- Ela esta com hemorragia interna! - ouvi um homem vestido de para-médico correndo com alguém numa maca acompanhado de outras pessoas igualmente vestidas.
A chuva molhava meu rosto, embora meu corpo estivesse imóvel podia sentir cada músculo se contorcer de frio, a visão estava meia turva e eu não conseguia ao certo saber se aquilo ao meu redor era real ou tudo não se passava de um devaneio da minha mente, a calma que me invadia me assustava, ninguém de familiar estava ali e ao redor eu podia ouvir sirenes, pessoas perguntando o que havia acontecido e policias pedindo aos pedestres para manter a distância e a única coisa que eu sabia era que eu estava no meio de toda aquela loucura.
- Você ficará bem minha querida! - uma mulher me disse penetrando seus olhos azuis nos meus e eu acreditei, ela parecia outra para-médica.
- O que... Aconteceu? - perguntei tentando refazer na minha mente o que havia acontecido.
Ela segurou na minha mão, mas antes de responder um homem vestido de policial interrompeu:
- Conseguimos entrar em contato com os pais das meninas. - e então fui posta dentro da ambulância acompanhada de um senhor que eu nunca havia visto na vida, ele aplicou algum tipo de injeção que me deixou sem sensibilidade nenhuma.
Uma lágrima escorreu de meu rosto, não conseguia compreender nada que estava havendo e a cada segundo a situação ficava mais confusa, eu não me lembrava do motivo que me fazia estar passando por aquilo.
- Você bateu a cabeça muito forte, mas não houve nada de mais grave. - ele me disse pouco antes de eu adormecer.
Quando reabri meus olhos uma luz branca e forte a poucos metros de mim iluminava meu corpo, a minha cabeça dóia, olhei ao redor e alguém dormia num sofá que ficava no canto do quarto onde eu estava. Consegui perceber que aquele lugar era um hospital, um quarto de hospital:
- O que aconteceu? - perguntei, sentando na cama.
A luz iluminou a face daquele homem e eu pude reconhecer meu pai, com a feição pesada e cansada ele se aproximou e me abraçou tão forte que senti meus ossos estalarem:
- Amor, filha... Te amo tanto, fiquei com medo quando soube o que aconteceu com você e a Dani! - ele desabafou e as lembranças vieram a minha mente como um soco.
O tiro, o grito, aquele homem assustador e o empurrão:
- Pai, pai! A Dani, ela me empurrou, aquele tiro era para mim! O que aconteceu com ela? Eu bati a cabeça e ela? E aquele homem?! Pai cadê a Daniele?! - eu gritei enquanto chorava desesperadamente querendo uma resposta, uma explicação.
Ele segurou nos meus ombros e não encarou meus olhos, eu sabia que algo ruim estava acontecendo:
- Querida a Dani esta entre a vida e a morte, passará por uma cirurgia para ver se salvam o bebê.
Eu congelei e por um breve instante perdi a noção de realidade, não ouvi mais nada, não vi nada apenas me afundei em lembranças, em momentos que tive com a minha melhor amiga e ali minha alma permaneceu por algum tempo que se assemelhava a eternidade.
- Luiza, filha! - meu pai me sacudiu, assustado.
- Pai? Por favor fala que é mentira, diz que os médicos estão errados... Por favor pai, diz que é um engano... - implorei, mas ele permaneceu calado e me abraçou quando pareceu que eu não aguentaria mais.
Fiquei em observação pelo resto da noite e na manhã seguinte tive alta, na verdade estavam mais preocupados com meu estado psicológico do que com meu corpo físico (ao qual não havia ficado e menor cicatriz). Vi o desespero dos meus padrinhos, do Fábio e meus pais e a sensação de mãos atadas me destruía por dentro e tudo piorou quando foi diagnósticado um quadro tão grave para a Dani que qualquer tipo de cirurgia seria fatal:
- Se eu pudesse mataria esse cara! - o Fábio explodiu numa conversa que eu tinha com ele no meu quarto de casa, eu estava encostada na cama e ele sentado numa cadeira próximo do computador.
