terça-feira, dezembro 28, 2010

Cap XXXII - Enfrentando leões (Final)

- Ela esta com hemorragia interna! - ouvi um homem vestido de para-médico correndo com alguém numa maca acompanhado de outras pessoas igualmente vestidas.

A chuva molhava meu rosto, embora meu corpo estivesse imóvel podia sentir cada músculo se contorcer de frio, a visão estava meia turva e eu não conseguia ao certo saber se aquilo ao meu redor era real ou tudo não se passava de um devaneio da minha mente, a calma que me invadia me assustava, ninguém de familiar estava ali e ao redor eu podia ouvir sirenes, pessoas perguntando o que havia acontecido e policias pedindo aos pedestres para manter a distância e a única coisa que eu sabia era que eu estava no meio de toda aquela loucura.

- Você ficará bem minha querida! - uma mulher me disse penetrando seus olhos azuis nos meus e eu acreditei, ela parecia outra para-médica.

- O que... Aconteceu? - perguntei tentando refazer na minha mente o que havia acontecido.

Ela segurou na minha mão, mas antes de responder um homem vestido de policial interrompeu:

- Conseguimos entrar em contato com os pais das meninas. - e então fui posta dentro da ambulância acompanhada de um senhor que eu nunca havia visto na vida, ele aplicou algum tipo de injeção que me deixou sem sensibilidade nenhuma.

Uma lágrima escorreu de meu rosto, não conseguia compreender nada que estava havendo e a cada segundo a situação ficava mais confusa, eu não me lembrava do motivo que me fazia estar passando por aquilo.

- Você bateu a cabeça muito forte, mas não houve nada de mais grave. - ele me disse pouco antes de eu adormecer.


Quando reabri meus olhos uma luz branca e forte a poucos metros de mim iluminava meu corpo, a minha cabeça dóia, olhei ao redor e alguém dormia num sofá que ficava no canto do quarto onde eu estava. Consegui perceber que aquele lugar era um hospital, um quarto de hospital:

- O que aconteceu? - perguntei, sentando na cama.

A luz iluminou a face daquele homem e eu pude reconhecer meu pai, com a feição pesada e cansada ele se aproximou e me abraçou tão forte que senti meus ossos estalarem:

- Amor, filha... Te amo tanto, fiquei com medo quando soube o que aconteceu com você e a Dani! - ele desabafou e as lembranças vieram a minha mente como um soco.

O tiro, o grito, aquele homem assustador e o empurrão:

- Pai, pai! A Dani, ela me empurrou, aquele tiro era para mim! O que aconteceu com ela? Eu bati a cabeça e ela? E aquele homem?! Pai cadê a Daniele?! - eu gritei enquanto chorava desesperadamente querendo uma resposta, uma explicação.

Ele segurou nos meus ombros e não encarou meus olhos, eu sabia que algo ruim estava acontecendo:

- Querida a Dani esta entre a vida e a morte, passará por uma cirurgia para ver se salvam o bebê.

Eu congelei e por um breve instante perdi a noção de realidade, não ouvi mais nada, não vi nada apenas me afundei em lembranças, em momentos que tive com a minha melhor amiga e ali minha alma permaneceu por algum tempo que se assemelhava a eternidade.

- Luiza, filha! - meu pai me sacudiu, assustado.

- Pai? Por favor fala que é mentira, diz que os médicos estão errados... Por favor pai, diz que é um engano... - implorei, mas ele permaneceu calado e me abraçou quando pareceu que eu não aguentaria mais.


Fiquei em observação pelo resto da noite e na manhã seguinte tive alta, na verdade estavam mais preocupados com meu estado psicológico do que com meu corpo físico (ao qual não havia ficado e menor cicatriz). Vi o desespero dos meus padrinhos, do Fábio e meus pais e a sensação de mãos atadas me destruía por dentro e tudo piorou quando foi diagnósticado um quadro tão grave para a Dani que qualquer tipo de cirurgia seria fatal:

- Se eu pudesse mataria esse cara! - o Fábio explodiu numa conversa que eu tinha com ele no meu quarto de casa, eu estava encostada na cama e ele sentado numa cadeira próximo do computador.
Eu permaneci quieta enquanto observava as lágrimas rolarem pelo seu rosto cansado, suas olheiras faziam a cor de seus olhos se apagarem.
- É o meu filho e a... - ele pausou como se procurasse a palavra certa que definia a minha amiga e a relação dos dois - e a mulher da minha vida. - ele respondeu com a voz firme demonstrando toda a certeza que tinha daquela afirmação. - Luiza não sei mais o que fazer, não consigo mais dormir, não como, não trabalho... - ele apoiou os cotovelos no joelho e a cabeça com as mãos, parecia tão perdido, tão menino que tive de segurar a vontade de chorar e o abracei tentando transmitir uma falsa certeza de que tudo ficaria bem.
- É a minha melhor amiga e o meu afilhado. Deus irá nos ajudar Fábio, tenho certeza. - eu sussurrei em seu ouvido e beijei seu rosto.
Ele me encarou e forçou um sorriso fingindo acreditar:
- Vou em casa tomar banho e volto para o hospital mais tarde.
- Ta bom. - respondi com o coração fraco e a mente martelando a imagem do sorriso da minha amiga e de repente me deparei com a vontade de ir para a casa dos meus padrinhos mesmo sabendo que ninguém estaria lá.


" - Sabe... Nos momentos mais difíceis você se transforma numa rocha e tenta desesperadamente transmitir a força que você não tem para os outros só que isso te destrói Luiza e você nem faz idéia de como isso é prejudicial. - lembro da voz da Dani numa conversa que tivemos na minha sala do jornal da escola quando tínhamos dezesseis anos.
- Para de ser louca Dani, só não sou adepta dessas demonstrações de fraquezas humanas em público. - respondi fazendo pouco caso de seu conselho.
Lembro como se fosse ontem que ela balançou a cabeça negativamente e me abraçou ignorando minha ironia.
- Idiota, pode chorar eu sei que você não aguenta mais essa sua relação com seu pai e tenta ser o mais racional possível para não afetar sua mãe. - nessa hora eu a abracei e deixei toda a mágoa que sentia do meu pai esvair pelos olhos em forma de lágrimas."

Deitei na cama da minha amiga e agarrei seu elefante de pelúcia que um ex-namorado havia lhe presenteado, abri a primeira gaveta de seu criado mudo onde ela guardava as cartas de amigas e escolhi uma colorida com giz de cera de vários tons:
-

Rio, 20/05/2004

Dani,

Olha não quero parar de falar com você por causa do que o Leonardo disse, ele que é bobão. Não estou disputando a atenção dele com você, amiga ele gosta de você e não de mim.
Ah detesto esses meninos! Ah Dani resolvi nunca beijar na boca, aqueles beijos que seu irmão dá nas namoradas dele me enjoam!

Te amo!
ass.: Maria Luiza


-

Deixei um sorriso de saudade iluminar meu rosto quando me lembrei do Leonardo, nosso primeiro amor um menininho de treze anos com espinhas no rosto e voz fina.
- Ai meu Deus, ajuda a minha amiga. - sussurrei antes de adormecer na cama dela.

Fiquei um dia inteiro no hospital observando meu padrinho, a madrinha, Fábio, meu pai e minha mãe e tudo pareceu piorar depois que a tia Sílvia passou mal e desmaiou na recepção. Uma dezena de enfermeiros correram com ela, minha mãe gritou em desespero e eu sai dali de dentro.
Eu não conseguia mais ficar um minuto ao lado das pessoas que mais amava e não poder fazer nada.
- O que ela te fez? Quer dizer a Dani sempre foi uma pessoa tão maravilhosa e VOCÊ deixa uma coisa dessas acontecer com ela? Aí? Porque não me deixou tomar aquele tiro? Afinal ela ta grávida, conseguiu se resolver com o grande amor da vida dela e... - eu encarava o céu escuro e nublado enquanto dava voltas pelo estacionamento do hospital e gritava para cima. - Merda de lugar, porque eu não ouvi meu sonho! - continuei, agora olhando para baixo quando aquela voz interrompeu meus murmúrios.
- Luiza?
Senti por um milésimo de segundo meu coração parar quando encarei seu rosto e seus olhos, paralisei por completo meus movimentos e o analisei por um tempo relativamente longo, era ele mesmo e ainda mais bonito, tinha feito uma pequena tatuagem escrito algo em letras japonesas, o seu cabelo liso estava cortado, nossa... Como o Vitor é bonito, ainda não entendo o que ele viu em mim - talvez nunca entenda.
Então me joguei em seus braços e apertei meu corpo contra o dele sentindo nossas batidas se unirem em uníssono como se fôssemos apenas um, deixei seu perfume penetrar em minha pele e pela primeira vez em muito tempo me senti realmente completa de forma que nada mais parecia que podia dar errado. Senti suas mãos firmes acariciarem minhas costas e seu hálito frio arrepiar meus pêlos quando ele tocou meu rosto com os lábios num beijo de saudade:
- Eu vim o mais rápido que pude, como isso foi acontecer Luiza? Onde estão meus pais? E seus pais? E a minha irmã, como ela esta?! - ele encarou meus olhos parecendo tão perdido, mas eu estava quieta, calada, refazendo na mente tudo que estava acontecendo.
- Minha mãe e a madrinha estão lá dentro os outros foram em casa. - enfim consegui dizer.
Ele segurou minha mão como quando fazíamos quando estávamos juntos e eu o levei até a recepção do hospital onde a madrinha e minha mãe estavam, as duas o abraçaram forte e eu o vi chorar enquanto minha mãe contava tudo que havia acontecido.

