você não imagina como foi difícil ficar sem você aqui. Me desculpa amiga, prometo nunca mais te abandonar. - ela sussurrou enquanto eu tentava secar as lágrimas que insistiam em correr de meus olhos.

Dormi na casa dela como fazíamos quando criança, tínhamos tanta coisa para contar que foi impossível dormir, de fato, relembramos o tempo de colégio, falamos do Fábio e do Vitor tudo de uma forma bem mais leve, como se aqueles dois rapazes não nos preocupassem:

- Eu o vi hoje com uma loira linda, amiga você não sabe como aquilo me magoou. - eu confessei logo após contar do motivo que fizera o irmão dela voltar tão rápido de Vale das Laranjeiras.
- Relaxa Lu, aquela era a de finais de semana. Meu irmão voltou a ser aquele galinha ordinário, só que agora bem pior. Mas ele só ta fazendo isso pra te esquecer... Bom, pelo menos é o que eu acho. Ele te ama amiga, te ama mesmo e toda a vez que eu falo no seu nome o Vitor fica desnorteado, liga pra primeira na lista do celular e sai, sem que ninguém aqui de casa saiba pra onde ele vai. Para te dizer a verdade, essa semana só o vi uma vez dentro de casa e ele estava de ressaca e para piorar ainda tem essa mudança dele pra Nova Iorque... - ela explicou enquanto eu pensava numa forma de conversar com ele:
- com medo dele não olhar mais na minha cara...
- Olha amiga se você errou em beijar o irmão do Fábio o Vitor errou muito mais em dormir com a Aline... - mordi meu lábio inferior em sinal de dúvida e antes de dizer qualquer coisa ouvi a porta da sala bater e a voz do meu Vitor interromper o silêncio da madrugada.
- Vai lá falar com ele. - a Dani me disse e eu levantei da cama determinada a conversar com o meu Vitor.

Caminhei em passos silenciosos até a sala tomando cuidado para não acordar meus padrinhos, o Vitor conversava no celular com alguém indeterminado, sua voz penetrou meus tímpanos e fez meu coração disparar gelei ao vê-lo com o blusão social aberto mostrando seu belo porte masculino:
- Poxa Lê, não posso ir na sua casa não amanhã tenho que viajar... - ouvi perfeitamente enquanto ele fechava a porta:
Dei um passo para a frente, antes de ele se virar e me flagrar espionando-o:
- Luiza? - ele pareceu não acreditar no que via e eu não consegui dizer nada.

O Vitor balançou a cabeça negativamente como se quisesse espantar um pensamento ruim e cruzou meu caminho em direção ao seu quarto como se eu não significasse nada, fui atrás dele irritada com aquela atitude:
- Acho que precisamos conversar. - eu insisti, quando entrei no seu quarto e fechei a porta.
- Sai daqui Luiza, não precisamos conversar nada. Segue teu caminho que eu sigo o meu e ponto final, nossa historia acabou em Vale das Laranjeiras. - ele disse, enquanto tirava sua camisa.
-Vitor você sabe que não, você sabe que tudo que aconteceu foi um mal entendido... - tentei explicar, mas me perdi nas palavras quando percebi que seus olhos percorriam meu ser como se fosse um ímã me atraindo para perto dele.
- Olha Luiza eu quero tirar minha roupa, será que você pode sair? - ele pediu e eu respondi:
- , esqueceu que eu já te vi com bem menos roupas? - esbocei um sorriso travesso e ele riu-se sem graça.
- Não me provoque menina, não estamos mais juntos. - ele avisou, mas meu corpo encarou como um desafio e devo admitir que gostei da reação dele.
- O que foi? Esta com medo de mim? Eu não mordo. - instiguei seus instintos e ele mais uma vez sorriu.
-Mas eu sim. - ele respondeu me puxando pelo braço antes de me beijar e morder levemnte meu pescoço como sempre fazia quando queria me atiçar, mas após uma pausa sua voz doce sussurrou no meu ouvido:
- Vá para o quarto da Dani, não quero fazer algo para nos arrependermos depois. - ele disse, sorrindo aquele sorriso singelo que usava apenas para mim.
Balancei a cabeça aceitando o que ele me pedira, mas antes de sair de seu quarto:
- Posso te pedir um favor?
- Claro Lu, peça.
- Só não use esse sorriso para mais nínguem. - não fiquei para ouvir sua resposta, voltei para o quarto da minha amiga que já dormia e deitei ao seu lado desejando esquecer aquela noite e imaginando como seria minha vida sem o meu Vitor.

segunda-feira, março 08, 2010

Cap XXXI - Volta para casa

Me ajeitei no banco e acompanhei com os olhos o trajeto que a Lorena fazia da entrada da igreja até o altar acompanhada de um senhor que era seu avô. Aquela ruiva estava notoriamente diferente, não parecia mais tão animada com o evento que tanto esperou. Aliás não vi se quer um sorriso em sua bela face , na verdade eu poderia dizer que ela estava em dúvida de algo que eu não fazia idéia.
O padre iniciou seu discurso e minha avó deixou algumas lágrimas rolarem, todos pareciam bastante felizes. Dona Madalena não parava de fotografar, meu tio disfarçava a emoção fingindo olhar para cima toda vez que sentia que uma lágrima pudesse rolar até acontecer algo que realmente eu não esperava, aliás acho que todos não esperavam:
- Você Lorena Gonçalves Fernandez aceita se casar com Fábio Assis Andrade na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte os separe? - a pergunta havia sido feita e embora a resposta devesse ser instantânea e óbvia a Lorena hesitou antes de continuar:
- Fábio me desculpa, mas não posso. Não fomos feito um para o outro e você sabe muito bem disso. - ela respondeu olhando nos olhos dele tão fundo que pude enxergar humanidade naquela ruiva.
Todos da festa se espantaram e não acreditaram no que ouviram, eu ri, mas não por achar graça da situação e sim pela completa ironia. Após o "sim" do irmão do Gabriel, da única pessoa que parecia não estar satisfeita com o casamento e a mais provável em recusar, escutar um "não" do ser que aparentemente andava nas nuvens toda vez que se mencionava aquele evento foi no mínimo irônico:
- Tem certeza? - o Fábio perguntou.
- Tenho. - ela respondeu e os dois se abraçaram no altar como verdadeiros amigos. Algo que eu jamais tinha visto na vida. Ela arrancou o véu e jogou o buquê no chão.
- Obrigado. - ele agradeceu parecendo aliviado.
Voltei a sorrir enquanto todos ali presentes mantinham sua perplexibilidade:
- O melhor casamento que já fui! - comentei com a Nanda que sorriu disfarçadamente.
- Meu Deus e a festa? Gastei tanto com toda aquela parafernália para estragar?! - meu tio Ramon parecia preocupado.
- Mas quem disse que não teremos festa? - a Lorena perguntou, antes de descer do altar e vir em minha direção. De ínicio recuei pensando que aquela ruiva iria me bater ao algo do tipo, mas me surpreendi quanto ela pôs seus braços envolta do meu ombro num abraço totalmente imprevisível.
- Muito obrigado Lu, precisava ouvir o que me dissera hoje durante a manhã. - ela cochichou enquanto eu ainda me recuperava de tudo que acontecia ao meu redor. Nunca imaginei um dia ser abraçada por aquela menina.