Eu permaneci quieta enquanto observava as lágrimas rolarem pelo seu rosto cansado, suas olheiras faziam a cor de seus olhos se apagarem.
- É o meu filho e a... - ele pausou como se procurasse a palavra certa que definia a minha amiga e a relação dos dois - e a mulher da minha vida. - ele respondeu com a voz firme demonstrando toda a certeza que tinha daquela afirmação. - Luiza não sei mais o que fazer, não consigo mais dormir, não como, não trabalho... - ele apoiou os cotovelos no joelho e a cabeça com as mãos, parecia tão perdido, tão menino que tive de segurar a vontade de chorar e o abracei tentando transmitir uma falsa certeza de que tudo ficaria bem.
- É a minha melhor amiga e o meu afilhado. Deus irá nos ajudar Fábio, tenho certeza. - eu sussurrei em seu ouvido e beijei seu rosto.
Ele me encarou e forçou um sorriso fingindo acreditar:
- Vou em casa tomar banho e volto para o hospital mais tarde.
- Ta bom. - respondi com o coração fraco e a mente martelando a imagem do sorriso da minha amiga e de repente me deparei com a vontade de ir para a casa dos meus padrinhos mesmo sabendo que ninguém estaria lá.
" - Sabe... Nos momentos mais difíceis você se transforma numa rocha e tenta desesperadamente transmitir a força que você não tem para os outros só que isso te destrói Luiza e você nem faz idéia de como isso é prejudicial. - lembro da voz da Dani numa conversa que tivemos na minha sala do jornal da escola quando tínhamos dezesseis anos.
- Para de ser louca Dani, só não sou adepta dessas demonstrações de fraquezas humanas em público. - respondi fazendo pouco caso de seu conselho.
Lembro como se fosse ontem que ela balançou a cabeça negativamente e me abraçou ignorando minha ironia.
- Idiota, pode chorar eu sei que você não aguenta mais essa sua relação com seu pai e tenta ser o mais racional possível para não afetar sua mãe. - nessa hora eu a abracei e deixei toda a mágoa que sentia do meu pai esvair pelos olhos em forma de lágrimas."
Deitei na cama da minha amiga e agarrei seu elefante de pelúcia que um ex-namorado havia lhe presenteado, abri a primeira gaveta de seu criado mudo onde ela guardava as cartas de amigas e escolhi uma colorida com giz de cera de vários tons:
-
Rio, 20/05/2004
Dani,
Olha não quero parar de falar com você por causa do que o Leonardo disse, ele que é bobão. Não estou disputando a atenção dele com você, amiga ele gosta de você e não de mim.
Ah detesto esses meninos! Ah Dani resolvi nunca beijar na boca, aqueles beijos que seu irmão dá nas namoradas dele me enjoam!
Te amo!
ass.: Maria Luiza
-
Deixei um sorriso de saudade iluminar meu rosto quando me lembrei do Leonardo, nosso primeiro amor um menininho de treze anos com espinhas no rosto e voz fina.
- Ai meu Deus, ajuda a minha amiga. - sussurrei antes de adormecer na cama dela.
Fiquei um dia inteiro no hospital observando meu padrinho, a madrinha, Fábio, meu pai e minha mãe e tudo pareceu piorar depois que a tia Sílvia passou mal e desmaiou na recepção. Uma dezena de enfermeiros correram com ela, minha mãe gritou em desespero e eu sai dali de dentro.
Eu não conseguia mais ficar um minuto ao lado das pessoas que mais amava e não poder fazer nada.
- O que ela te fez? Quer dizer a Dani sempre foi uma pessoa tão maravilhosa e VOCÊ deixa uma coisa dessas acontecer com ela? Aí? Porque não me deixou tomar aquele tiro? Afinal ela ta grávida, conseguiu se resolver com o grande amor da vida dela e... - eu encarava o céu escuro e nublado enquanto dava voltas pelo estacionamento do hospital e gritava para cima. - Merda de lugar, porque eu não ouvi meu sonho! - continuei, agora olhando para baixo quando aquela voz interrompeu meus murmúrios.
