domingo, fevereiro 28, 2010

Cap XXX - Casamento (Parte I)

Juntei o resto da corajem que me sobrou abri os olhos na manhã posterior a pior noite da minha vida, engraçado como tudo parece igual independentemente da nossa vontade interior de que tudo continue escuro e inatingível. Não tinha forças para me levantar e minha alma parecia se esvair aos poucos do meu corpo dessa maneira os dias passavam cada vez mais lentos e destrutivos a sensação de que algo mim me faltava me fazia beirar a loucura, algumas vezes. Nesses momentos em que nada mais fazia sentido a Nanda passou a ser minha válvula de escape pessoal que sempre me ouvia pacientemente quando eu sentia que iria explodir.

Percebi a preocupação da minha avó, ela não mais sai de casa, traz os trabalhos para serem feitos no escritório e de vez em quando me chama para andar pelo shopping da cidade embora a certeza da minha recusa é inevitável. Eu estou me tornando um vegetal e nem me importo, acordo ao meio-dia, almoço, volto a dormir, acordo às nove, janto, volto a dormir às onze, para no dia seguinte repetir a mesma rotina.
O Fábio e a Lorena não me interessam mais e havia deixado bem claro a Júlia que não estava interessada no Gabriel, mas esse fato não o fazia se interessar por ela. Aliás expliquei tudo a ela num discurso muito ruim e pesado que a deixou sem palavras e totalmente indefesa enquanto os redadores do jornal me ouviam e a analisavam com total piedade dela:
- Não me importo com ele, mas isso não faz o Gabriel gostar de você tenha um pouco de amor próprio e pare de viver sua vida em função de alguém que pouco se interessa se esta viva ou morta. Continue se arrastando patéticamente atrás dele, implorando por um pouco de atenção que ele irá continuar te ignorando... - lembro ainda hoje que estavámos num almoço com os editores do jornal da minha avó e o Gabriel estava na mesa quando ela tentou me atacar com palavras ironicas ao dizer que em menos de um mês consegui beijar um dos solteiros mais cobiçados da cidade.

O pouco tempo que meu corpo insistia em estar acordado e de pé eu me esforçava para que as pessoas não pudessem ver meus olhos inchados de tanto chorar. Eu só queria voltar e fazer tudo diferente ou simplesmente não fazer, afinal se nada tivesse acontecido eu não estaria naquela situação ruim.
- Será o casamento do século! - dona Madalena comemorou num almoço de domingo que antecedia o domingo próximo ao qual seria o matrimônio.
- Mal posso esperar, amor o vestido é lindo! Pena que você não pode ver a noiva antes do casamento. - a Lorena acrescentou acariciando as mãos do Fábio.
- Não estou me sentindo muito bem, conlicença. - me retirei e voltei ao meu quarto não aguentava tanto fingimento era peceptível o descontentamento do Fábio com toda aquela situação, mas parecia que apenas eu enxergava algo tão claro.
Me joguei na cama lembrando inevitavelmente do meu Vitor e de tudo que vivemos em tão pouco tempo:
- Não é o primeiro almoço de domingo que você faz isso. - a voz do Fábio interrompeu meus pensamentos .
- Sai daqui. - tentei ser o mais hostil possível, pus um travesseiro no rosto na tentativa de impedi-lo de me ver chorar, mas ele pareceu ler meus pensamentos:
- Isso é totalmente vão, acha que sou tão burro para não perceber o quanto você esta mal? - algo em sua voz estava diferente, mas eu não sabia ao certo o que poderia ser.
- Só vai embora, sai daqui... - supliquei sem forças para gritar, mas ele ignorou.
- Liguei para a Dani essa semana ... - o irmão do Gabriel iniciou sentando na beira da cama, continuei em silêncio - Fazia tanto tempo que não ouvia a voz dela que meu coração disparou e eu queria tanto saber como estava o bebê, como ela estava que me embolei nas palavras e acabei me sentindo como um molque de quinze anos - ouvi um sorriso triste diante da controvérsia - A sua amiga gritou comigo, mal me deixou falar e eu... - ele hesitou e logo após continuou num discurso pesado. - E eu só queria dizer o quanto ela me faz falta.
Sentei na cama e encostei minhas costas na cabeceira:
- Porque agora? Porque só agora você vem dizer essas coisas? Depois de tudo que você fez à Dani, depois de todas aquelas mensagens. Não acha um pouco de egoísmo da sua parte achar que ela deve te perdoar? - perguntei surpresa com a sinceridade dele.
- Antes era tão fácil conseguir um perdão dela, era só dizer meia dúzia de palavras bonitinhas que a menininha caía, mas ela virou uma mulher e eu mal percebi - ele lamentou-se antes de continuar - Devo estar ficando louco.
- Não sinto pena de você, aliás acho que deveria sofrer o dobro do que você a fez sofrer . - disse, fria.
Ele balançou a cabeça afirmativamente como se concordasse comigo e me encarou totamente perdido num sentimento que aparentemente ele desconhecia e o assustava, me aproximei um pouco mais e inclinei meu corpo na direção de seus olhos e repondi:
- Isso é amor.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Cap XXIX - Briga