Durante a festa de descasamento, como ficou conhecida, as amigas da minha prima vieram até a mim conversar sobre o que queriam realmente e como o que eu disse se encaixava de forma distinta na vida de cada uma. Acabei fazendo grandes amigas naquela noite. Para ser bem sincera não fazia ideia de que minhas palavras tinham feito tanto efeito nelas.
- Eu fazia medicina, mas larguei o curso para me dedicar inteiramente a esse casamento. Para ser bem sincera Lu, eu não queria nunca ter aberto mão do meu curso, mas o Fábio me pediu para que eu pudesse me dedicar a preparação de tudo. - a ruiva sorriu triste - Em pensar que foi tudo completamente em vão. - em fim ela desabafou parecendo sentir pesar. Segurei em sua mão:
- Lorena, não foi nada em vão. Agora você pode terminar seu curso, fazer o que bem entender. A parte mais díficil passou, agora é só você e seu sonho de ser médica. Tenho certeza de que vai conseguir.
- Obrigada, me desculpe por tudo. - estavámos sentadas numa mesa dos fundos da cozinha, eu e ela desfrutávamos de um momento só nosso e eu deixei bem claro que ela não devia tratar as pessoas da forma como fizera com dona Conceição na minha primeira noite naquela casa.

- Olá. - uma voz masculina invadiu meu quarto enquanto eu terminava de arrumar as malas para voltar pra casa, a festa ainda rolava no jardim e todos pareciam não mais lembrar que o casamento não havia acontecido.
- Fábio. - cumprimentei, voltando meus olhos para a mala de viajens refazendo na mente o que poderia estar faltando.
- Acredita no que aconteceu? Eu levei um "não" no altar! - ele disse num tom divertido, eu sorri.
- Que bom heim! - respondi.
- Nem me fale, parece que tirei um fardo das costas. A Lorena disse que deve isso a você, afinal garota você é o que? Algum tipo de anjo? Parece ter a sabedoria de alguém que viveu por décadas, você meche com a vida de todos que conhece. - ele comentou. - É alguém especial Luiza. - sorri, mas não me enobreci.
- Ora Fábio veio aqui para me elogiar? - brinquei.
- Também, sua avó disse que você vai voltar pro Rio. - ele sentou-se na beira da cama.
- Vou, o voô parte de madrugada. Preciso acertar minha vida por lá. - continuei.
- Será que posso ir com você? Ficamos todos na minha casa lá tem bastante espaço. - ele perguntou e eu ascenei a cabeça afirmando pouco antes de abraçá-lo.
- É a primeira vez que vejo você fazer algo certo. - cochichei em seu pé de ouvido.

Tive que fazer dezenas de promessas que voltaria nas férias de julho, minha avó e eu desfrutamos de um momento de choro mútuo e aquilo pareceu reforçar nossa ligação, o senhor Davi me abraçou e dona Conceição me obrigou a levar rosquinhas para a viajem. Eu estava realmente grata com a minha estadia naquela cidade e voltaria o mais breve possível, mas no momento eu só queria rever meus pais, meus padrinhos, minha amiga e meu Vitor.
Fomos os quatro para o aeroporto da cidade onde o voô partiria às duas da manhã.

Aos poucos a paisagem da minha cidade Natal ia tomando forma e eu já conseguia me sentir em casa, a paisagem carioca parecia me sorrir e o Cristo Redentor me dava boas-vindas. Senti meu coração disparar quando as rodas do avião tocaram o solo, o clima quente da minha cidade beijou minha pele e pisquei os olhos algumas vezes para me certificar que estava de volta, de volta pra minha cidade, pra minha vida, para os meus sonhos.
- Não acredito que estou no Rio! - ouvi a Nanda comentar com seu sotaque inegávelmente do sul.
- Estamos de volta Luiza! - o Fábio segurou na minha mão.
- Meu Deus! Eu voltei.

Quando o táxi adentrou o condomínio uma ponta de medo correu por minhas veias, passei em frente a minha casa totalmente escura e sem sinal de vida. Meus pais provavelmnte estariam dormindo aquela hora. Depois passei em frente a casa da minha amiga Dani e do meu Vitor, a luz do quarto dela estava acesa sinal de que ela estava acordada. Tive que segurar a vontade repentina de tocar a campainha e resolver tudo de uma vez por todas:
- Amanhã resolvemos nossas vidas. - o Fábio comentou quando me viu encarar a casa dos meus padrinhos com saudade.

Me acomodei em um dos quartos de hóspedes da casa do Fábio, o mais interessante é que nunca imaginei entrar naquela casa como uma convidada querida. Me deitei depois de uma ducha de água quente.
Acordei com o som de risadas vindo da cozinha, a Nanda e o Gabriel conversavam animadamente envolta do balcão enquanto o Fábio preparava o café:
- Bom dia. - disse, com certa dificuldade em encarar aquela claridade.
- Bom dia! - a Nanda disse. Ela e o Gabriel estavam arrumados para sair logo pela manhã.
- É hoje Lu! - o Fábio comentou após encher sua xícara com aquele líquido preto e perfumado.
- Boa sorte pra você dois! - a Nanda tentou nos animar, mas fora meio vão. O medo mantinha-se firme em nós.
- Brigado amiga! - agradeci abraçando-a.