- Você fez tantas coisas boas pela Daniele, acho que devo a você ela e o Fábio estarem tão bem hoje. Quer dizer... acho que se não fosse você falar ela acabaria abortando o Luiz Felipe, o Fábio estaria em algum lugar desse país e a minha filha sentiria-se destruída por dentro. E olha como eu retribui? Proibi você e o meu filho de ficarem juntos... - tia Sílvia dizia enquanto levava à boca a décima xícara de café, nós duas conversávamos na pequena cafeteira vinte e quatro horas em frente ao hospital, seus olhos estavam fundos, sua voz fraca.
- Madrinha não se culpe... - tentei argumentar, mas ela parecia não se importar com o que eu dizia e continuava:
- E se tudo fosse diferente? Quer dizer e se você e o Vitor estivessem juntos? A essa hora eu estaria com o meus dois filhos felizes e bem. O Vitor ele só foi para Nova Iorque para ficar longe de você, te esquecer... Ou pelo menos tentar, porque pela forma como ele te olhava lá dentro deu para perceber que não conseguiu...
- Tia, vai tudo ficar bem. - segurei suas mãos e fixei meus olhos nos seus.
- É... - ela respondeu, sem acreditar nas palavras que proferia.
- Vai dormir um pouco, deixa que eu e minha mãe ficamos no hospital. - eu disse diante da sua face cansada, ela me beijou o rosto e agradeceu.
Quando voltei para a sala de recepção do hospital apenas o Vitor havia, minha mãe aparentemente sumira com minha tia e eu congelei ao vê-lo sentado num dos sofás, usando um blusão social e uma calça djeans que combinava impecavelmente com seus all-stars marrom. Percebi como as duas recepcionistas cochichavam enquanto davam aqueles risinhos insuportáveis de fêmea no cio, a mais nova lançava olhares e mordia os lábios inferiores tentando chamar a atenção dele:
- Cadê a minha mãe? - perguntei sentando-me na frente dele exatamente na direção das duas mulheres, pedi mentalmente aos céus que a visão do meu Vitor fosse tampada.
- Disse para ir para casa, eu fico durante a noite aqui. Só vou embora quando meu sobrinho e minha irmã estiverem fora de perigo. - ele respondeu jogando a revista que lia para o lado.
- Você chegou de viajem hoje, deve estar cansado. Vai para casa Vitor, eu fico.
- E você quase tomou um tiro. - ele respondeu.
- Sua irmã salvou a minha vida, é o mínimo que eu posso fazer. - segurei suas mãos involuntariamente e ele encarou meu toque por um segundo.
- O que você estava fazendo hoje, no estacionamento?
Eu sorri um sorriso triste e respondi:
- Reclamando com Deus, como se isso fosse adiantar ?
- Às vezes funciona, temos que tentar de tudo amor. - ele me disse deixando escapar a forma como me chamava quando estávamos juntos. - Quer dizer... Luiza, desculpe é que tudo isso me deixou meio perturbado. - ele balançou a cabeça.
- Tudo bem, esquece.
- Nossa como ele é bonito. - uma das duas recepcionistas disse em alto e bom som sem mover um músculo do lugar.
Olhei para trás e meus olhos as fuzilaram:
- Relaxa Lu, elas já me chamaram para tomar café umas sete vezes.
- E você aceitou? - perguntei tentando ao máximo fugir do tom de cobrança, mas não consegui e ele percebeu meu ciúme.
- Claro que não, pelo amor de Deus minha irmã esta entre a vida e a morte e eu vou tomar café com uma recepcionista bonita? Tem hora para tudo.
Antes de dizer qualquer outra coisa um homem trajando um jaleco branco interrompeu nossa conversa com um sorriso nos lábios:
- Boas noticias, iremos operar e tirar o bebê e posteriormente removeremos a bala que esta alojada no pulmão.
- Sério?! Quer dizer então que a Dani vai sobreviver? - quis confirmar, abraçando o Vitor.
O médico pigarreou antes de responder, coçou a cabeça de cabelos brancos e nos encarou:
- É uma cirurgia arriscada, podemos assegurar que a criança ficará fora de perigo, mas a sua amiga... Bom... Ela tem sessenta por cento de chance de sobreviver.
- Que dizer que ela pode morrer? - perguntei sentindo meu rosto umedecer.
- Querida, olhe... É nossa melhor chance ou perdemos ela e o bebê.
Engoli em seco e voltei a sentar, minhas pernas pareciam não conseguir suportar o peso do meu corpo:
- Não há outra maneira? - o Vitor perguntou e o médico balançou a cabeça negativamente.

Depois não ouvi mais nada, fechei meus olhos, pus os fones do IPOD no ouvido e mergulhei num mundo particular onde eu poderia relembrar o momento exato em que tudo saiu do lugar, sentia minha mãos tremerem e meus pés balançarem freneticamente fazendo um barulho quando tocavam no piso branco daquele lugar. Podia sentir as batidas do meu coração ecoarem por todos os corredores, lá fora ouvia os carros e a vida noturna, risos e traços insuportáveis de uma felicidade egoísta.
Balancei meus pés mais forte, cada vez mais rápido e o barulho mais alto, abri os olhos e as poucas pessoas daquele lugar me encaravam assustadas, olhei para o Vitor e ele me olhava com seus belos olhos claros parecendo sentir pena de mim e aquilo foi a gota d'agua levantei e sai correndo daquele lugar, sentido minhas batidas acelerarem e a chuva molhar meu corpo, eu queria sumir de tudo.
Atravessei a primeira rua sem olhar, na segunda um carro vermelho freiou em cima de mim, mas eu não diminui meu ritmo e continuei:
- Luiza! Calma! - ouvi um grito vindo de trás, era o meu Vitor correndo em minha direção assim que dobrei a terceira rua.
- Some Vitor! - gritei.
- Acha mesmo que essa é a melhor maneira de encarar o que esta acontecendo? - ele perguntou e eu parei de correr.
- E qual a melhor maneira?! Minha amiga vai morrer e eu não posso fazer nada! A culpa foi minha, eu devia levar aquele tiro! - gritei.
- Mas não levou! - ele respondeu, se aproximando.
- Olha para mim Vitor, eu sou patética... Não consigo ter controle sobre mim mesma, me sinto tão vazia por dentro, tão ridícula. Eu sempre me achei tão racional, tão incrível... Na hora em que aquele cara sacou a arma eu tinha certeza que o convenceria de ir embora e olhe o que eu consegui? A sua irmã esta entre a vida e a morte por minha causa, o Fábio esta sem dormir por minha culpa, seus pais, meus pais, você... Tudo é minha culpa.
- Pare com isso, a culpa daquele homem atirar não foi sua. - ele disse num tom doce e calmo.
- Sabe Vitor... - eu percorri meus olhos por todo o seu porte e quando meu olhar e o dele se encontraram eu disse: - Não perca seu tempo comigo, sou um caso perdido... - disse relembrando todas as vezes em que errei com ele, com a Dani, com meus pais...
Nos encaramos por um tempo indeterminado até que ele segurou minhas mãos e me puxou para perto de si, nossos corpos se tocaram em sentidos contrários e seus lábios tocaram os meus num beijo forte e nesse pequeno instante o tempo parou, os carros e o barulho da cidade grande emudeceu. Éramos apenas nós dois.