- Com licença. - o Vitor sussurrou para meus parentes e saiu daquele lugar em passos rápidos como um verdadeiro soldado que perde uma batalha, me soltei do Gabriel e pouco me importei se minha avó notou que entre eu e o Vitor rolava mais de uma amizade, mas eu corri em direção ao irmão da minha melhor amiga para conversar cruzei o jardim e a chuva fina que tocava minha pele e fazia despencar minha sensação térmica não me era importante.
Me joguei na frente do carro dele quando o Vitor deu a partida e ele freiou em cima de mim, não liguei para as consequências que podiam acontecer se o reflexo dele não fosse tão bom:
- Sai da frente Luiza. - ele disse pondo a cabeça para fora do veículo.
- Não posso. - respondi com as mãos no capô do carro.
- Vou acelerar. - ele ameaçou.
- Me desculpa! Por favor Vitor, não faz isso! - gritei e ele não se moveu para fora do carro vermelho, as lágrimas já me traiam e embora a voz forçada de quem tenta manter a calma para raciocinar algo plausível a ser dito tudo em mim já estava fora das condições normais de um ser-humano e ali apenas o meu sentimento falava.
A chuva aumentou, mas continuei sem me importar e permaneci parada em frente ao carro dele:
- Ta bom Luiza, você conseguiu! - ele gritou e saiu de dentro do carro, descontando na porta do veículo toda a fúria que estava de mim.
- Vitor me desculpa... Eu não sei nem o que explicar! Eu e o Gabriel nos beijamos, mas não me significou muita coisa... - tentei explicar me embolando em palavras tortas e incertas, de fato o Gabriel não se compara ao Vitor. Em nenhuma hipótese eu preferiria o irmão do Fábio e o beijo apenas serviu para me comprovar que paixão é algo tão humano e sujo que torna-se completamente blasfêmico ao ser comparado a amor, pois era isso que eu sentia diante do Vitor e nada, absolutamente nada iria mudar esse fato. Minhas certezas estavam definidas, mas dizer isso numa noite de chuva, com o Vitor irritado e magoado parecia impossível:
- Cala a boca Maria Luiza! - ele gritou engrossando a voz de uma forma que até o momento eu desconhecia, emudeci logo após e permiti involuntariamente que ele cuspisse as palavras que quisesse, correndo o claro risco de me machucar. - Em pensar que pus minha melhor máscara essa noite fingindo não conhecer o Fábio, sendo o mais agradável possível com o Gabriel tudo para satisfazer você e depois de tudo que eu fiz, e olha que eu fiz muita coisa, simplesmente flagro um beijo seu com o Gabriel. - ele começou a dizer tudo num tom bastante moderado, sem alterações na voz, enquanto caminhava em minha direção. - Parabéns garotinha, conseguiu me fazer de idiota mesmo! Espero que tenha sido bom para você tudo que houve entre nós, te garanto a minha sinceridade em tudo que proferi e nunca pensei duas vezes em optar por sua felicidade do que pela minha. Sai do Rio para vir te ver... - antes de completar qualquer coisa ele riu um riso frio e contraditório e depois prosseguiu . - Para mim é um ponto final e agora sai da frente que eu vou para casa. - ele segurou meu braço e me empurrou para o lado esquerdo, voltou-se para dentro do carro e deu partida.