Resolvi encarar meu pai primeiro que meus padrinhos, toquei a campainha depois de respirar fundo e quando ouvi passos descendo as escadas minha vontade foi sair correndo, mas mantive-me firme diante da imagem dele que pareceu um tanto assustado quando me viu parada em frente ao portão.

domingo, março 07, 2010

Cap XXX - Casamento (Parte IV)

O Fábio não sabe e nunca saberá, mas conversar com ele foi algo que eu precisava para enxergar minhas atitudes completamente infantis e exageradas desde que o Vitor me deixou, quer dizer tentar me matar foi a maior burrice que eu poderia fazer. Dar a vida por alguém é nobre, mas findá-la por medo é ignorância e hoje me envergonho por isso.
Pensei em muitas coisas durante o caminho de volta da casa da Nanda, no final daquela tarde, depois de um dia inteiro parada feito uma estátua na frente do espelho do atelier enquanto ela acertava as últimas pregas do vestido que eu iria usar no casamento.

Beijar o Gabriel foi necessário, cheguei a conclusão depois de dias me condenando de um ato que eu julgava totalmente desnecessário. Eu não saberia que teria a sensação de um completo vácuo se não tivesse beijado o irmão do Fábio e hoje a imagem dele não me seria de apenas um alguém bonito, aliás se não fosse aquele beijo ele continuaria confundindo meus sentidos.
Essa mudança até que me trouxe muitas coisas boas, o esteriotipo de uma avó totalmente fria que só se importa apenas com aparências foi totalmente abolida quando tivemos nossa conversa franca sobre o Alberto.

Foi numa noite fria no escritório dela que tudo começou, eu ainda estava mal e decidi cancelar a idéia de investigar as tais cartas misteriosas, entrei naquele cômodo por volta da meia noite quando a certeza de que todos da casa dormiam se concretizou após averiguar todos o s quartos e me certificar que estavam todos no mais profundo sono, girei a maçaneta da porta e abri sem fazer barulho em cima da mesa alguns livros estavam espalhados e uma xícara de café gelado tinha sido esquecida, vasculhei em algumas gavetas até encontrar a pilha de cartas organizadas de acordo com a data na última gaveta da mesa num canto pus a carta que havia estado comigo de acordo com a ordem, mas antes que eu pudesse fechar a gaveta alguém acendeu a luz do escritório e me flagraram, numa camisola branca minha avó me encarava numa feição serena e diferente da que eu imaginei que ela teria se me encontrasse mechendo em suas coisas:
- Vó.
- Eu sabia que você devolveria a carta mais cedo ou mais tarde. - ela admitiu adentrando o cômodo.
- Vó eu juro que só estava pondo no lugar! Só isso. - tentei argumentar, mas ela dispensou qualquer tipo de diálogo e me pediu para sentar.
- Acho que precisamos ter uma conversa de mulher para mulher. Tenho perguntas e quero respostas e acho que você também tem perguntas e quer respostas.
Mordi os lábios inferiores em sinal de dúvida, não sabia se eu iria querer responder as perguntas que ela provavelmente me faria então engoli em seco e me calei por um pequeno tempo antes de começar meu interrogatório totalmente involuntário:
-Quem é Alberto? E meu avô? E meu pai? Alguém sabe mais sobre esse cara?
Ela eboçou um sorriso lembrando de algo que lhe trazia saudades, acomodou-se na poltrona preta de couro num canto da sala:
- Alberto foi o meu primeiro amor, meu único e verdadeiro amor... Ele tinha dezoito anos e eu dezeseis quando nos encontramos pela primeira vez, eu uma jovem que ajudava meu pai na vendinha depois do colégio e ele um completo desconhecido, sem família, sem passado com apenas uma bolsa de viajem nas costas. Ele era a paixão de todas as menininhas da cidade, sabe aquele bad boy misterioso e charmoso que te encanta? Então, era ele. Ele tinha fama da conquistador e eu acabei conhecendo a má reputação dele antes de conhecer o próprio. - ela me descrevia tudo com total perfeição como se visse um filme em sua mente e reproduzia oralmente as cenas que assistia. - Foi numa tarde de outubro que nos conhecemos, eu estava sozinha na vendinha de papai e ele apareceu perguntando quando partia o próximo ônibus para o Rio de Janeiro, foi amor a primeira vista Luiza. Quando vi aqueles olhos absurdamente azuis e inocentes mergulhei tão fundo que me esqueci de perguntar seu nome, foi só no nosso terceiro encontro que fiquei sabendo que ele se chamava Alberto, "o" Alberto. Mas as coisas não eram fáceis naquela época e dá para imaginar que quando eu disse aos meus pais que estava apaixonada por alguém sem família e sem passado eles não aceitaram bem, até porque eu já estava comprometida com o seu avô. Lembro até hoje que meu pai me ameaçou mandar para um convento se eu tocasse mais uma vez no nome do Alberto e eu fiz o que ele me disse, nunca mais toquei no nome do meu Alberto, mas continuamos a nos encontrar por meses e meses até que um dia ele já cansado de continuar nessa cidade onde as pessoas o rotulavam e criticavam me chamou para ir pro Rio, eu não aceitei precisava continuar aqui, em Vale das Laranjeiras e assim terminamos numa briga horrível ao qual ele me disse coisas que me cortaram o coração e eu fiz o mesmo. Essa carta foi a última, desde então não tenho mais notícias dele, dizem que mudou-se para fora do país outros que foi para o Rio, mas eu não sei e talvéz nunca saiba. Bom é isso, a única pessoas que sabia dessa história era teu avô que foi um homem incrível e um amigo perfeito, mas nunca o amei. Amor só temos um e o meu esta por aí, em algum lugar de que não tenho ideía. - ela finalizou com imenso pesar e nostalgia.
- E quem era aquele belo rapaz que esteve aqui em casa? E porque você veio para cá com tanta urgência? - foram as duas perguntas que ela me fez, eu respondi detalhadamente cada uma a começar pela minha vontade de fazer jornalismo e de como o Vitor entrou na minha vida, no final ela se dispôs a me ajudar a voltar para o meu amor e a me ajudar a cursar jornalismo.