-

Luiz Felipe era um menininho de cabelos loirinhos, pele clara e olhinhos verdes. Tão pequeno que foi necessário ficar numa incubadora, eu o analisava naquela manhã mostrando ao pai que seu filho daria muito trabalho quando crescesse.
- Só espero que ele não puxe o pai. - meu tio comentou.
- Eu também! - o Fábio respondeu com um sorriso nos lábios.
- Quando a Dani acordar e vir esse garotão vai ficar muito feliz. - minha mãe acrescentou.
- Graças a Deus deu tudo certo. - tia Sílvia disse, aliviada.
- Ele é lindo! - meu pai disfarçou uma lágrima.
A cirurgia tinha sido um sucesso e tudo parecia estar voltando à normalidade, minha amiga fora de perigo e meu afilhado bem ali, pertinho de nós, em pensar que em cinco horas tudo se resolveu... O Vitor dormia em casa, estava exausto e agora que a certeza de que tudo ficaria bem tinha sido confirmada ele poderia descançar.
O Fábio me deixou em casa durante a tarde e voltou para o hospital ele queria ser o primeiro que a Dani visse assim que acordasse:
- Ela é a mulher da minha vida, Luiza. - ele me confessou sorrindo durante o trajeto até em casa.
Eu sorri e não emendei nada, estava feliz por tudo ter dado certo... Tudo menos o fato de que o Vitor voltaria para Nova Iorque, apesar daquele beijo não estávamos juntos.

No dia seguinte voltei ao hospital, minha amiga havia sido transferida para o quarto de recuperação, abri a porta devagar de onde ela estava e flagrei o Fábio segurando sua mão enquanto ela o encarava com seus olhos brilhantes:
- Pensei que fosse te perder. - ele disse.
- Não vai, nunca. - ela disse com certa dificuldade, mas nada incomum para alguém que se recupera de uma cesariana e um tiro, ele tocou levemente os lábios dela e eu preferi deixar os dois a sós e voltar mais tarde, eu sabia que minha amiga e o Fábio precisavam daquele tempo a sós e eu não atrapalharia.
Estava tudo voltando ao lugar, minha amiga bem, meus padrinhos felizes, meu afilhado lindo e saudável, tudo certo, tudo como deveria ser... Ou quase tudo, pois o Vitor, bom... Ele não saia da minha mente.
-

- E então é um final feliz? - o Marcelo me perguntou numa outra tarde quando o sol já se punha, após todos os acontecimentos e tudo estar resolvido.
Baixei meus olhos e não respondi de imediato, coçei a cabeça e ajeitei a camiseta branca:
- Aparentemente, voltou tudo ao normal. A Dani recebe alta amanhã de manhã. - respondi sem encará-lo.
- É? Que bom, mas perguntei se é um final feliz para você e não para a Daniele.
- Claro que é um final feliz para mim, minha amiga ta voltando do hospital Marcelo... Não tem como eu ficar mais feliz. - fui rápida na resposta e ele riu pouco antes de emendar.
- Não mesmo? E o beijo entre você e o Vitor? - ele perguntou.
- Aquilo foi apenas um detalhe, nada que faça muita diferença... na situação em que estamos. - disse sentindo cada letra da minha frase pesar.
- Sabe que pode mudar, não? - ele pareceu prático enquanto fechava seu notebook e recolhia suas coisas da mesa.
- Posso? Marcelo, o que eu posso fazer? Virar para o Vitor e dizer: - Olha só larga tudo que você conquistou em Nova Iorque e volta pra cá, porque eu te amo muito e quero você do meu lado... Ok? Eu não posso! Eu não tenho esse direito. - admiti apertando o botão de descida do elevador.
- Quando ele volta para Nova Iorque?
- Amanhã.
- Bom... Pode ser sua última chance de fazer alguma coisa. - ele finalizou.

Cheguei em casa por volta das onze da noite, meus pais já dormiam a lua brilhava e o céu estava estrelado como a muito tempo eu não via, não sentia sono e preferi observar a rua da minha janela:
"- Bom... Pode ser sua última chance de fazer alguma coisa." - a frase do Marcelo repetia na minha mente martelando minha cabeça.
Mas o que eu poderia fazer? Pedir para ele largar todas as conquistas dele e voltar para mim? Isso seria egoísmo de mais, eu devia deixá-lo, mas também não conseguia pensar que poderia viver longe dele. Em pensar que ele estava tão perto.

Sem pensar muito peguei as chaves reservas da casa dos padrinhos, calcei minhas pantufas e sai andando pela minha rua em direção a casa onde o meu Vitor estava, abri o portão devagar e quando entrei pude perceber que meus padrinhos não dormiam em casa, fui até a porta do quarto dele e a abri devagar, sem fazer ruído algum encostei no batente enquanto o analisava:
- Isso é loucura. - sussurrei para mim mesma enquanto subia na cama devagar.
Passei a mão pelo seu cabelo e ele abriu os olhos:
- Luiza...?
- Oi... - eu disse em voz baixa, sussurrando no pé de seu ouvido.
- O que você esta fazendo aqui? - ele estranhou levantando seu corpo e sentando na cama.
- Vim te ver. - respondi, encarando seus olhos claros.
Ele sorriu enquanto esticava-se para acender a luz:
- Você é doida?
- Acho que sim. - respondi sentindo suas mãos acariciarem meu rosto.

Analisei seu corpo, seu peito despido e uma samba-canção que me instigava pensamentos impuros, passei a mão pelo seu braço sentindo sua pele, seus músculos. Beijei seus lábios e ele segurou meu braço com força, me puxou para perto de si e nossos corpos se tocaram. Meus dedos acompanharam o desenho de suas costas e ele beijou meu pescoço me fazendo gemer, suas mãos percorreram meus seios, minha barriga, minhas coxas, explorando cada parte do meu ser:
- Te amo Luiza, te amo muito. - ele sussurrou no meu ouvido.
E então fomos um só, duas almas num corpo pelo tempo necessário para que eu tivesse a certeza de que era ele a pessoa que eu amava, a pessoa que eu daria a minha própria felicidade para vê-lo feliz.
Dormi com ele naquela noite e acordei antes dele, recolhi o que era meu. Estava decidida a não atrapalha-lo, deixei uma carta no seu criado mudo explicando meus motivos e fui embora decidida a nunca mais procurá-lo.

" Rio de Janeiro, 29 /08/2010
Querido Vitor,

Bom dia amor... Na verdade não sei por onde começar, tenho tantas coisas a dizer, tanto a explicar.
Eu te amo e isso é a maior verdade que eu posso dizer, mas não tenho o direito de te pedir para ficar. Sei que você conquistou muitas coisas em Nova Iorque, tem toda uma vida te esperando lá e eu não vou pedir para largar tudo.
A noite anterior foi maravilhosa e só Deus sabe o quanto que te amo e todos esses meses sem você só me serviram para mostrar com esse amor é forte, sabe às vezes fico pensando em como não percebi você antes, quer dizer eu levei dezessete anos para me apaixonar por você.
Hoje eu tenho uma vida boa e devo a você esse meu novo mundo, tenho tudo que sempre quis, minha faculdade, meu trabalho no jornal, uma relação melhor com meu pai e devo a você essas minhas conquistas... Foi por você que voltei de Vale das Laranjeiras.
Sabe, naquele dia em que você me viu beijar o Gabriel eu me senti destruída em saber que magoei a pessoa que mais amei na vida, pior que não te ter é saber que um dia já te causei dor. Amor me perdoe pelas vezes que não disse que te amava, me perdoe pelo meu gêniozinho irritante e obrigado por todas as vezes que em você encontrei forças.
Você é a parte que sempre me faltou, é em quem penso quando estou feliz ou triste e sempre será assim, até o fim dos meus dias estarei aqui em alma e carne, tudo que você precisar farei o máximo para buscar.
Mas vá, não pedirei para ficar. Sei que há muitas coisas esperando por você lá em Nova Iorque.
Só não esqueça de que te amo, quando você se sentir só basta me ligar e eu estarei com você.