Sentei no meio-fio da calçada de mármore, pus as mãos na cabeça completamente perdida em pesamentos começava a sentir nojo de mim mesma e cuspi enumeradas vezes na tentativa de tirar o gosto imaginário do beijo do Gabriel, um beijo tão vazio e isignificante que eu só fui descobrir a confusão de sentimentos quando percebi que quem eu amava de verdade estava indo embora e provavelmente nunca fosse voltar para mim, escutei gritos da minha vó vindo em minha direção, mas antes que ela pudesse me alcançar fiz a última tentativa desesperada de resgatar o meu Vitor, corri todos os quilômetros necessários até o hotel em que ele estava hospedado pedindo mentalmente a Deus o tempo necessário para que eu pudesse explicar, cruzei ruas totalmente desconhecidas e a chuva forte não me era um obstáculo eu só queria corrigir meu maior erro, viver sem o meu Vitor seria torturante, saber que outra menina podia tomar meu lugar no coração dele e o pior de tudo imaginar que ele pudesse lembrar de mim como uma decepção fazia meu coração sangrar e meu sangue fervilhar.
Eu estava com raiva de mim mesma, com raiva do Gabriel e raiva de tudo que pensei sentir por ele. Que engano, que falha...

O meu celular não parava de tocar, hora era minha vó, hora meu tio, hora o Gabriel, aliás este último atendi e cuspi todos as palavras mais dolorosas e ruins que eu poderia dizer, porém ele não se importou e antes que eu desligasse escutei um pedido de desculpas que preferi não responder.

Meus pés e meus ossos pareciam não aguentar mais e a minha respiração tornou-se pesada afinal eu não estava acostumada com o ritmo acelerado dos meus movimentos, mas ignorei qualquer sinal de limite emanado pelos meus cinco sentidos e continuei até chegar à pracinha do centro bem próximo do hotel, eu já estava encharcada, meu belo vestido branco sujo de lama e minha sandália de salto na minha mão.
O gerente do hotel me impediu de adentrar o lugar naqueles trajes, em pensar que na noite anterior foi o mais agradável possível agora mandava os seguranças me porem para fora e ameaçava chamar a polícia:
- Vitor! - gritei por seu nome quando o vi na recepção provavelmente fechando a conta, ele olhou para trás e ascenou para que o gerente permitisse os seguranças de me soltarem.

O meu Vitor parecia um príncipe enquanto caminhava em minha direção, os outros hóspedes não paravam de encarar meu patético ato desesperado teve um senhor que fotografou numa câmera profissional enquanto a maioria devia me criticar em voz baixa:
- O que você esta fazendo aqui? - ele perguntou.
- Não conseguirei ficar sem você. - comecei e ele segurou minha mão, transmitindo seu calor para minha pele gelada:
- Vai se resfriar sua louca. - ele disse, pondo de lado a mala de mão que segurava e sem se importar em molhar seu belo traje social combinando perfeitamente com um sobretudo me abraçou e senti seu coração disparar. - Me responde uma coisa e por favor fale a verdade, você já sentiu alguma coisa pelo Gabriel? - ele me perguntou e eu gelei, não conseguiria mentir para ele e ascenei a cabeça fazendo que "sim" ele não disse mais nada e uma voz feminina me impossibilitou de me jogar aos pés dele e implorar para que ficasse:
- Querida, fiquei preocupada. - era minha avó e meu tio acompanhados do senhor Davi.
Mesmo sem entender nada a mãe do meu pai me abraçou forte tentando me transmitir força enquanto eu assistia o meu amor, meu único e verdadeiro amor ir embora da cidade, do meu mundo, da minha vida sem olhar para trás.