Finalmente domingo, dia do casamento. Acordei por volta das sete horas da manhã com o barulho de um caminhão entrando na garagem da mansão para descarregar uma pilha de cadeiras e mesas dobráveis, acompanhado de gritos de localização e o som de pratos se quebrando num provável descuido de alguém. O sol invadia o meu quarto e aquecia minha pele, parecia que tudo conspirava a favor desse casamento. A casa estava cheia de gente, na sua maioria mulheres, do quarto da Lorena era audível as vozes da Júlia, das amigas chatas das duas primas e do estilista puxa-saco: Oscar.
Escutei os risinhos histéricos vindo do grupo e me esforcei para continuar na cama e voltar a dormir, mas aquelas vozes chatas penetravam meus ouvidos e me faziam permanecer acordada, embora eu quisesse voltar a sonhar com o meu Vitor.
- Droga, sera que eles não vão calar a boca? - perguntei-me, pondo um travesseiro na cabeça que não adiantou. Por fim, levantei certa de que seria um dia longo, mas eu sabia que encararia da melhor forma possível, pois a Maria Luiza estava de volta.
Pus um short djenas, uma camiseta de manga curta e meus chinelos coloridos logo após o banho. Ajeitei meus cabelos num rabo de cavalo simétrico e desci as escadas. Foi só então que percebi a magnetude daquele evento, a casa estava repleta de gente! Eram manicures, cabeleleiros, pessoas de um buffet da cidade e reporteres local. Desci as escadas com desconfiança. eu estava mesmo em casa ou tinha sido teletransportada para a mansão de algum famoso de Holiwood?
Foi só quando vi minha avó passar correndo atrás de uns homens que levavam uma mesa de vidro para o jardim que percebi estar em casa:
- Bom dia querida! - ela gritou já fora do alcance da minha vista eu apenas correspondi com outro bom dia entusiasmado.
Dona Conceição foi a próxima a cruzar o hall liderando uma equipe de cozinheiros continuei meu trajeto até a cozinha atentando ao jardim todo decorado em tom rosa claro, onde os últimos quitutes eram posto de enfeites. Catei alguns docinhos coloridos, mas minha avó me interrompeu antes que eu pudesse abocanhar um doce branco com lascas de cocô:
- Vou fingir que não vi nada. - ela brincou e eu pisquei o olho como se estivessemos guardando um segredo mortal.
- É hoje vó. - respondi após beijar seu rosto.
- A Lorena quer te ver, vai lá no quarto dela. - ela me disse. - Faz essa forcinha querida, só hoje. - depois finalizou antes de seguir um grupo de músicos que procuravam um lugar para por seus instrumentos.

Terminei de pegar mais alguns docinhos e subi as escadas em direção ao quarto da ruiva irritante, minha avó ainda não conseguia entender porque eu não gostava dela em nossa conversa no escritório eu omiti o fato do Fábio ter engravidado minha melhor amiga e de que eu já tinha conhcido a Lorena.

Abri a porta do cômodo e um cheiro de galinha assustou minhas narinas, na verdade aquele odor era mais psicológico do que real. Os olhares se direcionaram a mim e eu encarei todas elas sem receio de qualquer coisa, embora eu já soubesse que ela queria me intimidar. Para qualquer coisa que ela pudesse me dizser a resposta já estava na ponta da língua e isso me tranquilizava:
- Lorena, tava me chamando? - perguntei.
- Claro prima! Vem dividir esse momento comigo! - ela me disse com o rosto coberto de uma pasta cor verde e os cabelos com papel alumínio. Tive de segurar o riso para não gargalhar daquela cena, aliás não só ela como todas as meninas que dali estavam no mesmo tratamento:
O Oscar me fitou com a face interogativa e em fim perguntou:
- E você não vai se arrumar? E com que roupa vai? Posso ver se arrumo alguma coisa para você usar, embora pareça impossível por causa da hora, mas como sou o maior estilista da cidade faço milagres, até com pessoas como você. - ele disse tudo num tom de desdém como se eu fosse um caso perdido.
- Não precisa, já tenho minha estilista que já fez o meu vestido. - respondi.
Uma das amigas da Lorena me olhou de cima a baixo e então comentou:
- Nossa como vocês duas são diferentes. - deixei passar e continuei a analisar toda aquelas meninas, a Júlia não ousou dizer uma palavra se quer e fingia ler uma revista de moda antes de sair do quarto alegando sentir fome.
- Não coma muito! Se não o vestido ficará marcando. - o Oscar gritou embora tenha sido totalmente vão a prima da Lorena não estava mais perto para poder ouvir seu conselho.
Abri a porta e dei as costas, não conseguiria ficar naquele ambiente por mais tempo.
- É um moleque. - ouvi uma das meninas sussurar e voltei pronta para dizer tudo que tinha ficado preso na garganta desde a primeira vez que encontrei aquela corja de seres iguais.
- Não sou um moleque, sou autêntica. As pessoas gostam de mim pelo que eu sou, não preciso fingir ser igual a ninguem para ser aceita. E vocês que mais parecem xerox umas das outras? Acham que os rapazes vão gostar de vocês dessa forma? Aliás eles podem até gostar, mas sinceramente me digam vocês: É isso mesmo que querem? Ser a barbie de um homem para ele mostrar para a sociedade dessa pequena e hipócrita cidade como a mulher dele é bonita? E o conteúdo de vocês onde esta? Não é possível que todas vocês tenham o mesmo sonho de casar com um homem rico, ter filhos desse homem rico e morrer. Meu Deus! Acordem, a muito fora dos limites desse lugar, vão conhecer gente nova, vão estudar, vão viajar! Há tantos lugares nesse mundo. Procurem pessoas que vão gostar da alma de vocês, da verdadeira essência de cada uma. Perguntem-se o que realmente querem e corram atrás. Porque nascer, viver e morrer em Vale das Laranjeiras não é a minha meta e espero que não seja a de vocês também. - disse tudo num tom alto e nínguem retrucou, pareciam pensativas e não ofendidas. Bati a porta e sai daquele quarto sem ouvir se quer um ruído.