EU TE AMO,

Maria Luiza


-

Escorreguei na pedra lisa antes de firmar meus pés no chão, da última vez não havia sido tão complicado andar entre aquelas árvores. Segurei num tronco para me equilibrar e percorri meus olhos por todas aquelas inscrições, deslizei minhas mãos e consegui encontrar meu ponto de gravidade de modo que andar por entre aquele chão tornou-se uma tarefa mais fácil.
Levei algum tempo até encontrar o que eu procurava, mas estava bem ali quando avistei, como da última vez nossos nomes eternizados:

"Maria Luiza e Vitor, 2010"

Passei os dedos levemente acompanhando o desenho da letra e lembrei de cada segundo, do nosso acordo de voltar aquele mesmo lugar e recomeçar e me flagrei sorrindo um sorriso triste ao pensar que não teríamos um recomeço.
Encarei aquelas letras, aqueles nomes e beijei o espaço destinado ao nosso amor.
- Sabia que te encontraria aqui. - ouvi uma voz masculina em meio aquela vastidão verde.
- Vitor, mas você não deveria estar no aeroporto? - olhei para trás e o encarei.
Ele sorriu e respondeu:
- Não, eu deveria estar com você. Todos esses meses, era com você que eu queria estar, com você que eu queria dormir e acordar. Luiza, não há vida sem você. O que eu tenho em Nova Iorque não é nem de perto melhor do que eu tenho aqui, com você, a minha familia...
Eu me aproximei um pouco mais e fiquei a poucos centímetros de seu rosto.
- Isso quer dizer...
- Que eu vou ficar amor e não pense que é porque você quer, é porque eu preciso. Só assim me sinto feliz, é com você que quero estar.
Eu sorri e o abracei, senti seu coração bater e tive a certeza de que aquele meu instante era a verdadeira felicidade, o momento exato de voar. Tudo tinha voltado ao lugar, senti nossos lábios se tocarem:
- Te amo. - dissemos ao mesmo tempo.
Agora eu estava completa.



FIM

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Explicações

Leitores só queria dizer a vocês que esse último capitulo que escrevi não é o final, tem o último capitulo que ainda não postei, me desculpem pela demora, mas é que estou em período de provas finais na faculdade e além disso trabalho! Então o tempo fica curto demais, mas não abandonei o blog, jamais faria isso!
Só peço mais um pouco de calma, as provas já estão acabando e eu vou postar o último capitulo!
Mas antes, gostaria que vocês comentassem a respeito da história, queria que dissesem como descobriram o blog e se possível de que estado do Brasil vocês são!
Não consigo nem expressar o que sinto quando vejo pessoas tão diversificadas curtindo a história!
Amo vocês de verdade!
Obrigada e não esqueçam de dizer a opinião de vocês!

quarta-feira, agosto 25, 2010

Cap XXXII - Enfrentando leões (Parte II)

- Luizaaa! - ouvi um grito feminino chamar meu nome, uma voz familiar, mas ao mesmo tempo irreconhecível devido ao desespero e medo incomparável. Abri meus olhos de repente e me vi no meu quarto, na minha cama, às sete horas da manhã de um domingo. Havia sido um pesadelo, mais um pesadelo que se repetia pela quinta vez em um mês. Eu não me lembrava de nada, apenas daquela voz gritando o meu nome como se eu fosse sua única esperança, sua única salvação.

Olhei para meu notebook no canto esquerdo do meu quarto e uma nova mensagem fazia aquele aparelhinho digital fazer um barulho de "bip-bip-bip".
Passei a mão pelo rosto e pus para trás algumas mechas de cabelo antes de me sentar na cadeira e ler o conteúdo do que me havia sido enviado, tenho que admitir que aquela ponta de esperança de ser uma mensagem do meu Vitor atiçou meus sentidos, mas depois de tantos meses essa esperança só servia para me incomodar e me lembrar de como eu ainda gostava dele, mesmo depois de quase oito meses sem vê-lo, sem tocar, sem falar, sem completamente nada.

-

De: Fabi
Para: Maria Luiza

Amiga!

Não esquece o trabalho de quinta! Vamos nos encontrar hoje às dez para fazer a entrevista!

Beijos e te amo doida!

-


Passei a mão pelo rosto ao terminar de ler o e-mail “- Droga, esqueci dessa porcaria." - o trabalho da faculdade anunciado pela professora semanas atrás ainda estava inacabado, eu precisava fazer a minha entrevista com alguma religiosa que eu ainda não fazia idéia de quem pudesse ser.

Depois que passei na faculdade e o meu texto foi um dos melhores do concurso de jovens jornalistas meu tempo se tornou corrido demais e quase não me deixava parar em casa, de manhã eu fazia a faculdade à tarde ia para a redação do jornal trabalhar com meu instrutor um grande e conhecido jornalista chamado Marcelo Rezende, famoso por suas colunas e reportagens policias. Como meus pais costumavam dizer: - Correria demais para uma menina de agora 18 anos - mas eu admito que AMAVA tudo ao meu redor, meus novos amigos de faculdade, meu trabalho, o relacionamento da Dani e do Fabinho, agora os dois brigavam quase todos os dias e vinham até à mim reclamar um do outro ele queria que ela fosse morar com ele e ela queria continuar na casa dos pais.

A Nanda e o Gabriel começaram a namorar e tenho que dizer que é um dos casais mais divertidos que já vi na vida quando eles vem para o Rio saímos os cinco eu e os dois casais e de vez em quando algum amigo meu gay.

O meu mundo tinha ficado mais maduro, mais divertido, mas sem o meu Vitor, sem a pessoa que fez que tudo isso acontecesse e eu nem pude agradecer, não tive a oportunidade de me despedir e dar aquele beijo que mudaria tudo, mudaria o nosso rumo. Depois dele tive alguns encontros não felizes, conheci rapazes absurdamente lindos e não vi graça alguma, no início a dor era grande a saudade parecia que iria me sufocar e nas primeiras noites dos três primeiros meses dormir era algo impossível, aos poucos fui me adaptando e traçando maneiras de burlar esses sentimentos, passei a me acostumar com essa falta dele, não mais procurava, desisti de ligar e de mandar e-mails, de pedir noticias dele pela Dani desde que conversamos inusitadamente pelo telefone numa noite de maio quando eu e ela iríamos sair para um aniversario de um amigo do Fábio:


- Amiga atende o telefone! - ela gritou do banheiro naquela noite quando ouviu o telefone tocar.

Depois de meio minuto procurando aquele aparelhinho sem fio esquecido debaixo do travesseiro dela atendi.
- Alô!?
- Lu? Tudo bem? É o Vitor. - meu coração disparou e senti as veias por sobre minha pele pulsarem ao ouvir aquela voz que eu já reconhecia mesmo antes dele se identificar, fiquei quieta e minhas palavras sumiram: - Luiza? Você esta aí? - ele perguntou diante do meu silêncio e eu só pude formular alguma fala quando me sentei na beira da cama da minha amiga.
- É... Humn... Tô sim, é que a Dani esta no banho e seus pais saíram. - respondi sentindo cada partícula do meu corpo tremer.
- Ah sim, mas e então como você esta? - ele perguntou parecendo ter o controle perfeito da situação totalmente inusitada.
- Bem e você? - perguntei não parecendo muito inteligente, admito, mas formular alguma pergunta bem elaborada parecia quase que impossível.
- Também. - ele respondeu meio que sorrindo como se achasse graça de algo que eu não pude imaginar.
- Do que você esta rindo? - perguntei.
- De nós Lu, de nós minha menina. - ele me respondeu e mais uma vez fiquei sem o que dizer, sem palavras possíveis para adicionar aquele diálogo desagradável, mas que eu não queria encerrar.
- Ta... Mas... E ai? Como é Nova Iorque? - pigarreei e perguntei depois de algum silêncio.
- Normal, não tenho achado muita graça. Prefiro lugares mais calmos e diferentes, tô pensando em ir para a Inglaterra passar um tempo lá, depois Egito, Índia...
- É, legal... - na verdade não era nada legal, saber que ele poderia nunca mais voltar pra mim, nunca mais voltar para o meu país, o meu estado, a minha rua não era uma idéia boa e agradável e conviver com isso me assustava.
- Pois é. - ele completou e depois se calou, ficamos então num silêncio que só não se totalizava devido ao som de nossa respiração, e eu preferia esse estado à desligar o telefone e não mais falar com ele.
- Vitor... - eu disse enfim, depois de quase dez minutos quietos.
- Pode falar. - ele disse.
- Você ainda me ama? - perguntei e ele sorriu.
- Ora, que pergunta boba. Claro que te amo. - senti meu coração e minha alma se acalmar e a segunda pergunta mais obvia e objetiva estava prestes a ser feita, afinal se ele ainda me amava porque não voltava para ficarmos juntos? Mas a pergunta dele interrompeu a minha.
- E você Luiza? Ainda me ama, como antes? Como sempre foi? - eu fiquei quieta e não consegui responder é claro que eu o amava! É claro que eu o queria comigo para sempre, mas não entendo porque não disse, não entendo porque fiquei calada!
- Vitor vamos logo! - ouvi uma voz feminina ao fundo chamar por ele e meu coração voltou a apertar.
- Tenho que ir agora menina. Até um dia.- ele se despediu.
- Tchau... - desliguei e senti meu rosto umedecer com as lágrimas que desceram de meus olhos, lágrimas de raiva de mim, raiva dos meus sentimentos e da minha incapacidade de correr atrás de quem eu amo.