Cap XXVIII - Beijo roubado

Embora eu quisesse evitar aqueles olhares e principalmente aquela situação, tudo fugiu do meu controle e aqueles dois rapazes frente-a-frente pareciam que iriam se matar - ou me matar, ainda não sei bem.
Pigarreei e passei a mão pelo cabelo pouco antes do Vitor agarrar meus dedos e aperta-los sem a menor noção da força que ele aplicava sobre a minha mão direita, puxei levemente meus dedos enquanto os dois rapazes encaravam-se furiosamente:
- O que esse cara esta fazendo aqui? - o Vitor perguntou e o Gabriel sorriu de leve.
- Responde a ele Lu, o que eu faço aqui. - o Gabriel manteve seu auto-controle frio e passou a resposta para mim:
Balancei a cabeça negativamente enquanto o Vitor me olhava esperando pela resposta:
- Ele mora na cidade amor. - respondi e o Vitor arregalou os olhos parecendo não acreditar no que ouvira.
Flexionei os lábios expressando meu total desconforto, enquanto pensava numa saída para aquela situação, mas uma gargalhada estranha e sombria vindo do Vitor interrompeu minhas ideías:
- Vai lá amor mais tarde eu volto! - o Vitor me beijou de leve os lábios e arrancou com a carro, eu permaneci estática sem entender o motivo que fizera o meu Vitor agir daquela maneira. Em uma hora ele parecia que iria explodir e logo em seguida tornou-se indiferente a qualquer coisa:
- Teu príncipe. - o Gabriel comentou debochando da cena.
Meu rosto esquentou de raiva e num gesto de fúria empurrei o corpo do Gabriel para trás, mas ele pareceu não sentir aliás muito pelo contrário esboçou um sorriso satisfeito:
- Porque você fez isso? - perguntei, quase que gritando.
- Isso o que?
- Não se faça de hipócrita! Afinal o que você quer Gabriel? Me enlouquecer?
- Te enlouquecer? Claro que não... - ele manteve seu porte aparentemente inabalável de rapaz controlado e altamente atraente, puxou meu corpo pelo braço quando fiz menção de tocar seu rosto numa bofetada. - Você e eu sabemos quem esta sendo hipócrita aqui, então faça o favor a si mesma e seja sincera, comigo, com o Vitor e com você mesma. - ele susurrou as palavras exatas que me fizeram calar até o momento em que ele me deixou sozinha e voltou a caminhar na direção da casa da minha avó. - Ah, e sua avó pensa que você foi dormir na casa de uma amiga.

Aos poucos começava a me perguntar porque fiquei parada deixando o Gabriel dizer o que queria da forma como queria e acima de tudo qual o motivo que me fazia pensar no irmão do Fábio como alguém interessante o suficiente para confundir meus sentidos:
-Você está apaixonada pelo Gabriel! - a Nanda simplificou tudo de uma forma bastante prática, ele e eu conversavámos pelo telefone durante essa tarde.
- Não estou apaixonada por nínguem, aliás estou sim e essa pessoa é o Vitor.
- Ué eu não disse que você não gosta dele, você ama o Vitor sim Luiza, mas esta apaixonada pelo Gabriel. Amor e paixão são completamente diferentes, não é porque você ama um que não gosta de outro.
- Não Nanda isso é um grande absurdo eu não gosto, não estou apaixonada pelo Gabriel. Não mesmo, ontem eu e o Vitor fizemos amor tem prova maior do meu sentimento por ele? - perguntei, enquanto dava voltas circulares em torno do meu quarto como se procurasse respostas cabiveis e que satisfizessem minha mente e me mostrassem a total falta de sanidade naquela situação.
Escutei uma risada alta e depois a Nanda continuou:
- Não mistura uma coisa com a outra Luiza, você gosta sim do jeito do Gabriel, do corpo, da forma como ele te deixa... Paixão é corpo, amor é alma. Agora você tem que saber quem você quer do seu lado. - ela avisou enchendo minha mente de dúvidas, desliguei logo após e me joguei na cama.

Voltei meus olhos ao céu que escurecia rapidamente, o tempo em Vale das Laranjeiras é bastante estranho para alguém acostumado a dias quentes costantemente, pus a coberta até a altura da cintura e me aninhei na cama pouco antes de encarar a carta misteriosa que dispunha no escritório da minha avó e que eu não havia terminado de ler, puxei o envelpe entre os dedos esticando-me ao máximo para não sair da posição confortável que eu me encontrava:

-

15 de junho de 1960

Olá amor, muitas coisas foram ditas desde o nosso último encontro e eu sinto que ainda me sobrou uma pequena porção de palavras muito mais importantes e necessárias do que as que eu disse.
Acho que não preciso explicar o quanto você é importante na minha vida e nem muito menos o que você significa para mim, afinal você me conhece muito bem e sabe perfeitamente que não gosto em insistir em coisas óbvias e muito além disso, nunca necessitamos de formalidades para sabermos o que sentimos um pelo outro.
Seus pais sempre sonharam que você se casasse com um homem de posses, de boa família e amigos. Bom... Acho que não sou bem assim né? Para lhe dizer a verdade você também nunca foi o esteriótipo de mulher que pensei para mim, de boa família, educada para casar e ter filhos . Em resumo uma garotinha e quem diria que essa garotinha fosse roubar o coração de um malandro?
Vou admitir uma coisa, pensei várias vezes em te roubar, nos nossos encontros da madrugada te pedir em casamento e partir para algum lugar onde pudessemos ser felizes sossegados, sem pais, sociedade e essas suas amigas chatas e mimadas te enchendo a cabeça contra mim, mas infelizmente as coisas não podem ser como nós queremos e quem estar partindo sou eu, deixei meu coração em Vale das Laranjeiras e de ti levo apenas a lembrança simbolizada através de um coração de ouro como pingente, aquele que você carrega no pescoço e eu como pulseira, nunca esquecerei de você e das nossas juras eternas, só lhe peço que faça a escolha certa quando for casar com um homem de boa família e amigos queria muito ser esse homem, mas não sou, minha história e meu fardo não me permitem.
Então agora enquanto vejo o por do sol parto para um dia quem sabe regressar e te ter novamnete, nunca me esquecerei de tudo que vivemos...
Bom é isso amor, te amo mais que a vida e a morte e tenho a clara certeza que nunca lhe esquecerei minha menina dos olhos.

Te amo

Alberto

-


- Alberto? Minha avó? - fiquei me perguntando por horas o que poderia ter acontecido, se aquela carta era de fato para a minha avó, aquela mesma mulher fria, mãe do meu pai, dona do jornal mais famoso da cidade, aquela mulher que parecia não crer no amor e nas coisas simples da vida.
Acabei adormecendo depois de um tempo, a chuva já batia fina na sacada e um vento gelado esfriava meu quarto, despertei com o toque do celular numa música personalizada para o meu Vitor, ele queria saber que horas seria o jantar.

Nunca imaginei que a minha ideia de jantar pudesse ser tão constrangedora, minha avó, o Vitor, Gabriel, Fábio, Lorena, tio Ramon e Madalena todos juntos numa mesa cheia de comida e dois cartiçais de enfeite. A situação poderia ser até engraçada se não fosse trágica, o Fábio não movia um músculo se quer, minha avó pensava que o Vitor fosse apenas um amigo do Rio, a Lorena não sabia quem era o Vitor e eu até poderia dizer que ela estava flertando com o meu Vitor:
- Se quiser alguém para te mostrar a cidade não pense duas vezes em me chamar. - a ruiva cochichou no ouvido do irmão da Dani quando conversavámos todos na sala de estar pouco antes do jantar, aquele convite me irritou profundamente, mas não transpareci nenhum pouco a não ser quando ela beijou o canto dos lábios dele, nesse momento tive que dar um leve empurrãozinho nela e deixar claro que ele já tinha dona, embora não ousei citar nomes:
- Pelo menos disfarça. - ele cochichou.
- Ela me irrita, se ela tocar mais uma vez em você fica sem cabelo. - respondi, enquanto caminhavámos até a sala de jantar, ele sorriu parecendo gostar do meu pequeno ataque de cíumes.