- Luiza?
Senti por um milésimo de segundo meu coração parar quando encarei seu rosto e seus olhos, paralisei por completo meus movimentos e o analisei por um tempo relativamente longo, era ele mesmo e ainda mais bonito, tinha feito uma pequena tatuagem escrito algo em letras japonesas, o seu cabelo liso estava cortado, nossa... Como o Vitor é bonito, ainda não entendo o que ele viu em mim - talvez nunca entenda.
Então me joguei em seus braços e apertei meu corpo contra o dele sentindo nossas batidas se unirem em uníssono como se fôssemos apenas um, deixei seu perfume penetrar em minha pele e pela primeira vez em muito tempo me senti realmente completa de forma que nada mais parecia que podia dar errado. Senti suas mãos firmes acariciarem minhas costas e seu hálito frio arrepiar meus pêlos quando ele tocou meu rosto com os lábios num beijo de saudade:
- Eu vim o mais rápido que pude, como isso foi acontecer Luiza? Onde estão meus pais? E seus pais? E a minha irmã, como ela esta?! - ele encarou meus olhos parecendo tão perdido, mas eu estava quieta, calada, refazendo na mente tudo que estava acontecendo.
- Minha mãe e a madrinha estão lá dentro os outros foram em casa. - enfim consegui dizer.
Ele segurou minha mão como quando fazíamos quando estávamos juntos e eu o levei até a recepção do hospital onde a madrinha e minha mãe estavam, as duas o abraçaram forte e eu o vi chorar enquanto minha mãe contava tudo que havia acontecido.
- Você fez tantas coisas boas pela Daniele, acho que devo a você ela e o Fábio estarem tão bem hoje. Quer dizer... acho que se não fosse você falar ela acabaria abortando o Luiz Felipe, o Fábio estaria em algum lugar desse país e a minha filha sentiria-se destruída por dentro. E olha como eu retribui? Proibi você e o meu filho de ficarem juntos... - tia Sílvia dizia enquanto levava à boca a décima xícara de café, nós duas conversávamos na pequena cafeteira vinte e quatro horas em frente ao hospital, seus olhos estavam fundos, sua voz fraca.
- Madrinha não se culpe... - tentei argumentar, mas ela parecia não se importar com o que eu dizia e continuava:
- E se tudo fosse diferente? Quer dizer e se você e o Vitor estivessem juntos? A essa hora eu estaria com o meus dois filhos felizes e bem. O Vitor ele só foi para Nova Iorque para ficar longe de você, te esquecer... Ou pelo menos tentar, porque pela forma como ele te olhava lá dentro deu para perceber que não conseguiu...
- Tia, vai tudo ficar bem. - segurei suas mãos e fixei meus olhos nos seus.
- É... - ela respondeu, sem acreditar nas palavras que proferia.
- Vai dormir um pouco, deixa que eu e minha mãe ficamos no hospital. - eu disse diante da sua face cansada, ela me beijou o rosto e agradeceu.
Quando voltei para a sala de recepção do hospital apenas o Vitor havia, minha mãe aparentemente sumira com minha tia e eu congelei ao vê-lo sentado num dos sofás, usando um blusão social e uma calça djeans que combinava impecavelmente com seus all-stars marrom. Percebi como as duas recepcionistas cochichavam enquanto davam aqueles risinhos insuportáveis de fêmea no cio, a mais nova lançava olhares e mordia os lábios inferiores tentando chamar a atenção dele:
- Cadê a minha mãe? - perguntei sentando-me na frente dele exatamente na direção das duas mulheres, pedi mentalmente aos céus que a visão do meu Vitor fosse tampada.