Desde então não mais tivemos contato algum, segui minha vida com a conquista de alguns objetivos e o meu tempo vazio foi preenchido com matérias do jornal, trabalhos da faculdade, festas e pesadelos. Pesadelos esses caracterizados por alguém gritando o meu nome, alguém que eu conhecia, mas não reconhecia.

- E se esses pesadelos forem algo que pode vir a acontecer? Tipo algum presságio? - a Fabi me disse enquanto dividia sua atenção entre o volante do carro e nossa conversa sobre meu sonho.
- Eu não levo muito jeito para médium, amiga. - brinquei, enquanto procurava uma rádio interessante no aparelho de seu carro.
- Ah amiga não deve ser nada de muito importante, fala sério! Vai ficar encucada com isso? Com tanta coisa mais importante acontecendo?
- É, pode ser. - eu disse me ajeitando no banco do carona quando ela parou no sinal vermelho.
- E nós vamos para onde? Já decidiu quem iremos entrevistar? - ela me perguntou sorrindo aquele sorriso singelo que deixava seu piercing de dente à mostra.
- Aham. - eu ri antes de lhe entregar um folheto com a foto de uma mulher de cabelos pretos, maquiagem exageradamente forte e olhos verdes:
- Madame Zuleika? Ta brincando né? - ela riu-se e olhou para mim com a face rosada.
- Não temos mais tempo de conseguir outra pessoa. - respondi enquanto ela estacionava o carro numa vaga perto da praia.
- Eu devo ser mais médium que essa mulher. - minha amiga comentou enquanto atravessávamos a rua antes de entrar numa loja de produtos místicos onde uma menina de tatuagem no pescoço e olhos escuros lia uma revistinha em quadrinhos.
- Oi. - eu disse e os olhos escuros daquela garota vieram diante os meus.
- Sim?
- A madame Zuleika? Viemos falar com ela?
- E o que vai ser? Qual tipo de trabalho?
Enruguei as sombracelhas estranhando o fato daquela menina saber o motivo que fez eu e minha amiga estar naquele lugar:
- Um de faculdade. - a Fabi respondeu.
A menina pareceu estranhar:
- Que? Eu tô perguntando se é trabalho de amarração, afasta rival, trazer o amor de volta, negócios... - ela listou uma série de trabalhos e eu ri alto:
- É que precisamos fazer uma entrevista com alguma religiosa. Fazemos jornalismo. - a Fabi respondeu enquanto meu humor voltava ao normal.
- Ah sim, é setenta reais a consulta e mais dez o cafezinho. - a menina respondeu.
- Que? Que cafezinho? Isso é um absurdo, não vou dar oitenta reais por uma entrevista e um cafezinho que eu nem bebi? - antes que minha amiga pudesse terminar seu protesto pus metade do dinheiro no balcão e a outra metade convenci a Fabi a pôr alegando que não tínhamos tempo para protesto e discursões.

Madame Zuleika era tão assustadora e esquisita quanto na foto do anúncio, ela nos esperava numa sala sem claridade alguma atrás de uma mesa redonda decorada com um pano roxo e vermelho e em volta dela prateleiras nas paredes cheias de livros das mais variadas magias, devo admitir que me senti levemente inclinada a perguntar sobre o Vitor mesmo não acreditando em nada daquilo:
- Bem vindas minhas jovens. - aquela senhora nos disse.
- Claro que temos que ser bem-vindas, pagamos oitenta reais pra estar aqui. - a Fabi cochichou e eu contive minha gargalhada daquela situação através de um sorriso singelo.
- Madame Zuleika, acho que a menina do balcão já disse para que viemos até aqui. Temos algumas perguntas para lhe fazer e gostaríamos que a senhora nos respondesse... - comecei e a minha amiga me acompanhou com as perguntas.

Em uma hora descobrimos quase tudo sobre o perfil dos clientes daquela senhora, que também nos contou o motivo que a fizera estar ali e a sua renda mensal que lhe permitia usufruir de um apartamento na zona sul, uma casa de praia e pagar a faculdade de medicina do filho. Ela preferiu não ter seu nome dito na entrevista e aceitamos essa condição sem pestanejar. Acabei contando de meu sonho e a Fabi da relação conturbada com seu irmão mais velho e viciado, parecia que tínhamos nos tornado intimas daquela senhora não tão mais assustadora assim e muito interessante, diga-se de passagem.
- Por ultimo Madame Zuleika, essa história de trazer amor de volta é real? Traz mesmo? - enfim perguntei.
Ela sorriu e respondeu:
- Só é amor se é recíproco, ah e mais uma coisa cuidado com esse sonho. Sonhos que muito se repetem são presságios. - ela me avisou e eu senti um calafrio me correr pela espinha e arrepiar meus pêlos do braço. Era a segunda vez que escutava a palavra pressagio dita no mesmo dia.
Balancei a cabeça num sinal de "sim" e peguei minha bolsa deixada num canto da sala escura pouco antes de me retirar daquele local.

- Madame Zuleika! Amiga você já foi mais racional, a faculdade não ta te fazendo bem. - a Dani riu-se ao repetir pela terceira vez o nome da senhora ao qual fui entrevistar durante o dia.
- Não estou vendo graça nenhuma Daniele! - resmunguei pouco antes de levar à boca um pedaço de sorvete grudado na colher.
- Vocês gastaram oitenta reais para uma entrevista que eu poderia ter dado Luiza! - o Fábio completou juntando-se a minha melhor amiga para rirem de mim.

- Desde quando você é religioso?
Fiz uma careta e levantei do balcão da cozinha deste último e me distrai por um segundo apreciando a beleza dos dois juntos, eles realmente eram perfeitos um para o outro, fiquei a observar o barrigão da minha amiga e imaginei como a criança seria bonita. O nome já havia sido escolhido "Luiz Felipe", meu padrinho ficou radiante quando soube que o nome de seu neto seria o mesmo que o seu, mas a Dani me avisou que na verdade era uma homenagem à mim pondo a versão masculina do meu nome no filho que ela esperava, uma criança que nasceria dotada de todos os presentes genéticos possíveis.
Quase não acreditava que eu estava vendo-os juntos enfim, aquilo me fazia tão bem que eu não conseguia explicar, depois de tanto tentar ele conseguiu convencê-la de seus sentimentos com um simples "Eu te amo".
- Heim amiga, vamos jantar amanhã a noite? Conheço um restaurante perfeito, só nós duas! Como nos velhos tempos! - a Dani me convidou parecendo radiante com a idéia.
- Ta bom amiga. - eu aceitei, pouco antes de ignorar o calafrio que me subiu pela espinha e congelou meu crânio por um estalar de segundos.


O relógio despertou às seis da manhã naquela segunda-feira chuvosa e uma sensação estranha me instigou a continuar deitada, mas minhas responsabilidades me fizeram ir contra meus instintos e às seis e quarenta e cinco eu tomava café da manhã com meus pais na cozinha:
- Bom dia querida! - minha mãe me abraçou enquanto servia o café e meu pai continuou com os olhos fixos no caderno de esportes:
- Bom dia mãe. - beijei seu rosto e me sentei na bancada, apoiei minha cabeça com as mãos e respirei fundo: - "Luizaaa!" - aquele gritou feminino veio à minha mente quando fechei meus olhos.
- Luiza escutou seu pai falar? - minha mãe perguntou e eu balancei a cabeça negativamente.
- Quer carona até o centro? Vou ter que resolver alguns problemas por lá e podemos te deixar perto da faculdade. - ele avisou olhando para mim como quem diz - “Você esta surda ou esta louca?".
- Beleza, aceito sim. - respondi pondo a mochila nas costas. - Então podemos ir logo, é que depois vou ter que passar na redação do jornal.
Meu pai sorriu e brincou:
- Ai ai essa jornalista!
Sorri de volta e desci as escadas, não estava com pressa, mas queria ocupar minha mente e esquecer esse sonho, essa voz tão familiar, essa sensação de que aquele dia não seria um dia comum como qualquer outro. Algo em mim insistia para que eu voltasse e ficasse na cama, deixasse todas as responsabilidades para o dia seguinte.