No final da tarde eu e Nanda chegamos na igreja, nos sentamos nos bancos da frente que tinham sido reservado para nós ao lado da minha avó, do tio Ramon e da dona Madalena. Aos poucoa aquele lugar de orações foi se enchendo até não sobrar lugares. Ascenei para os pais do Fábio sentados do outro lado, meu vestido tinha ficado perfeito e todos queriam connhecer a estilista que fizera:
- Não acha que já esta tarde? - a neta da dona Conceição sussurrou no meu ouvido após quarenta minutos da hora marcada.
- A Lorena ainda não chegou? - perguntei a minha avó.
- Não, ela já esta aí. Quem não veio foi o Fábio. - a mãe do meu pai respondeu olhando para trás a toda hora.
- O Gabriel é um dos padrinhos ele deve saber. - a Nanda cochichou enquanto telefonava para ele, mas antes que a ligação fosse completada o noivo aparceu no altar ajeitando a gravata como se estivesse acabado de se arrumar.
Senti o alivio de todos quando a marcha núpicial iniciou e os padrinhos adentraram o lugar antecendendo a Lorena que usava um vestido branco perfeitamente desenhado.

quinta-feira, março 04, 2010

Cap XXX - Casamento (Parte III)

Pus um pé e depois o outro, não havia mais passos a serem dados, mais caminhos a serem traçados eu estava realmente disposta a dar um fim em tudo que me torturava. Poderia ser, aliás era sim uma tentativa covarde de fuga, mentalizei o meu Vitor e quase que pude sentir seu cheiro próximo a mim:
- Luiza... Como não consigo te esquecer? - ouvi perfeitamente a voz do meu Vitor e dei alguns passos para trás procurando involuntariamente por ele mesmo sabendo que a certeza dele não estar lá era evidente, as gotas d'agua em minha pele se intensificaram quando voltei meu corpo diante do mar furioso que batia nas pedras logo abaixo.
Equilibrei meu corpo com um pé tocando o ar e outro a terra, levantei os braços como se estivesse abraçando o que quer que fosse e fechei novamente os meu olhos:
- Luiza! - ouvi um grito que fez meu pé esquerdo voltar a terra desligando-me de tudo que eu pudesse pensar naquele instante, voltei meu rosto para trás e a poucos metros de mim estava a Nanda e o Gabriel completamente assustados com a cena que presenciavam:
- O que você esta fazendo? - a minha amiga perguntou, sem dar qualquer passo em minha direção.
Balancei a cabeça negativamente como se quisesse espantar um pensamento ruim e fiz força para dizer o que por dentro gritava:
- Ta difícil... Ta dificil ficar sem ele e fingir que esta tudo bem. Eu simplismente não estu conseguindo... - eu parecia tão desesperada que pude perceber o olhar perdido daquelas duas pessoas a minha frente.
- Luiza me desculpa, eu não pensei que gostasse tanto dele. Se pudesse voltar atrás e mudar tudo eu faria sem hesitar. - o Gabriel disse, talvés fosse isso que ele queria me dizer a poucas horas atrás, mas eu não lhe havia dado oportuinidade.
- Você esta entregando os pontos Luiza, desistindo sem nem tentar ? Acha mesmo que o Vitor não te ama mais? Ou que a historia de vocês acabou? Claro que não! Mas você tem que correr atrás do prejuízo e não se entregar dessa forma.
- Correr atrás? - repeti desdenhando suas palavras, ela pareceu se irritar.
- Tudo bem Luiza, faz o que você achar melhor. Sabe o que vai acontecer se você se jogar? Com mais dias ou menos dias alguém interessante vai aparecer pro Vitor e mesmo que ele nunca se esqueça vai ser obrigado a seguir sem ti e dar prosseguimento à vida dele. E aí o que vai adiantar essa sua fulga covarde e egoísta de uma realidade que você ainda pode mudar? - ela me indagou aparentando total frieza e indiferença, mas eu tinha a total certeza que ela só utilizava aquele tom para me puxar para a racionalidade.
Fiquei a observar os dois juntos e percebi o quanto se importavam comigo aliás até aparentavam se preocupar mais comigo do que eu mesma. Olhei para as nuvens escuras e densas daquela noite e senti uma leve brisa tocar minha nuca despenquei no chão em prantos abolindo por total a idéia de acabar com a minha vida daquela maneira tão desesperada e egoísta.

O cheiro de chocolate quente perfumou o pequeno apartamento, a Nanda veio até a mim com uma xícara daquele líquido escuro. Eu tremia debaixo das cobertas confortáveis da cama da minha amiga:
- Nos deu um susto essa noite garota. - ela comentou num tom doce de quem estava alíviada.
Percebi o olhar diferente do Gabriel para a minha amiga, ele a observava com ternura e admiração. Quieto e sentado num banco no canto do quarto parecia analisar cada traço dela sem avaliar e sim apreciar, como se estivesse submerso em pensamentos:
- Não acha melhor levá-la ao hospital? Lá eu posso fazer alguns exames... - ele demonstrou-se solicito assim que terminei a xícara de chocolate.
- Não precisa. - respondi quase que instantâneamente. - É médico? - depois foi inevitável perguntar ele apenas balançou a cabeça afirmativamente.
- Tem certeza? - ele quis confirmar e eu reafirmei. - Então acho que vou indo, esta muito tarde. - o Gabriel passou os olhos pelo relógio de pulso.
- Se quiser pode dormir aqui, arrumo a sala para ti. - a Nanda respondeu vasculhando em seu armário algumas roupas de cama.
O Gabriel sorriu de uma forma que eu não havia visto antes, parecia não saber o que fazer diante daquela loirinha diferente:
- Carpe Diem? Você segue a idéia ou só acha a palavra legal?- ele perguntou parecendo curioso.
Ela sorriu e pôs seus cabelos para trás da orelha, mostrou a tatuagem para ele e depois explicou:
- Não tatuaria algo sem sentido na minha pele. "Carpe Diem quam minimum credula postero" - ela citou uma pequena estrofe do poema em grego e ele traduziu:
- Colhe o instante, sem confiar no amanhã.
- Acredito que se todos nos preocupássemos mais com o agora sem pensar no amanhã metade dos dilemas do mundo seriam sanados e talvés assim o futuro fosse bem melhor. - ela explicou e ele pareceu totalmente fascinado com a visão tão diferente da Nanda.
Fechei meus olhos aos poucos e não pude mais prestar atenção em nada que aqueles dois conversavam, a última coisa de que me lembro antes de dormir é que ele aceitara dormir ali.