- Disse para ir para casa, eu fico durante a noite aqui. Só vou embora quando meu sobrinho e minha irmã estiverem fora de perigo. - ele respondeu jogando a revista que lia para o lado.
- Você chegou de viajem hoje, deve estar cansado. Vai para casa Vitor, eu fico.
- E você quase tomou um tiro. - ele respondeu.
- Sua irmã salvou a minha vida, é o mínimo que eu posso fazer. - segurei suas mãos involuntariamente e ele encarou meu toque por um segundo.
- O que você estava fazendo hoje, no estacionamento?
Eu sorri um sorriso triste e respondi:
- Reclamando com Deus, como se isso fosse adiantar né?
- Às vezes funciona, temos que tentar de tudo amor. - ele me disse deixando escapar a forma como me chamava quando estávamos juntos. - Quer dizer... Luiza, desculpe é que tudo isso me deixou meio perturbado. - ele balançou a cabeça.
- Tudo bem, esquece.
- Nossa como ele é bonito. - uma das duas recepcionistas disse em alto e bom som sem mover um músculo do lugar.
Olhei para trás e meus olhos as fuzilaram:
- Relaxa Lu, elas já me chamaram para tomar café umas sete vezes.
- E você aceitou? - perguntei tentando ao máximo fugir do tom de cobrança, mas não consegui e ele percebeu meu ciúme.
- Claro que não, pelo amor de Deus minha irmã esta entre a vida e a morte e eu vou tomar café com uma recepcionista bonita? Tem hora para tudo.
Antes de dizer qualquer outra coisa um homem trajando um jaleco branco interrompeu nossa conversa com um sorriso nos lábios:
- Boas noticias, iremos operar e tirar o bebê e posteriormente removeremos a bala que esta alojada no pulmão.
- Sério?! Quer dizer então que a Dani vai sobreviver? - quis confirmar, abraçando o Vitor.
O médico pigarreou antes de responder, coçou a cabeça de cabelos brancos e nos encarou:
- É uma cirurgia arriscada, podemos assegurar que a criança ficará fora de perigo, mas a sua amiga... Bom... Ela tem sessenta por cento de chance de sobreviver.
- Que dizer que ela pode morrer? - perguntei sentindo meu rosto umedecer.
- Querida, olhe... É nossa melhor chance ou perdemos ela e o bebê.
Engoli em seco e voltei a sentar, minhas pernas pareciam não conseguir suportar o peso do meu corpo:
- Não há outra maneira? - o Vitor perguntou e o médico balançou a cabeça negativamente.
Depois não ouvi mais nada, fechei meus olhos, pus os fones do IPOD no ouvido e mergulhei num mundo particular onde eu poderia relembrar o momento exato em que tudo saiu do lugar, sentia minha mãos tremerem e meus pés balançarem freneticamente fazendo um barulho quando tocavam no piso branco daquele lugar. Podia sentir as batidas do meu coração ecoarem por todos os corredores, lá fora ouvia os carros e a vida noturna, risos e traços insuportáveis de uma felicidade egoísta.
Balancei meus pés mais forte, cada vez mais rápido e o barulho mais alto, abri os olhos e as poucas pessoas daquele lugar me encaravam assustadas, olhei para o Vitor e ele me olhava com seus belos olhos claros parecendo sentir pena de mim e aquilo foi a gota d'agua levantei e sai correndo daquele lugar, sentido minhas batidas acelerarem e a chuva molhar meu corpo, eu queria sumir de tudo.
Atravessei a primeira rua sem olhar, na segunda um carro vermelho freiou em cima de mim, mas eu não diminui meu ritmo e continuei:
- Luiza! Calma! - ouvi um grito vindo de trás, era o meu Vitor correndo em minha direção assim que dobrei a terceira rua.
- Some Vitor! - gritei.
- Acha mesmo que essa é a melhor maneira de encarar o que esta acontecendo? - ele perguntou e eu parei de correr.
- E qual a melhor maneira?! Minha amiga vai morrer e eu não posso fazer nada! A culpa foi minha, eu devia levar aquele tiro! - gritei.