- Meu Deus Luiza, ta começando a me assustar com isso! – a Fabi me disse durante nosso almoço na faculdade, um pedaço de sanduíche que dividíamos acompanhado de um suco natural de groselha com sabor de limão e cor de água suja.

- Amiga essa voz não sai da minha cabeça, eu tenho certeza que conheço essa voz, mas a forma como ela me vem à mente me impossibilita de identificar. Quem quer que seja nunca ouvi tão aflita, tão nervosa... – continuei lembrando do som, do ruído, forçando o máximo a minha mente a descobrir quem é.

- Bom dia meninas. – o som grave de Bryan interrompeu nossa conversa, com seu 1,80m, olhos tão negros e belos, cabelos pretos e arrepiados e lábios grossos e convidativos roubou a atenção da minha amiga. Ele tinha vinte e dois anos, filho de americanos naturalizados, fazia engenharia e no seu tempo livre jogava tênis. Era um dos solteiros mais disputados daquela instituição de ensino superior e ele sabia perfeitamente disso.

- Oi. – respondi, seca.

- Bryan, senta aí! Tudo bom? – a patética ceninha da minha amiga denunciou toda a animação dela em relação aquele menino, que eu particularmente não achava graça.

- E então meninas que tal um happy-hour hoje à noite depois da última aula? – ele nos convidou com aquele sorriso que impossibilitava qualquer uma de dizer não (qualquer uma, menos eu).

- Não posso, tenho um jantar com uma amiga. – respondi e mais uma vez o calafrio estranho me subiu pela espinha.

- Por mim ta ótimo! – a Fabi respondeu e eu levantei irritada.

- Amiga tenho que ir à redação do jornal. Mais tarde nos falamos! – me despedi sendo parcialmente ignorada, eu sei que a Fabi não fazia de propósito, ela fazia parte de uma maioria da faculdade que era apaixonada por aquele rapaz. Por esse motivo sempre relevava às vezes que eu me via numa situação semelhante.

A redação do jornal ficava no centro da cidade, num prédio de vinte e dois andares, o lugar cheirava a notícia, paparazzis, repórteres investigativos, humoristas de charges, colunistas... Tudo que líamos no jornal eu via acontecer bem ali, bem na minha frente. Quando pisava naquele lugar sentia que tudo fazia sentido, entendia o motivo que me fazia ter tanta paciência com as aulas chatas da faculdade e sentia que meu destino estava ali. Para cada computador um jornalista genial, um ser-humano fazendo acontecer, um alguém destinado a espalhar o que alguns queriam calar.

- Desculpe a demora. – pedi ao meu instrutor sentando-me ao lado dele.

- Não tem problema Luiza, hoje o dia esta tranqüilo. Sem acontecimentos apocalípticos. – ele brincou terminando de escrever sua coluna para o dia seguinte.

Esbocei um leve sorriso e voltei meus olhos, fixos, a tela do computador que ganhava palavras através da digitação rápida e prática do meu instrutor.

“... e quando você não sabe o que fazer e aquela vontade de fugir começa a te instigar, essa – meus caros leitores – é a hora de parar, é a hora de repensar suas atitudes e admitir suas franquezas. Porque é muito fácil para um ser-humano errôneo e cheio de defeitos negar seus sentimentos, negar suas origens. O difícil é aceitar que somos todos iguais, que não existe ninguém melhor do que ninguém e que você, eu, seus pais e seus filhos foram originados através de um orgasmo que deu certo. Então ponha os pés no chão, siga adiante e não minta para si, não burle seus pensamentos e não altere suas verdades. Você é o que você sente, o que transmite e o que permite...”

A melhor parte de trabalhar com um colunista absurdamente inteligente é que para quase tudo há uma experiência, há um conselho guardado. Eu fiquei lendo o que ele escrevia e me perdi nas horas desejando que o tempo parasse bem ali, bem naquele instante enquanto a imagem do meu Vitor vinha a minha mente.

Sempre fui péssima em falar sobre meus sentimentos, péssima em admitir minhas fraquezas. Talvez fosse por isso que eu estava sem o meu Vitor e aquela sensação de vazio parecia aumentar a cada dia, a cada manhã e a cada e-mail que chegava e me proporcionava aquela patética esperança de ser ele.

- Acho que não fizemos muita coisa hoje. – ele comentou quando o relógio marcava oito e meia e o andar em que estávamos só nós restávamos.

- Vou jantar com a Dani hoje, ela já deve estar me esperando. – comentei quando ele tocou o botão para o elevador descer.

- Dani é a irmã do Vitor né? – ele quis confirmar, o Marcelo era uma das pessoas que sabia quase tudo a respeito do Vitor. Além da minha melhor amiga era a única pessoa que sabia que eu havia perdido a virgindade com ele.

- É. – respondi.

- E nunca mais você falou com o Vitor? A última vez foi aquele telefonema?

- Foi. – respondi me lembrando do acontecimento com certo pesar.

Ele sorriu e emendou num humor jornalístico:

- Acho melhor você comprar o jornal amanhã, recortar minha coluna e colar no seu armário até você aprender!

Eu ri, na verdade já havia pensado em fazer aquilo.

A Dani me aguardava no restaurante com algumas bolsas de lojas de bebês ao lado da cadeira em que estava sentada, percorria seus olhos pelo menu esperando minha chegada. Sentei a sua frente, pus minha bolsa ao lado e estiquei meus braços tirando aquele papel plastificado de seu rosto:

- Demorei? – perguntei.

- Mais ou menos, mas tudo bem. Passei meu tempo discutindo com o Fábio pelo celular. – ela respondeu e eu sorri.

- Então o tempo passou rapidinho. – brinquei. – Essas bolsas aí são presentes para o Luiz Felipe?

- Roupinhas, amiga! Comprei uns conjuntinhos pra ele. Ah em falar nisso eu e o Fábio concordamos em pedir para você ser a madrinha do Luiz Felipe, não tem como ser outra pessoa, porque você foi a que mais nos apoiou. Devo muitas coisas a você amiga, muitas mesmo. E o Fábio também.

- Claro amiga! Meu primeiro afilhado! – respondi sem conter minha animação e abracei a minha melhor amiga sentindo o bebê chutar.

Jantamos em silêncio, trocando olhares a toda pessoa que adentrava aquele lugar e rimos de piadas internas que só nós sabíamos, fazia tempo que não desfrutávamos daquele momento só nosso, nada parecia ter muita importância e até o Vitor se tornou irrelevante por um pequeno espaço de tempo:

- Ai como eu precisava disso! – a Dani admitiu enquanto andávamos pelas ruas em direção ao nosso condomínio.

- É sim amiga. – respondi, dividindo minha atenção entre ela e um homem que nos seguia desde a ultima esquina em que viramos.

- Bem que o Fábio disse que tínhamos que sair só nos duas! Ele estava certo! To me sentindo tão mais leve. – a Dani continuou sem perceber aquele homem estranho que fazia meus sentidos dispararem.

Segurei no braço da minha amiga e me aproximei de seu ouvido, sussurrando o mínimo possível:

- Eu acho que esse cara esta nos seguindo.

Ela não disfarçou e olhou para trás dando aquele completo estranho a “deixa” para nos render, ele sacou um objeto metalizado, preto, da cintura e apontou para nós. Não havia ninguém ao redor para nos proteger, ninguém para presenciar aquela cena. A rua escura, pequena e assustadora não nos permitia correr e os olhos vermelhos e a condição alterada daquele ser-humano denunciava o uso de algum tipo de droga:

- Quero a bolsa e o celular! – ele disse piscando freneticamente os olhos como se tivesse algum tipo de problema.

- Meu Deus, meu Deus... – a Dani congelou e manteve-se imóvel.

- Amiga calma. – segurei sua mão e tirei a bolsa de seu braço.

- Anda logo! – ele gritou, nervoso, apontando para nós aquele revólver.

- Calma, ela ta grávida! Eu vou te dar a bolsa... – estendi a mão e lhe entreguei ambas as bolsas (minha e dela) e ele arrancou dos meus dedos.

Ele não havia ido embora, continuava na nossa frente apontando aquele objeto e não parecia conseguir pensar direito e tudo que vinha a mente ele deixava escapar pela boca deixando eu e minha amiga mais aflitas:

- Vocês vão me denunciar, vão me matar, vão me... É melhor matar vocês, é melhor matar vocês, mas eu nunca matei ninguém, não sou um assassino, preciso de mais drogas, preciso... – minha amiga parecia não mais se agüentar de pé e eu apoiei o corpo dela com meus ombros. Ela chorava compulsivamente e eu tentava manter o controle, mas por dentro queria desmoronar.