E estavámos os oito lá, minha avó, tio Ramon e Madalena fazendo várias perguntas ao Vitor, pareciam tê-lo achado interessante, o Gabriel não tirava os olhos de mim o que me encomodava bastante e eu não conseguia esquecer das palavras da Nanda:
- Paixão é corpo, amor é alma. Agora você tem que saber quem você quer do seu lado. - o Gabriel estava tão interessante e charmoso, parecia emanar calor do seu corpo e me puxar para perto de si, o Vitor mantinha seu belo porte de homem adulto tinha um cheiro perfeito e mantinha meu auto-controle quase que impossível, eu queria muito beijá-lo e me aproximar mais, como um verdadeiro casal de namorados, mas não podia:
- E então Vitor, o que esta achando da cidade? - o Gabriel perguntou, eu gelei.
- Bela cidade. - o Vitor respondeu num tom informal e casual.
- A Luiza chama bastante a atenção por aqui, ela é diferente das meninas da cidade. - o Gabriel continuou.
- Deve mesmo, afinal ela é linda.
Pigarreei e virei o copo de vinho tinto num só gole posto na mesa para melhor degustação, aquela situação estava complicada e eu ainda não tinha entendido o motivo que fizera o irmão do Fábio estar ali.
O jantar prosseguiu num clima pesado para mim e super agradável para minha avó, meu tio e Madalena, em parte esse fato era bom pois os três não suspeitaram de nada.
- O Fábio mora no Rio também. - minha avó comentou e o Fábio arregalou os olhos, o Vitor ainda não sabia que a ruiva atirada era noiva do pai do filho que a Dani esperava aliás se soubesse aquele jantar certamente acabaria em sangue.
- Mora mesmo Fábio? - o Vitor perguntou fingindo surpresa e até eu mesma me surpreendi.
- Aham. - ele respondeu emitindo um som antes de se retirar da mesa com a desculpa de estar se sentindo mal, me aliviei quando ele e a Lorena foram embora.
O Gabriel continuou a provocar o Vitor fazendo perguntas completamente inapropriadas e embora o Vitor mantinha sua pose inabalável aquilo já me irritava, o Gabriel não parecia mais o rapaz simpático e doce que eu conhecera a um tempo atrás, arrastei ele para o escritório da minha avó quando meu tio, Madalena e minha avó conduziram o Vitor a conhecer a mansão:
- Para com isso Gabriel?! - gritei assim que fechei a porta do lugar.
- Parar com o que Lu? - ele foi fingido e num sorriso malicioso conseguiu arrancar o meu último fio de paciência.
- Gabriel eu não gostod e você da forma como gosto de Vitor, não queira competir com ele!
- E quem disse que eu quero? - ele indagou mudando de tom.
- Então porque você esta fazendo isso? Afinal Gabriel para de provocar o Vitor, ele nunca te fez nada... - abaixei a voz.
- Eu sei.
- Então para!
- Me desculpa Luiza. - ele se aproximou de mim segurou minha cintura, tentei lhe empurrar, mas a força que eu aplicava parecia tão vã e inútil que desisti de tentar me impor contra ele. - Não tenta sair, pois você não conseguirá. - ele avisou, aproximando seu rosto do meu virei minha face, mas ele puxou meu queixo e após um sorriso beijou meus lábios antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.

Escutei um pigarro interrompendo aquele momento e quase não acreditei quando encarei meu Vitor acompanhado da minha avó, meu tio e Madalena na porta do escritório.