- Mas não levou! - ele respondeu, se aproximando.
- Olha para mim Vitor, eu sou patética... Não consigo ter controle sobre mim mesma, me sinto tão vazia por dentro, tão ridícula. Eu sempre me achei tão racional, tão incrível... Na hora em que aquele cara sacou a arma eu tinha certeza que o convenceria de ir embora e olhe o que eu consegui? A sua irmã esta entre a vida e a morte por minha causa, o Fábio esta sem dormir por minha culpa, seus pais, meus pais, você... Tudo é minha culpa.
- Pare com isso, a culpa daquele homem atirar não foi sua. - ele disse num tom doce e calmo.
- Sabe Vitor... - eu percorri meus olhos por todo o seu porte e quando meu olhar e o dele se encontraram eu disse: - Não perca seu tempo comigo, sou um caso perdido... - disse relembrando todas as vezes em que errei com ele, com a Dani, com meus pais...
Nos encaramos por um tempo indeterminado até que ele segurou minhas mãos e me puxou para perto de si, nossos corpos se tocaram em sentidos contrários e seus lábios tocaram os meus num beijo forte e nesse pequeno instante o tempo parou, os carros e o barulho da cidade grande emudeceu. Éramos apenas nós dois.
-
Luiz Felipe era um menininho de cabelos loirinhos, pele clara e olhinhos verdes. Tão pequeno que foi necessário ficar numa incubadora, eu o analisava naquela manhã mostrando ao pai que seu filho daria muito trabalho quando crescesse.
- Só espero que ele não puxe o pai. - meu tio comentou.
- Eu também! - o Fábio respondeu com um sorriso nos lábios.
- Quando a Dani acordar e vir esse garotão vai ficar muito feliz. - minha mãe acrescentou.
- Graças a Deus deu tudo certo. - tia Sílvia disse, aliviada.
- Ele é lindo! - meu pai disfarçou uma lágrima.
A cirurgia tinha sido um sucesso e tudo parecia estar voltando à normalidade, minha amiga fora de perigo e meu afilhado bem ali, pertinho de nós, em pensar que em cinco horas tudo se resolveu... O Vitor dormia em casa, estava exausto e agora que a certeza de que tudo ficaria bem tinha sido confirmada ele poderia descançar.
O Fábio me deixou em casa durante a tarde e voltou para o hospital ele queria ser o primeiro que a Dani visse assim que acordasse:
- Ela é a mulher da minha vida, Luiza. - ele me confessou sorrindo durante o trajeto até em casa.
Eu sorri e não emendei nada, estava feliz por tudo ter dado certo... Tudo menos o fato de que o Vitor voltaria para Nova Iorque, apesar daquele beijo não estávamos juntos.
No dia seguinte voltei ao hospital, minha amiga havia sido transferida para o quarto de recuperação, abri a porta devagar de onde ela estava e flagrei o Fábio segurando sua mão enquanto ela o encarava com seus olhos brilhantes:
- Pensei que fosse te perder. - ele disse.
- Não vai, nunca. - ela disse com certa dificuldade, mas nada incomum para alguém que se recupera de uma cesariana e um tiro, ele tocou levemente os lábios dela e eu preferi deixar os dois a sós e voltar mais tarde, eu sabia que minha amiga e o Fábio precisavam daquele tempo a sós e eu não atrapalharia.
Estava tudo voltando ao lugar, minha amiga bem, meus padrinhos felizes, meu afilhado lindo e saudável, tudo certo, tudo como deveria ser... Ou quase tudo, pois o Vitor, bom... Ele não saia da minha mente.
-
- E então é um final feliz? - o Marcelo me perguntou numa outra tarde quando o sol já se punha, após todos os acontecimentos e tudo estar resolvido.
Baixei meus olhos e não respondi de imediato, coçei a cabeça e ajeitei a camiseta branca:
- Aparentemente, voltou tudo ao normal. A Dani recebe alta amanhã de manhã. - respondi sem encará-lo.