- Calma, não vamos fazer nada. Vá embora que não faremos nada, eu juro! – tentei argumentar.

- Cala a boca! – ele gritou e eu me assustei engolindo todas as palavras.

- Amiga ele vai nos matar. – a Dani me disse e eu segurei em suas mãos que estavam geladas e tensas.

- Calma Dani.

- Calem a boca! Fiquem quietas suas vagabundas! – aquele homem pôs a mão na cabeça e em seguida virou seus olhos para nós como se estivesse tomado uma decisão, senti mais uma vez o calafrio me subir a espinha e tudo fez sentido. Aquele homem havia decidido nos matar.

- Luizaaa! – ouvi aquela voz novamente, mas dessa vez não era sonho. Era a minha amiga Dani, ouvi um disparo, minha cabeça bateu no chão e tudo escureceu.


terça-feira, março 09, 2010

Cap XXXII - Enfrentando leões (Parte I)

- Bom dia. - sussurrei minimamente na tentativa de quebrar o silêncio assustador da surpresa.
O meu pai me encarou sem movimentar um músculo, permaneceu imóvel por alguns segundos.
- Luiza, o que você esta fazendo aqui? - sua voz saiu com certa dificuldade enquanto ele caminhava na direção do portão.
- Vim conversar com o senhor. - respondi, assustando-me com o meu tom mais firme que o imaginado.
Ele me encarou nos olhos e eu não ousei desviar por um minuto se quer, permaneci com a cabeça ereta e os olhos certos e adentrei a minha casa sem gesticular um abraço de saudade, nem eu e nem meu pai estavámos preparados para isso, ainda não era hora.
Subindo as escadas e o cheiro de café parecia penetrar as paredes daquela casa era sinal de que minha mãe estava em casa, ela lia o jornal sentada na bancada da cozinha quando entrei naquele cômodo que eu tanto sentia falta.
Vi seus olhos encherem-se d'água quando se deparou com a minha imagem diante dela:
- Meu Deus... Você esta aqui! - ela sussurrou no meu ouvido apertando seu corpo contra o meu como se quisesse ter a certeza de que aquele momento era real:
- Oi mãe! Saudades de você! - cochichei quando ela me beijou o rosto.
- Te amo, te amo, te amo! Como senti sua falta Luiza! Mas como? Quer dizer como veio para cá sem dinheiro? - ela me disparou perguntas.
- Calma mãe vou lhe contar tudo, mas antes preciso conversar com o meu pai. - respondi.
Os dois entreolharam-se como quem se comunica por pensamento e eu puxei uma cadeira para perto da bancada.
- Comece. - ele disse, mantendo seu porte inabalável.
Respirei fundo e engoli seco antes de iniciar e tomei um gole do café servido deixando todo aquele liquido quente percorrer minha garganta:
- Pai vim aqui na intenção de conversar para ver se chegamos a um denominador comum.
Ele suspendeu a sombracelha pretensioso, mas não me intimidou aliás devo admitir que me senti desafiada e afiei minhas palavras:
- Da última vez não conversamos, na verdade acho que o senhor nem me deixou expor meu lado. Acho que já esta na hora de enxergar que eu cresci e tenho minhas vontades, não quero desafiar o senhor, mas preciso que me aceite.
- Quando você diz aceitar inclui o seu relacionamento com o Vitor? - ele perguntou, fazendo uma pausa ante de continuar.- Inclui suas mentiras também?
Baixei meus olhos como quem esta prestes a desistir de algo aparentemente sem esperanças, mas eu já tinha ido longe de mais para lhe dar as costas:
- Por favor pai não dificulte as coisas entre nós e não faça nosso relacionamento se equiparar ao seu e da minha avó. - pedi e ele pareceu desestruturar suas ofensas. - Eu amo o Vitor... - iniciei, mas ele explodiu e me interrompeu.
- Por Deus, Luiza você só tem dezesete anos o que entende de amor? É muito nova, uma garota inexperiente que acabou caindo na lábia do primeiro homem mais velho que apareceu!
- O senhor acha que se eu não o amasse estaria aqui? Não sei se o senhor sabe, mas minha avó é rica, ela é dona do jornal mais lido da cidade, eu poderia estar lá, fazer uma faculdade e trabalhar ao lado dela, mas estou aqui por amar o senhor, a minha mãe e o Vitor. Larguei tudo para recomeçar da melhor maneira possível.
Minha mãe me sorriu sem ousar dizer uma palavra, ela sabia que aquele momento cabia a mim e a meu pai e ela apenas assistia a tudo parecendo sentir orgulho de algo que eu não fazia ideia:
- E a faculdade de medicina? - ele perguntou de volta ao tom moderado e calmo.
- Nunca foi meu sonho, quero fazer jornalismo e gostaria muito do seu apoio. Minhas notas em matérias de saúde eram péssimas. - balancei a cabeça e levantei da cadeira.
Ele fez uma pausa enquanto navegava em pensamentos:
- Onde você esta hospedada?
- Na casa do Fábio. - respondi e os olhares espantados de ambos me metralharam.
- Fábio? - os dois perguntaram em uníssono.
Pausei por um instante, explicar a história do Fábio desviaria por completo o rumo ao qual eu realmente queria dar aquele momento:
- Isso eu explico depois. - tentei encurtar a conversa para que não fugisse do foco.
Minha mãe franziu os lábios e meu pai pareceu mais atento a mim o que me assustou, devo admitir, os dois pareciam não mais me enxergar como uma menininha e sim como alguém maduro o bastante para ser ouvido e levado a sério:
- Então você veio aqui para pedir para voltar, para namorar o Vitor e para virar amiguinha do Fábio? - ele ironizou, por mais que seus olhos demonstrassem que meu pai estava quase cedendo ele ainda fazia questão de fingir ser a pessoa mais indiferente do mundo.
-Não senhor, vim aqui para fazer minha faculdade, namorar o Vitor e sim, já virei amiguinha do Fábio. - respondi devolvendo a ironia, mas dessa vez ele não se irritou até esboçou um sorriso.
- Você sabe que o Fábio engravidou a sua melhor amiga ?
Balancei a cabeça afirmando e devolvi:
- O senhor só sabe uma parte da história.
Ele revirou seus olhos para cima e em seguida encarou minha mãe e mais uma vez os dois pareceram se comunicar mentalmente e depois de alguns segundos de total silêncio, sua voz saiu mais leve e branda:
- Senti saudades de você. - ele admitiu escondendo algumas lágrimas que escorreram de seus olhos.
- Te amo pai. - eu o abracei como nunca havia feito antes, eu sei que nossas diferenças continuariam, mas naquele momento, naquele exato momento ele abriu um precedente para que pudéssemos resgatar o tempo perdido.
- Me desculpa querida, me desculpa...-ele repetiu algumas vezes no meu ouvido enquanto eu o abraçava.
- Tenho que procurar o Vitor! - disse, depois daquele momento, mas a face de ambos mostrou saber de algo que ainda não fazia parte de meu conhecimento:
- O que aconteceu? Porque vocês estão com essas caras? - perguntei assustada.
- Filha... o Vitor, ele, bom... vai se mudar do bairro. - minha mãe iniciou.
- E vai pra onde? - perguntei sem muito me preocupar.
- Pra Nova Iorque.
Arregalei meus olhos e corri em direção à casa da minha madrinha, mas flagrei uma imagem que me fez parar: reconheci com precisão o meu Vitor sair de dentro de seu carro acompanhado de uma loira desconhecida, ele a beijou de forma ousada sem importa-se com os olhares acusadores de pessoas que cruzavam seu caminho e muito além disso aquela mulher correspondeu na mesma intensidade, ele estava bem vestido e parecia ainda não ter dormido. Fiquei encarando-os ao longe e me obriguei a assistir como a mão dele descia pelo traseiro dela e um sorriso charmoso enfeitava o belo rosto do meu Vitor, os dois entraram numa casa do condomínio que antes da minha mudança ostentava uma placa de aluga-se e agora não mais havia. Fiquei no mesmo lugar estática me segurando para não correr até aquele portão em que ele entrou e dizer: - Vitor não faça isso, estou aqui! - mas freei minhas vontades e desviei meu caminho para a casa do Fábio.