A semana passou rápido diante de tantos preparativos para a festa mais falada da cidade, apesar de não me sentir nenhum pouco animada com tudo o que se desenrolava a minha volta algo em mim estava diferente, aliás algo em mim havia voltado ao normal e eu consegui me sentir bem depois de tanto tempo sem me reconhecer diante do espelho.
Ajeitei os cabelos e pus um vestido solto feito pela Nanda, me analisei diante do espelho do quarto naquela manhã e gostei do que vi de fronte a mim. As passagens para voltar para o Rio já haviam sido compradas, uma para mim, outra para a Nanda e uma última para o Gabriel e depois do casamento iriámos os três eu tinha tomado algumas decisões que não mudariam.

1º - Conversar com o Vitor.
2º - Conversar com meu pai.
3º - Começar a faculdade de jornalismo.

Minha avó já tinha me confirmado que mesmo se meu pai não me aceitasse de volta ela custeava todas as minhas necessidades e aquele fato tranquilizava demais minhas duas últimas decisões, mas a primeira ainda me assustava, pensar na provável possibilidade do Vitor não me aceitar de volta quase que me desanimava se não fosse o fato de saber que a Nanda e o Gabriel estariam ao meu lado:
- Ai, ai Vitor, o que eu poderei te dizer? - perguntei-me diante do espelho sem imaginar um diálogo convincente o suficiente para fazê-lo cogitar uma possível desculpa.
- Que tal: me desculpe? - o Fábio adentrou o quarto eu mal sabia que ele estaria ali aquela hora da manhã.
- Hã? - fingi não saber do que ele falava.
O Fábio esboçou um sorriso desajeitado e sentou-se na beirada da cama deixando notável que ele queria dizer algo que eu ainda não podia imaginar, fiquei observando-o por um breve instante achando minimamente curioso como a presença dele não mais me incomodava e para dizer a verdade até poderia dizer agradável, mas mantive minha face desconfiada e demonstrei ainda não gostar dele apenas para deixá-lo imaginar que ainda não acreditava em nada que ele dizia em relação a minha amiga, mas eu tinha a absoluta certeza que dessa vez ele estava sendo sincero:
- Fala logo o que você quer.- apressei, abanando as mãos freneticamente.
- Vamos dar um passeio? Vou te levar pra um café da manhã reforçado num restaurante daqui da cidade. - ele tentou ser o mais entusiástico possível, mas mantive-me firme e neguei de primeira.
- Tenho que ir na casa da Nanda terminar o vestido. - justifiquei.
- Te levo na casa dela depois. - ele foi rápido na resposta e eu continuei negando sem muita vontade de conversar com ele. - Por favor, preciso conversar com você. - por fim ele me pediu deixando expor seu lado completamente perdido e triste, algo que eu nunca havia visto antes e inevitavelmente não tive condições de negar.

Entramos num lugar arquitetônicamente aconchegante, algumas poucas pessoas degustavam de refeições atraentes ao olfato. O Fábio puxou a cadeira de uma mesa próximo à janela de vidro que beirava a rua como um verdadeiro cavalheiro. Estranhei a tamanha gentileza:
- Calma, as pernas da cadeira não estão cerradas não. - ele riu diante da minha indecisão entre sentar ou não sentar.
- Eu espero. - respondi ainda em dúvida antes de sentar.
Ele riu diverdindo-se com a minha atitude e logo em seguida acomodou-se na cadeira à minha frente:
- Eu vinha nesse restaurante quando era moleque, eles tem o melhor sanduíche da cidade. Talvés do planeta, nenhum outra cidade ou país que já fui tem um sanduíche igual! - ele pareceu realmente animado enquanto descrevia o tal sanduíche.
Esbocei um sorriso talvés contagiada com a alegria dele ao relembrar da infância que aparentemente lhe dava saudades imensas e fazia seu olhar distanciar quilômetros da sua atual situação:
- Um super sanduíche da casa! - o Fábio respondeu quando a garçonete perguntou qual refeição iriámos querer, eu apenas acompanhei o pedido daquele rapaz que em nada lembrava o antigo e frio Fábio que engravidara minha melhor amiga.
Fiquei a observá-lo sem me preocupar com disfarces queria ter a certeza de que ele não estava tentando me enganar, mas eu já sabia.
- Para que me trouxe até aqui? - perguntei seca fingindo não acreditar nele.
Ele me fitou alternando suas dúvidas entre dizer ou não dizer, pude perceber isso devido a um gesto que ele fazia com os dedos da mão direita tocando cada ponta com o polegar e por final contando o polegar nessa alternação entre: dizer ou não dizer?
- Não sei o que faço, estou perdido Luiza e por mais que eu odeie admitir você é a única pessoa que sabe de toda a verdade, toda mesmo! Acompanhou o meu relacionamento com a sua amiga de perto... Nem o Gabriel sabe da metade que você sabe. Então eu estou aqui pra lhe dizer que... - ele pausou demonstrando certa dificuldade em completar a frase. - preciso de você. - em fim admitiu parecendo lhe sangrar cada palavra proferida.
Fiquei calada de início lembrando de como ele era antes de tudo acontecer e sua vida virar de ponta a cabeça deliberadamente:
- Para começar: não case! - a minha resposta pareceu obvia demais e não me importei com a franqueza.
- Mas Luiza como posso não casar? Esta tudo pronto! Tem noção de quantas vezes adieei esse casamento por causa da sua amiga? E o pior é que dessa vez esta tudo diferente... - ele passou a mão pelos cabelos lisos caídos no rosto e sorriu um sorriso meio triste quando voltou seus olhos diante dos meus.
- Fábio... - segurei em suas mãos perdidas em cima da mesa e respirei fundo antes de começar algo que ainda não sabia como começar.
- Liguei para ela ontem, deixei mais de cinquenta mensagens no celular dela e falei com o pai dela! Acredita nisso? Conversei com o pai dela! Aquele que queria me denunciar! - ele enfatizou a última parte, sem acreditar no que tinha feito.
Eu sorri, mas não pretendia, porém fora mais forte que eu:
- Dá para parar de rir? - ele pediu, sério.
Esforcei-me para fazer o que ele havia me pedido e consegui atingir o nível de seriedade necessário para aquele momento após alguns minutos de risadas causadas pela grande ironia do destino:
- Mas então porque você prosseguiu com esse casamento? Aliás porque você prosseguiu seu relacionamento com a Dani sabendo que era errado? - perguntei, curiosa com a resposta, mas recebi uma avaanche de palavras nenhum pouco medidas, mas necessárias para o entendimento da situação dele:
- Acho que pelo mesmo motivo que você manteve seu relacionamento com o Vitor. - calei minhas ironias e deboches logo em seguida.
Pigarreei antes de iniciar qualquer justificativa simplismente pelo fato dele ter me deixado SEM justificativas plausíveis:
- Que foi? Te deixei sem palavras? - ele perguntou sem disfarçar sua arrogância natural, mas algo nele estava diferente, mas algo nele estava diferente e eu simplesmente não senti raiva de seu comentário:
- Estamos falando de você e não de mim. - tentei me desvencilhar.
- Acho que estamos falando de nós dois e de nossa incapacidade de voltar com as pessoas que amamos. - ele me corrigiu antes da garçonete regressar com dois sanduíches de queijo derretido, acompanhados de dois copões de suco de goiaba. Certamente eu não iria almoçar naquele dia.
- Não sou incapaz de voltar com o Vitor! - minha voz saiu mais firme e alta que o imaginado e alguns poucos olhos me seguiram na minha pequena explosão.
O Fábio apenas suspendeu a sombracelha parecendo me desafiar e logo em seguida mostrou uma mensagem, aliás a última que recebeu da Dani:

-

"Sinceramente? Não preciso mais das suas palavras bonitas. Acho que já me magoou o suficiente para querer que eu lhe perdoe, as palavras vindas de você me dizendo para tirar o filho ainda me corroem por dentro, mas vou seguir adiante. Não me procure, de você só quero o sobrenome para poder dizer ao meu filho que o pai dele não foi um grande hipócrita e que algo de humano, ainda que bem pouco, sobrou."
Dani

-


Ele balançou a cabeça como eu sempre faço quando quero espantar um pensamento ruim, e fitou meus olhos abertos mais que o normal ao ler aquelas palavras. Aquelas frases tinham mesmo saído da minha amiga? A Dani que foi sempre tão calorosa, tão humana, perdoar sempre foi fácil para ela independentemente do que a pessoa pudesse ter feito.
- Já decorei essas palavras...E elas me torturam toda vez que lembro de cada vírgula, cada ponto... Luiza, me fala o que fazer? Sempre foi tão fácil...
- Você se refere ao modo como ela vinha até você?
- Não só a isso, mas como ela se encaixava comigo... Sabe a melhor companhia do meu dia era a Dani!
Contorci meus lábios em dúvida e hesitante, não sabia realmente o que fazer então preferi calar-me e deixar o Fábio continuar.

segunda-feira, março 01, 2010

Cap XXX - Casamento (Parte II)

- Como alguém pode saber que está amando depois que perde a pessoa? - a Nanda perguntou-me enquanto ajeitava meu vestido para o casamento da Lorena, eu me olhava dentro daquele pedaço bem costurado de tecido sem a menor luxúria, até me achava bem, mas nada além. Estávamos no apartamento dela que ficava próximo aonde ela estudava, um lugar pequeno de quatro cômodos num prédio simples do centro da cidade, porém tudo ali cheirava à moda. Os móveis bem distribuídos, as paredes coloridas e o sofá verde-limão davam um ar aconchegante ao local.
- Não sei, mas não sinto a menor pena dele. - respondi.
Ela esboçou um sorriso e continuou:
- Fábio e Gabriel... Queria conhecer esses irmãos. - ela complementou.
- Ué... Por que? - perguntei curiosa.
- Um é o pivô da sua separação com o Vitor e o outro engravida sua melhor amiga! Queria saber como são, aliás, em falar no Vitor você não vai atrás dele não?
- Amiga queria muito, mas não tenho coragem. Tentei ligar várias vezes para ele, pedi para que minha mãe mandasse recados e ele simplesmente não quer saber de mim e nossa... Como me dói imaginar que daqui para frente tenho que seguir sem ele. Não posso nem voltar pra minha casa do Rio. - me lamentei entre suspiros e olhares distantes.
-Você só tem que seguir sem ele se quiser afinal Luiza deixa de ser covarde, você simplesmente deixou ele te dar as costas e ir embora. - ela me corrigiu.
Calei e não completei mais nada, transportei toda minha atenção para diante do espelho que tinha o tamanho da parede num atelier pequeno e bagunçado, mas cheio de vida:
- Vai ficar linda! - a Nanda comentou.
- Legal. - tentei esboçar um sorriso de retribuição, mas não consegui.
- Cruzes, se eu dissese que você iria ficar horrível aposto que me daria a mesma resposta. - ela reclamou, pondo seus cabelos loiros por trás da orelha enquanto seus olhos verdes vasculhavam todos os cantos daquele cômodo procurando algo que eu não imaginava.
- O que foi? - perguntei.
- Não corte meu pensamento. - ela respondeu concentrada, pouco antes de correr para um pote colorido em cima de uma pequena estante preta.
Fiquei imaginando o que ela procurava enquanto observava ela pôr tudo de dentro do pote para fora, depois de um tempo então me mostrou um pequeno pedaço de papel colorido na forma de convite:
- Que isso? - franzi a testa.
- São convites para uma festa na praia eu não estava muito a fim de ir, mas vamos sair um pouco sei lá... Sabe amiga nessas horas o melhor a fazer é beber e dançar para esquecer de tudo. - ela começou sacudindo os convites com a mão direita. - A festa é hoje, você dorme aqui e mais tarde vamos! - ela continuou tentando me entusiasmar.
- Acho melhor não, nem sei se minha avó vai deixar. - comentei, apesar de ter a certeza da permissão da mãe do meu pai.
- Então tá sua adolescentezinha chata e sem graça, tenho certeza que ficar dentro de casa chorando pelo amor do Vitor deve ser bem mais legal! - ela me provocou na certeza de me contrariar.
Eu sorri e aceitei:
- Legal! Vamos comemorar então! - ela pegou uma garrafa de uísque e pôs uma dose para brindarmos:


Risadas altas e velocidade, belos trajes e cabelos impecáveis. Pus minha melhor máscara disposta a esquecer de tudo por uma única noite, eu era a Maria Luiza sem limites permiti que tudo em mim escapasse por entre meus dedos o álcool ingerido durante todo o dia me transformava em alguém com a coragem suficiente de encarar quem quer que fosse, era como se eu estivesse me observando, mas não tivesse o controle sobre mim mesma. A Nanda era a melhor companhia para o meu estado de loucura momentâneo, ela dirigiu por alguns minutos até chegarmos à praia mais bela que eu já havia visto na vida, a música eletrônica que ensurdecia meus pensamentos mais lúcidos me transmitia a um completo mundo desconhecido onde tudo perdia o controle:
- A maior parte dessa galera é da faculdade. - ela comentou, enquanto entravamos numa multidão dançante, onde alguns se beijavam.
- É o melhor lugar do mundo! - respondi pegando um drink de bebida colorida que o garçom servia.