- É? Que bom, mas perguntei se é um final feliz para você e não para a Daniele.
- Claro que é um final feliz para mim, minha amiga ta voltando do hospital Marcelo... Não tem como eu ficar mais feliz. - fui rápida na resposta e ele riu pouco antes de emendar.
- Não mesmo? E o beijo entre você e o Vitor? - ele perguntou.
- Aquilo foi apenas um detalhe, nada que faça muita diferença... na situação em que estamos. - disse sentindo cada letra da minha frase pesar.
- Sabe que pode mudar, não? - ele pareceu prático enquanto fechava seu notebook e recolhia suas coisas da mesa.
- Posso? Marcelo, o que eu posso fazer? Virar para o Vitor e dizer: - Olha só larga tudo que você conquistou em Nova Iorque e volta pra cá, porque eu te amo muito e quero você do meu lado... Ok? Eu não posso! Eu não tenho esse direito. - admiti apertando o botão de descida do elevador.
- Quando ele volta para Nova Iorque?
- Amanhã.
- Bom... Pode ser sua última chance de fazer alguma coisa. - ele finalizou.
Cheguei em casa por volta das onze da noite, meus pais já dormiam a lua brilhava e o céu estava estrelado como a muito tempo eu não via, não sentia sono e preferi observar a rua da minha janela:
"- Bom... Pode ser sua última chance de fazer alguma coisa." - a frase do Marcelo repetia na minha mente martelando minha cabeça.
Mas o que eu poderia fazer? Pedir para ele largar todas as conquistas dele e voltar para mim? Isso seria egoísmo de mais, eu devia deixá-lo, mas também não conseguia pensar que poderia viver longe dele. Em pensar que ele estava tão perto.
Sem pensar muito peguei as chaves reservas da casa dos padrinhos, calcei minhas pantufas e sai andando pela minha rua em direção a casa onde o meu Vitor estava, abri o portão devagar e quando entrei pude perceber que meus padrinhos não dormiam em casa, fui até a porta do quarto dele e a abri devagar, sem fazer ruído algum encostei no batente enquanto o analisava:
- Isso é loucura. - sussurrei para mim mesma enquanto subia na cama devagar.
Passei a mão pelo seu cabelo e ele abriu os olhos:
- Luiza...?
- Oi... - eu disse em voz baixa, sussurrando no pé de seu ouvido.
- O que você esta fazendo aqui? - ele estranhou levantando seu corpo e sentando na cama.
- Vim te ver. - respondi, encarando seus olhos claros.
Ele sorriu enquanto esticava-se para acender a luz:
- Você é doida?
- Acho que sim. - respondi sentindo suas mãos acariciarem meu rosto.
Analisei seu corpo, seu peito despido e uma samba-canção que me instigava pensamentos impuros, passei a mão pelo seu braço sentindo sua pele, seus músculos. Beijei seus lábios e ele segurou meu braço com força, me puxou para perto de si e nossos corpos se tocaram. Meus dedos acompanharam o desenho de suas costas e ele beijou meu pescoço me fazendo gemer, suas mãos percorreram meus seios, minha barriga, minhas coxas, explorando cada parte do meu ser:
- Te amo Luiza, te amo muito. - ele sussurrou no meu ouvido.
E então fomos um só, duas almas num corpo pelo tempo necessário para que eu tivesse a certeza de que era ele a pessoa que eu amava, a pessoa que eu daria a minha própria felicidade para vê-lo feliz.
Dormi com ele naquela noite e acordei antes dele, recolhi o que era meu. Estava decidida a não atrapalha-lo, deixei uma carta no seu criado mudo explicando meus motivos e fui embora decidida a nunca mais procurá-lo.
" Rio de Janeiro, 29 /08/2010
Querido Vitor,
Bom dia amor... Na verdade não sei por onde começar, tenho tantas coisas a dizer, tanto a explicar.