Cap XXVII - Primeira vez

Fiquei encarando-o sem gesticular qualquer coisa, permaneci hipnotizada por alguns segundos enquanto ele me olhava minuciosamente acabei esboçando um sorriso quando tive a certeza de que era o meu Vitor, senti seu toque quente encostar na minha mão e eu levantei para lhe abraçar, queria tanto sentir seu corpo que apertei meus braços num abraço tão necessário que meu coração disparou enquanto aos poucos eu sentia cada traço dele se encaixando à mim:
- Não aguentava mais ficar sem te ver. - ele sussurrou no meu ouvido e eu quis lhe beijar de forma avassaladora, mas me controlei e limitei meus atos a me sentar na mesa de jantar.
- Saudades de você! - finalmente consegui juntar algumas palavras, mas eu não conseguiria dizer nem metade de tudo que meu coração gritava naquele instante.
- Lu como você ta linda. Não estamos nem tanto tempo longe, mas eu contei os segundos para vir te ver, você não imagina a certeza que eu tenho de que te amo. - ele disse olhando no fundo dos meus olhos e eu podia jurar que ele confidenciava esse fato para a minha alma.
- Vitor, nossa... Só Deus sabe como esses dias estão sendo dificeis. - eu desabafei, tentando contar tudo que eu havia passado, mas a presença dele e o estado de nirvana que ele me deixava tornava as palavras inuteis, afinal o que contar para alguém que parece ler seus pensamentos?
- Estou aqui agora amor. - ele tocou na minha mão e me disse numa afirmação que me encheu de certezas. - Então é assim que você vem para se encontrar com um provável sequestrador pevertido? - ele perguntou rindo-se pouco depois de pedir os pratos.
- Parou para pensar que o sequestrador pevertido é você? - brinquei rebatendo sua pergunta, ele me sorriu e eu continuei - E que história é essa de você sumir de casa? E as meninas da rua, a Aline... Aposto que deve estar chovendo mulher! - comentei impossibilitada de evitar o ciúme expresso.
Ele respondeu:
- Deixa de ser ciumenta, eu já disse isso uma vez: todas as mulheres tem o mesmo defeito, elas não são você. E quanto ao meu sumiço, o que você esperava que eu fizesse depois de receber um e-mail daquele? Eu adiantei meus trabalhos e vim o mais rápido que pude. Mas quero saber também, não apareceu nenhum espertinho não né? Já me basta aquele Gabriel que graças a Deus você não vai ver tão cedo!
Eu pigarreei e hesitei antes de dar inicio a qualquer coisa, achei melhor não entrar num assunto que certamente causaria desconforto de ambas as partes naquele momento eu só queria saber dele, do meu Vitor e nada mais parecia ter muita importância:
- Ta com ciumes é? - brinquei e ele piscou o olho direito.
- Claro que não amor, só estou cuidando do que é meu.
- Mas como você descobriu onde mora a minha avó?
- A Dani pediu o endereço para a sua mãe, ela disse que iria te mandar uma carta. Em falar nela, a minha irmã esta morrendo de saudades fala de você todo dia, aliás acho que mesmo se eu quisesse te esquecer não conseguiria. Todo dia ela me pergunta se nós nos falamos.
Eu sorri enquanto a imagem da minha melhor amiga tomava forma na minha mente, tudo com a Dani parecia mais divertido e eu sentia falta dos nossos momentos juntas.
- É engraçado... - ele comentou algo que parecia pensar de si para si.
- Engraçado o que? - perguntei.
- Eu tinha tantas coisas para lhe dizer, mas você arranca todas as palavras da minha boca... Eu um homem já feito me sinto um moleque do seu lado. - ele comentou num tom de voz doce.
Não emendei mais palavras, queria ficar apreciando sua beleza e deixar me levar pela magia da sua presença.
O restaurante começou a esvaziar quando o senhor Davi me telefonou, eu estava tão dispersa que a noção de tempo não me era importante só queria continuar com o meu Vitor se possível para sempre:
- É o meu motorista, ele tem que ir embora. Hoje não é nem dia de trabalho pra ele.
- Então deixe-o ir, eu te levo para casa. - o Vitor foi prático e eu fiz o que ele me pediu sem hesitar, dispensei o motorista e continuamos no restaurante até o gerente gentilmente nos informar que o lugar fecharia em meia hora.

Fomos para a suíte onde o meu Vitor estava hospedado, um quarto enorme com um banheiro perfeito combinando harmoniosamente com uma banheira branca de cerâmica bem trabalhada. Da sacada era possível ter uma visão panorâmica de toda a pequena cidade de Vale das Laranjeiras, a praça ficava ali perto e o ar levemente frio relaxava meus músculos:
- Lindo não? - ele me perguntou, encostando-se na sacada.
- Olhando daqui eu diria que é um pedaço do paraíso. - comentei fascinada com toda aquela perfeição que unia divino e humano.
- Olhando daqui eu diria que é tudo que eu preciso. - ele acrescentou abraçando-me por trás.
- Te amo Vitor. - eu me virei e beijei seus lábios num toque calmo.

Senti sua mão direita pausar na minha cintura e num círculo descer até a barra do meu vestido, seus dedos da mão direita tocaram minhas pernas nosso beijo tornou-se mais forte e eu gelei quando percebi que ele dedilhava partes do meu corpo que não haviam sido tocadas por nenhuma outra pessoa, suas mãos subiram levemente até a altura do meu busto sua mão esquerda tocou o zíper do vestido e ele me conduziu com seus passos até bela cama de casal que ficava no centro da suíte, parecia que eu flutuava num êxtase profundo e a vontade de 'quero mais' quase me impedia de raciocinar eu tinha a certeza de era ele que minha alma havia escolhido, mas relutei em encostar meu corpo na cama, parte dessa minha insegurança eu devia ao fato de que ele parecia saber perfeitamente o que estava fazendo e deixá-lo continuar era a certeza de todas as incertezas que uma menina virgem tem em relação a sexo. E se eu engravidasse? E se me arrependesse? E se fosse ruim para ele? E se ele descobrisse que na verdade não me amava?
Ele era bastante experiente nesse assunto até porque já era homem feito e eu apenas uma garotinha imatura e cheia de dúvidas, o meu futuro completamente incerto e o dele totalmente promissor, então o que ele estava vendo em mim de tão atrativo? Nem o corpo perfeito eu tenho? Muito menos sou a mais bonita ou a mais interessante que ele já conheceu, aliás que qualquer pessoa já conheceu. Então o que ele estava vendo em mim? Ele poderia estar confuso de seus sentimentos e eu tinha a certeza do que sentia, e todas essas indagações fizeram meu corpo tremer quando senti o colchão da cama tocar minhas costas:

- Amor, esta tudo bem? - ele me perguntou pausando todos seu toques macios e provocantes.
- Mais ou menos. - respondi deitada de frente para ele.
- Olha Luiza, não precisamos fazer nada ta bom? - ele comentou, tirando seu corpo forte e perfeitamente definido de cima do meu.
- Não é isso... - iniciei algo que eu procurava mentalmente uma explicação.
- Sério amor, se eu disser para você que não quero fazer nada estaria mentindo, mas a sua vontade vai sempre prevalecer nesse assunto. Quero que isso seja tão bom para você quanto será pra mim... - ele explicou abrindo uma garrafa d'água que ficava no frigobar da suíte - Eu só preciso de um minuto para me recompor tá? Você me deixa tão... tão vulnerável. - ele comentou enquanto bebia todo aquele líquido incolor.
Ajeitei meu vestido e envolvi seus ombros nos meus braços num abraço suave parecia que todas as minhas dúvidas em relação a isso haviam se dissipado. Beijei sua nuca e percebi sua pele arrepiar, ele sorriu sem jeito e eu sussurrei no seu ouvido esquerdo:
- Tudo bem, tenho certeza agora.
- Sério amor, se você não quiser eu espero o tempo que for necessário.
- Tenho. - balancei a cabeça reafirmando e ele me sorriu de forma charmosa e sem dizer nenhuma palavra me puxou para mais próximo e me beijou dando leves mordidas no meu pescoço.

Despertei com os primeiros raios de sol que invadiam o quarto e aqueciam minha pele, meu corpo repousava ao lado do Vitor e ele parecia um anjo dormindo. Fiquei apreciando toda a sua bela forma masculina meu coração parecia mais calmo e minhas mãos acariciaram seu peito descoberto, beijei sua face quando seus olhos se abriram:
- Amor, bom dia.- ele me disse, sonolento e disperso.
-Bom dia.
- O que esta fazendo?
- Pensando no que de tão bom eu fiz para merecer alguém como você.
Ele esboçou um sorriso singelo e me apertou entre os braços, seu hálito aqueceu meu ouvido e eu beijei seu rosto:
- Obrigado por entrar na minha vida. - ele sussurou.
- De nada! - respondi num tom divertido antes de me levantar enrolada num lençol rosa bebê.
- Aonde você vai? - ele perguntou.
- Para casa, minha avó deve estar me caçando!
- Ahh não amor, fica comigo! - ele pediu me fazendo a feição mais doce do mundo.
Beijei seu lábio inferior e continuei:
- Não posso, mas vai jantar lá em casa! Te amo muito, mas não dá.
- Claro que sim amor, eu te levo em casa tá?
- Ta bom. - respondi.
Após o café da manhã no restaurante fomos para a casa da minha avó, alguns vizinhos caminhavam entre as belas árvores, outros voltavam da padaria com sacolas de pães quentes e cheirosos, de certa forma me senti bem naquele ambiente todos ali preservavam sua individualidade e não me encaravam com feições de reprovação, eu e o meu Vitor éramos apenas mais um casal sem comentários, discurssões e avaliações dos outros.
Pedi para que ele estacionasse na esquina da casa da mãe do meu pai e descemos do carro ele me beijou levemente e eu o abracei forte:
- Bom dia! - a voz do Gabriel interrompeu nosso pequeno momento de paz e observei o Vitor enfurecer de uma forma que eu nunca havia visto antes.

Quem esta por aqui?