Meus movimentos ganharam vida e juntas, eu e Nanda, dançamos o ritmo altamente contagiante de uma house-music que eu não sabia o nome, mas tinha a certeza que o cantor fizera na tentativa de que eu esquecesse o mundo e tudo que me cercava.
- Quero que o tudo se acabe! - gritei após um gole de tequila.
A Nanda sorriu e me abraçou pouco antes de dois rapazes aproximarem:
- Boa noite. - o rapaz de olhos azuis que eu já conhecia puxou conversa.
- Boa noite. - respondi procurando pela Nanda que já se atracava com o outro rapaz.
- Lembra de mim? - ele perguntou e sim eu me lembrava perfeitamente, era "o filho do dono do jornal mais vendido da capital" as palavras da minha avó descrevendo aquele menino tinham sido gravadas na minha mente e se repetiram naquele momento.
- Claro. - ele sorriu e passou seu braço por volta da minha cintura. - Pera aí, acho que você interpretou de forma errada. - tentei ser o mais gentil possível enquanto tirava seu braço da minha cintura.
- Qual seu nome? - ele perguntou.
- Luiza e o seu? - perguntei.
- Cauã. - ele me beijou o rosto e tentou me puxar para beijar meus lábios, mas desviei o rosto e percebi que aquele rapaz estava bêbado.
- Olha Cauã, não tente fazer nada ok? Não estou interessada. - respondi sendo puxada pela Nanda logo em seguida.
- Desculpa aí garotão, vamos amiga. – ela me resgatou e fomos para outro canto da festa, um lugar mais calmo.


Nos sentamos num banco que ficava ao redor da festa dando gargalhadas ao lembrar do rosto do tal de Cauã quando a minha amiga me puxou:
- Tadinho! - ela riu-se enquanto eu tomei mais um copo de uma bebida alccólica desconhecida.
Pus minha cabeça no colo da Nanda e deitei meu corpo no banco acolchoado, ficamos a observar a festa quando um rapaz destacou-se da multidão e veio em nossa direção fazia tempo que não conversávamos e eu gelei ao abserva-lo:
- Gabriel sai daqui! - rapidamente levantei.
- Luiza temos que conversar. - ele tentou dialogar.
- Esse é o Gabriel? - escutei a Nanda perguntar, mas não dei atenção meus cinco sentidos dispararam em oposição aquele rapaz.
- Luiza quero te pedir desculpas. - ele tentou argumentar, mas eu gritei algo que não me lembro e sai de perto dele como um foguete deixando a Nanda para trás.

Eu me sentia tonta e fora de mim e aquele meu estado agora me irritava, o Gabriel me fazia lembrar de tudo que eu queria e lutava para esquecer naquela noite e agora o rosto do Vitor decepcionado aparecia em cada imagem de pessoa que cruzava meu caminho, corri para fora daquela multidão assustadora molhei meu rosto com a água salgada do mar tentando recuperar minha lucidez, mas fora completamente em vão minha tentativa desesperada de voltar ao normal.

Caminhei em passos curtos até um penhasco próximo à praia enquanto me lembrava de tudo que vivi com o meu Vitor:

" - Vamos combinar o seguinte, voltaremos aqui não faço idéia de quando, mas vamos voltar! Ta bom? Vamos voltar aqui e aqui vai ser nosso ponto de partida! Aqui esta sendo o nosso final e será o nosso início! Ok?!" - Lembrei das palavras dele no dia em que nos separamos algumas lágrimas fugiram do meu controle e rolaram por meu rosto ao pensar que não teríamos mais um “ponto de partida”.

Subi as pedras do penhasco e caminhei até a ponta, senti o toque de pingos displicentes d’água enquanto meus pensamentos pareciam fazer uma retrospectiva de tudo que tinha me acontecido em tão pouco tempo:

Eu era alguém normal, uma menina de 17 anos na fase de vestibular fazendo o que a maioria dos jovens na minha idade fazem: estudando para seguir o sonho dos pais, mas sabe quando aquela pessoa aparece na sua vida e te faz sentir diferente. Então ele apareceu na minha vida, ele, o meu Vitor. Bom para dizer a verdade ele sempre esteve nela os pais dele eram meus padrinhos, a irmã dele era minha melhor amiga e meus pais o consideravam como meu irmão.

E toda essa ligação entre nossas famílias que nos tornavam quase parentes foi o que me trouxe até onde estou, lá embaixo vejo a água revolta do mar bater entre as pedras, espero cair nos braços de Poseidon..

Fecho meus olhos para encher meu peito de coragem, lembrando-me das últimas palavras de meu pai:
- Você nunca mais se aproximará dele!
Um leve passo para frente fez-me aproximar mais ainda do fim, o amor é tão ruim quando o sentimos, mas somos impeços de vivê-lo.

Levei meus olhos aos céus, deixei aquelas leves gotas d'água tocarem-me a face eu precisava esperar a coragem bater para findar tudo o que me perturbava, dei mais um passo para a frente recapitulando tudo na minha mente.

E seu tudo pudesse ser vivido novamente de forma completamente diferente? Ou se tudo NÂO pudesse ser vivido, eu não sentiria falta de algo que não sabia e talvez assim fosse melhor. Eu era um fracasso mesmo, uma verdadeira covarde com a mínima capacidade de correr atrás do meu Vitor.

Inclinei minha cabeça para frente para observar melhor as pedras logo abaixo, a água batia furiosa nos rochedos imponentes e belos que finalizavam a praia.

Gelei quando percebi que eu tinha certeza do que iria fazer, fechei meus olhos e dei meus últimos passos.

Quem esta por aqui?