Eu te amo e isso é a maior verdade que eu posso dizer, mas não tenho o direito de te pedir para ficar. Sei que você conquistou muitas coisas em Nova Iorque, tem toda uma vida te esperando lá e eu não vou pedir para largar tudo.
A noite anterior foi maravilhosa e só Deus sabe o quanto que te amo e todos esses meses sem você só me serviram para mostrar com esse amor é forte, sabe às vezes fico pensando em como não percebi você antes, quer dizer eu levei dezessete anos para me apaixonar por você.
Hoje eu tenho uma vida boa e devo a você esse meu novo mundo, tenho tudo que sempre quis, minha faculdade, meu trabalho no jornal, uma relação melhor com meu pai e devo a você essas minhas conquistas... Foi por você que voltei de Vale das Laranjeiras.
Sabe, naquele dia em que você me viu beijar o Gabriel eu me senti destruída em saber que magoei a pessoa que mais amei na vida, pior que não te ter é saber que um dia já te causei dor. Amor me perdoe pelas vezes que não disse que te amava, me perdoe pelo meu gêniozinho irritante e obrigado por todas as vezes que em você encontrei forças.
Você é a parte que sempre me faltou, é em quem penso quando estou feliz ou triste e sempre será assim, até o fim dos meus dias estarei aqui em alma e carne, tudo que você precisar farei o máximo para buscar.
Mas vá, não pedirei para ficar. Sei que há muitas coisas esperando por você lá em Nova Iorque.
Só não esqueça de que te amo, quando você se sentir só basta me ligar e eu estarei com você.
EU TE AMO,
Maria Luiza
-
Escorreguei na pedra lisa antes de firmar meus pés no chão, da última vez não havia sido tão complicado andar entre aquelas árvores. Segurei num tronco para me equilibrar e percorri meus olhos por todas aquelas inscrições, deslizei minhas mãos e consegui encontrar meu ponto de gravidade de modo que andar por entre aquele chão tornou-se uma tarefa mais fácil.
Levei algum tempo até encontrar o que eu procurava, mas estava bem ali quando avistei, como da última vez nossos nomes eternizados:
"Maria Luiza e Vitor, 2010"
Passei os dedos levemente acompanhando o desenho da letra e lembrei de cada segundo, do nosso acordo de voltar aquele mesmo lugar e recomeçar e me flagrei sorrindo um sorriso triste ao pensar que não teríamos um recomeço.
Encarei aquelas letras, aqueles nomes e beijei o espaço destinado ao nosso amor.
- Sabia que te encontraria aqui. - ouvi uma voz masculina em meio aquela vastidão verde.
- Vitor, mas você não deveria estar no aeroporto? - olhei para trás e o encarei.
Ele sorriu e respondeu:
- Não, eu deveria estar com você. Todos esses meses, era com você que eu queria estar, com você que eu queria dormir e acordar. Luiza, não há vida sem você. O que eu tenho em Nova Iorque não é nem de perto melhor do que eu tenho aqui, com você, a minha familia...
Eu me aproximei um pouco mais e fiquei a poucos centímetros de seu rosto.
- Isso quer dizer...
- Que eu vou ficar amor e não pense que é porque você quer, é porque eu preciso. Só assim me sinto feliz, é com você que quero estar.
Eu sorri e o abracei, senti seu coração bater e tive a certeza de que aquele meu instante era a verdadeira felicidade, o momento exato de voar. Tudo tinha voltado ao lugar, senti nossos lábios se tocarem:
- Te amo. - dissemos ao mesmo tempo.
Agora eu estava completa.
FIM


aaaaaaaaaah nao acreditooo vou ler *-*
ResponderExcluirAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH QUE LINDO !!
ResponderExcluiraaaaaaaaaah eu sinto tanta, mas tanta saudades do blog.. escreve uma continuação :/
ResponderExcluiraaaaaaaaaaaa que lindo, '-'
ResponderExcluiradorei essa historia, faz uma continuação *-*