- Ele não te viu Lu! - a Nanda insistiu pela quinta vez enquanto eu mergulhava naquele pote de sorvete de chocolate que tinha na geladeira do Fábio.
- Foi horrível vê-lo com outra pessoa, da forma como eu vi... Não o reconheci, na verdade nem imaginava que ele poderia ser daquela forma...
- O Vitor nunca foi nenhum príncipe encantado Luiza, já sai para alguns lugares e pude ver. Ele só mudou porque te ama o o que não deve ser o caso dessa loira que você disse. Até porque se ele se importasse com ela não agiria da forma como agiu na frente de todos. - o Fábio, quem diria, explicou.
- E essa historia dele se mudar para Nova Iorque? É verdade mesmo?- o Gabriel continuou, nós quatro estavamos na sala sentados envolta da mesinha de centro.
- É, meus pais não mentiriam pra mim. - respondi. - e agora o que eu faço? -perguntei.
- Continua a fazer o que você iria fazer, vai conversar com os seus padrinhos, a Dani e ele. O que tiver que ser, será. - o Fábio aconselhou.
- É você fala isso, mas e a Dani? Conversou com ela?
- Ela nem quis olhar na minha cara, porque você não conversa com ela e aproveita para falar bem de mim? - ele disse e todos sorrimos com a simplicidade dele.
- Ta bom Fábio, deixa comigo. - finalizei antes de levar à boca aquela colher de sorvete.

No final da tarde quando o céu avermelhado fazia os moradores do condomínio saírem para suas caminhadas eu voltei para a casa de meus pais, meu quarto estava como eu havia deixado e quando me joguei na cama pude sentir todas os momentos que ali tive com meu Vitor encherem-me de paz, não fiquei ali por muito tempo, depois do banho fui para a casa da minha madrinha, já era noite e eu me sentia renovada e encorajada caminhando pelas ruas do condomínio pude ver ao longe seu Jorge, mas ele não meu viu.
Fiquei na dúvida entre tocar a campainha e entrar usando a chave que os pais da minha amiga deixavam com os meus, preferi a segunda opção e abri o portão:
- Já estou cansada dessa situação, quase não reconheço mais o Vitor! - escutei minha madrinha desabafar para o meu padrinho, os dois conversavam na sala quando eu entrei.
- Boa noite. - eu disse, foram as únicas palavras que consegui reproduzir quando os encarei.
- Luiza? - tia Sílvia estranhou minha aparição naquele cômodo.
Esbocei um sorriso sem jeito e antes de qualquer retaliação disparei:
- Olha eu vim aqui para pedir desculpas, quero muito que tudo volte a ser como antes, mas também preciso que aceitem meu relacionamento com o Vitor porque eu o amo demais... - acho que fiquei quase duas horas conversando com os meus padrinhos, eles me contaram sobre as recentes atitudes do Vitor e que ele não mais dormia em casa e aparecia com uma mulher diferente por dia, percebi o quanto estavam preocupados e minha tia Sílvia me confessou que arrependeu-se por não ter me apoiado na época em que descobriu que eu e o filho dela estávamos nos relacionando, por fim fiz as pazes com os dois e fiquei até tarde esperando a Dani voltar da rua, ela tinha saído com uma amiga de escola e ainda não tinha voltado.

Entrei no quarto da Dani para esperá-la, sentei no seu computador e num canto vi um amontoado de papéis cor de rosa eram todos os e-mails que eu havia mandado para ela e no verso a sua resposta. Sorri quando li ela dizendo que eu seria a madrinha do bebê que estava esperando e algumas lágrimas desceram de meus olhos quando li um outro e-mail e ela dizia que sentia muito a minha falta:
- Luiza? - a voz da minha amiga interrompeu minha leitura e eu voltei meus olhos aquela loira linda e grávida parada na minha frente:
- Dani! - eu a abracei expressando a saudade imensa que eu sentia:
- Lu! Como você fez falta! - ela correspondeu e naquele momento percebi que tinhámos feito as pazes:
- Nossa amiga! Te amo, te amo muito!
- Lu você não imagina como foi difícil ficar sem você aqui. Me desculpa amiga, prometo nunca mais te abandonar. - ela sussurrou enquanto eu tentava secar as lágrimas que insistiam em correr de meus olhos.

Dormi na casa dela como fazíamos quando criança, tínhamos tanta coisa para contar que foi impossível dormir, de fato, relembramos o tempo de colégio, falamos do Fábio e do Vitor tudo de uma forma bem mais leve, como se aqueles dois rapazes não nos preocupassem:

- Eu o vi hoje com uma loira linda, amiga você não sabe como aquilo me magoou. - eu confessei logo após contar do motivo que fizera o irmão dela voltar tão rápido de Vale das Laranjeiras.
- Relaxa Lu, aquela era a de finais de semana. Meu irmão voltou a ser aquele galinha ordinário, só que agora bem pior. Mas ele só ta fazendo isso pra te esquecer... Bom, pelo menos é o que eu acho. Ele te ama amiga, te ama mesmo e toda a vez que eu falo no seu nome o Vitor fica desnorteado, liga pra primeira na lista do celular e sai, sem que ninguém aqui de casa saiba pra onde ele vai. Para te dizer a verdade, essa semana só o vi uma vez dentro de casa e ele estava de ressaca e para piorar ainda tem essa mudança dele pra Nova Iorque... - ela explicou enquanto eu pensava numa forma de conversar com ele:
- com medo dele não olhar mais na minha cara...
- Olha amiga se você errou em beijar o irmão do Fábio o Vitor errou muito mais em dormir com a Aline... - mordi meu lábio inferior em sinal de dúvida e antes de dizer qualquer coisa ouvi a porta da sala bater e a voz do meu Vitor interromper o silêncio da madrugada.
- Vai lá falar com ele. - a Dani me disse e eu levantei da cama determinada a conversar com o meu Vitor.

Caminhei em passos silenciosos até a sala tomando cuidado para não acordar meus padrinhos, o Vitor conversava no celular com alguém indeterminado, sua voz penetrou meus tímpanos e fez meu coração disparar gelei ao vê-lo com o blusão social aberto mostrando seu belo porte masculino:
- Poxa Lê, não posso ir na sua casa não amanhã tenho que viajar... - ouvi perfeitamente enquanto ele fechava a porta:
Dei um passo para a frente, antes de ele se virar e me flagrar espionando-o:
- Luiza? - ele pareceu não acreditar no que via e eu não consegui dizer nada.

O Vitor balançou a cabeça negativamente como se quisesse espantar um pensamento ruim e cruzou meu caminho em direção ao seu quarto como se eu não significasse nada, fui atrás dele irritada com aquela atitude:
- Acho que precisamos conversar. - eu insisti, quando entrei no seu quarto e fechei a porta.
- Sai daqui Luiza, não precisamos conversar nada. Segue teu caminho que eu sigo o meu e ponto final, nossa historia acabou em Vale das Laranjeiras. - ele disse, enquanto tirava sua camisa.
-Vitor você sabe que não, você sabe que tudo que aconteceu foi um mal entendido... - tentei explicar, mas me perdi nas palavras quando percebi que seus olhos percorriam meu ser como se fosse um ímã me atraindo para perto dele.
- Olha Luiza eu quero tirar minha roupa, será que você pode sair? - ele pediu e eu respondi:
- , esqueceu que eu já te vi com bem menos roupas? - esbocei um sorriso travesso e ele riu-se sem graça.
- Não me provoque menina, não estamos mais juntos. - ele avisou, mas meu corpo encarou como um desafio e devo admitir que gostei da reação dele.
- O que foi? Esta com medo de mim? Eu não mordo. - instiguei seus instintos e ele mais uma vez sorriu.
-Mas eu sim. - ele respondeu me puxando pelo braço antes de me beijar e morder levemnte meu pescoço como sempre fazia quando queria me atiçar, mas após uma pausa sua voz doce sussurrou no meu ouvido:
- Vá para o quarto da Dani, não quero fazer algo para nos arrependermos depois. - ele disse, sorrindo aquele sorriso singelo que usava apenas para mim.
Balancei a cabeça aceitando o que ele me pedira, mas antes de sair de seu quarto:
- Posso te pedir um favor?
- Claro Lu, peça.
- Só não use esse sorriso para mais nínguem. - não fiquei para ouvir sua resposta, voltei para o quarto da minha amiga que já dormia e deitei ao seu lado desejando esquecer aquela noite e imaginando como seria minha vida sem o meu Vitor.

Quem esta por aqui?